Uma História em Hogwarts – Irmandade 03

A eternidade parecia finalmente ter um fim, após a tortuosa e extremamente detalhada aula do professor Binns, Chaplin finalmente se viu livre, já não aguentava mais evitar os constantes olhares de piedade de seu irmão, a todo o momento que ele se virava lá estava Charles o encarando e seus olhos dizendo “sinto muito”. Do que adiantava ele sentir muito? Nada iria mudar a realidade. Assim que o professor sumiu pela parede e os outros alunos começaram a sair da sala de aula que Chaplin se levantou, ele avançou em passos largos em direção a porta, era inútil ele sabia, por mais rápido que ele fosse não daria para fugir.

– Chaplin? – soou a voz inconfundível de seu irmão. Chaplin se virou determinado a encará-lo nos olhos, porém no instante em que seus olhos cruzaram ele desviou os seus para baixo. – Chaplin, eu Sint…

– eu sei. – Sua voz saiu mais alta e ríspida do que ele queria. Então falou novamente de forma mais suave. – Eu sei Char.

– o que vamos fazer?

– nada.

– mas a mamãe está esperando nossa carta! – Chaplin sentiu uma pontada no peito ao ouvir seu irmão falar sobre isso, na verdade, o pensamento que mais ocupava sua mente e o impedira de dormir era esse, como falar para a mãe sobre isso? Como falar para ela que seu filho é um Sonserina? O primeiro da família, o único. Ele não queria fazer isso, não queria falar com ela, preferia fugir, correr para longe e nunca mais voltar.

– não vou. – falou por fim, não vou falar de forma alguma.

– mas Chaplin?

– Não vou Char, não vou mesmo. Eu vou falar que estou na Lufa-Lufa, eu vou mentir e você também.

– Não dá para mentir numa coisa dessas Chaplin. Como a gente iria enganar eles? Por todo ano letivo? Por todo tempo que estivermos em Hogwarts? É loucura.

– Pode até ser loucura Charles. – Sua cabeça começou a doer, estava se sentindo muito pressionado. – Mas é o que vamos fazer entendeu?

– mas até quando?

– ATÉ EU DESCOBRIR UM JEITO DE SAIR DE MUDAR ISSO. ENTENDEU? – Explodiu novamente e se arrependeu no mesmo instante, o rosto de Charles estava vermelho e com os olhos arregalados, cheios de lagrimas. Não aguentava ver seu irmão daquele jeito, principalmente por sua causa, então virou as costas para sair o mais rápido que podia, sua cabeça estava pulsando e sua garganta ardia enquanto ele segurava o choro com todas suas forças.

– nem parece ser você Chaplin. – ouviu a voz chorosa de seu irmão.

– A é? E pareço o que? – houve apenas silencio. – Pareço o que Charles? Um Sonserina?

– e..eu…- a voz de Charles falhava, a cada respiração dele que Chaplin ouvia era como uma facada em seu coração. – Eu não…eu não sei.

– então acostume-se. – E saiu em marcha rápida e apertando o peito com a mão esquerda enquanto as lagrimas escorriam feito dois rios pelo seu rosto.

Chaplin rodou aleatoriamente pela escola, indo e vindo dos mesmos corredores varias vezes, se sentia completamente desorientado, até agora a única coisa que ele fez foi magoar pessoas, e o pior, magoar seu irmão. Sentia um misto de raiva, medo e arrependimento, era como estar sendo arrastado para um gigantesco buraco vazio e frio, um lugar que ele nunca poderia escapar. Após mais alguns minutos andando sem rumo ele viu um grupo de alunos passar por um corredor, isso fez Chaplin voltar a si, ele tinha que ir para a próxima aula. Procurou em seus bolsos pelo pergaminho que falava das aulas que teria sem saber exatamente onde o havia colocado, felizmente estava em um dos bolsos internos de seu uniforme. A próxima aula seria Herbologia, as estufas ficavam no terreno esterno de Hogwarts, disso ele sabia, então apressou o passo na direção que julgou ser a correta. Realmente não foi difícil, após uma breve caminhada ele pode ver pelas janelas as estufas do lado de fora, pegando um corredor a esquerda logo ele estaria do lado de fora do castelo, pela primeira vez dês de que entrou. Um pouco de ar puro o faria sentir melhor, foi o que pensou, porém sua atenção foi chamada para outra situação. Indo para uma direção completamente oposta a das estufas estava o garoto que o havia acordado. Chaplin ficou estático, não sabia o que fazer. Não queria conversar com aquele garoto, não depois do que aconteceu, mas por outro lado, não podia deixar ele perambulando perdido pela escola, seria perigoso. “um Lufano nunca deixa um companheiro na mão” se lembrou de umas das frases que sua mãe sempre repetia.

– mas eu não sou um Lufano. – falou em voz baixa e soltou uma risada curta e sarcástica, em seguida correu na direção do garoto.

Correu bastante, aqueles corredores largos e extensos davam uma impressão completamente distorcida da verdadeira distancia das coisas, as coisas que pareciam estar perto estavam longe, as coisas que pareciam estar longe estavam perto, será que é alguma magia para testar os alunos? Pensou em um breve devaneio, mas isso não vinha ao caso, já estavam bem próximos agora.

– ei? Espera. – o garoto parou e se virou para trás, a primeira coisa que Chaplin reparou era que ele estava com os olhos fechados.

– falou comigo? – o garoto respondeu confuso.

– sim. Para onde você está indo?

– para as estufas.

– serio? – Chaplin ficou surpreso. – mas as estufas ficam para o outro lado. – Ao falar isso Chaplin apontou para a direção das estufas que ele podia ver pelas janelas ainda, ao perceber o gesto se sentiu envergonhado.

– mesmo? Mas…- o garoto pareceu constrangido. – uhm…entendo.

– o que houve?

– Uns colegas. Bem, eles me falaram que eu estava indo para o lado errado e me indicaram esse caminho. Eu devia ter notado, eu sou muito estúpido mesmo.

– não é não. – Chaplin se apressou a dizer. – Se perder é normal. – “e eu? É normal eu estar perdido assim?” não pode evitar pensar.

– vamos, eu te levo. – disse ao oferecendo o braço direito encostando ele de leve no braço do garoto, uma das vantagens de ter sido criado entre trouxas era saber lidar com esse tipo de situação.

– obrigado. – o garoto disse sorrindo ao segurar o braço de Chaplin, os dois começaram a andar na direção correta.

– Qual seu nome? – Chaplin decidiu começar uma conversa.

– Calvin, Calvin Butterfly.  – disse rindo do próprio nome. – O seu é Chaplin certo?

– Como sabe? – Chaplin ficou chocado, até então pensava que Calvin não sabia que ele era ele.

– Desculpe se pareceu invasivo. – Calvin estava desconcertado, tremeu um pouco para falar. – É que eu nunca esqueço uma voz sabe? Tudo que escuto fica gravado na minha memória. E… – hesitou um pouco antes de continuar. – bem, eu estava saindo da aula de Historia, você estava discutindo com outra pessoa, seu irmão eu acho. Então ouvi seu nome.

– ele estava muito chateado? – perguntou preocupado.

– bem, ele… – Calvin ficou constrangido. – Ele começou a chorar e saiu, não sei direito, posso estar enganado.

-Tudo bem, obrigado Calvin.

Continuaram o resto do caminho em silencio, andaram por um corredor cheio de janelas que deixavam a luz do sol entrar por toda sua extensão, das janelas Chaplin podia ver as paredes da escola feitas de pedra, muito mais antiga do que ele imaginava, podia ver também o belo gramado verde que se estendia até os limites da escola onde começava uma densa floresta e no fim do corredor havia uma porta aberta que levava diretamente para onde estavam as estufas. Ao se aproximarem da porta eles puderam ouvir pessoas conversando e ao sair se depararam com três alunos da Sonserina, Chaplin já havia visto eles, estavam na mesma aula que ele antes. O mais alto e forte deles deu um passo a frente rindo, ele tinha cabelos negros feito pinche e era cortados quase raspados, ele parecia ser mais velho do que deveria para poder estar na mesma turma que Chaplin. Os outros dois eram um rapaz e uma moça, os dois da mesma altura que Chaplin, o rapaz era negro e sorridente, olhava para Chaplin como se estivesse encarando um palhaço de circo, já a menina parecia não querer estar ali, ela tinha cabelos castanhos claros e os deixavam amarrados num coque improvisado, ela olhava constantemente para a direção das estufas, Charles sentia que ela parecia querer fugir.

– E olha quem foi resgatar o cego? – disse o rapaz mais alto, ao reconhecer a voz do aluno que o enganou, Calvin apertou o braço de Chaplin instintivamente. – Parece que a Sonserina está mais decadente a cada ano, mestiços, aleijados e até gente da Lufa-Lufa, e o pior de tudo é que  temos tudo isso em um único casal de namorados, o que vai ser no próximo ano? Vacas e cavalos? – os dois rapazes riram bastante. Chaplin e Calvin seguiram andando tentando ignorar a situação.

– Cachorros e sapos. – disse o outro rapaz. – Talvez um abutre.

– Só se for um cachorro cego sendo guiado por um vira-lata. – o garoto alto continuou.

– Já sei, vamos aceitar sapos, eles parecem mais adequados.

– com certeza, mas já sei! Pior do que sapos, vamos aceitar trouxas na escola.

Chaplin parou e fez o braço de Calvin o soltar.

– Não Chaplin, deixa eles. – Calvin insistiu enquanto tentava buscar Chaplin com suas mãos sem conseguir tocá-lo.

– Olha lá! O Lufa-Lufa ficou bravo, o que você… – antes de terminar a frase o garoto foi surpreendido pela investida de Chaplin, ele chegou a sacar sua varinha, mas antes que pudesse proferir qualquer feitiço o punho de Chaplin alcançou o seu nariz em cheio fazendo sangue jorrar para todos os lados, foi nocauteado com um único soco. Mas não teve sorte com o segundo rapaz, sentiu uma forte pancada nas costas que o fez cair no chão, ainda sem entender o que havia acontecido ele pode ver a garota sair correndo para dentro do castelo e em seguida uma perna vindo em sua direção. Dessa vez conseguiu se proteger dos chutes que vinham, mas era inútil tentar levantar. No caos da briga ele sentia desespero e euforia, ouvia Calvin gritar por ajuda e sentia os impactos dos chutes do rapaz, no entanto a única coisa que se passava em sua mente era saber como estava seu irmão.

– PETRIFICUS TOTALUS. – ouviu uma voz grossa dizer, e os chutes pararam. O rapaz que o agredia estava completamente paralisado na sua frente em uma postura que sugeria que outro chute seria desferido. Um professor estava ali, ele era alto e tinha um rosto ligeiramente redondo, ele trajava as cores da Grifinória.  – Por Dumbledore! O que está acontecendo aqui?

– Foi o Martin, professor Longbottom, ele e o Timothy começaram a briga. – Era a menina que havia fugido que falava, ela parecia estar aterrorizada.

– não interessa quem começou, vocês dois aí. – Disse para Chaplin e Calvin. – Me esperem no meu escritório na estufa. Você mocinha, o feitiço vai terminar logo, leve ele para meu escritório também e me aguardem lá entenderam?

– sim senhor. – Os três responderam.

– Vou levar esse aqui para a enfermagem. – Disse enquanto se abaixava para checar o aluno desmaiado. – O que estão esperando? Vocês dois podem ir.

Chaplin levantou em silencio enquanto observava o professor e depois o aluno enfeitiçado, sentiu a mão de Calvin segurar seu braço e se virou. Os dois caminharam em silencio por um tempo.

– ele nem conferiu se você se machucou. – Calvin falou primeiro.

– eu estou bem, não foi nada de mais. – respirou fundo. – me desculpe por ter gritado com você hoje cedo, não tenho me sentido eu mesmo ultimamente.

– não tem problema, às vezes eu me esqueço de fechar meus olhos, sei que incomodam as pessoas.

– não, não é isso.

– tá tudo bem, eu não me importo.

– eu estava de cabeça quente, é serio. Seus olhos não me incomodaram, até achei eles bonitos. – e pela primeira vez Chaplin riu de bom humor, estava começando a se sentir normal novamente.

– obrigado. – Disse Calvin envergonhado e rindo ao mesmo tempo e abriu os olhos, eram olhos realmente bonitos pensou Chaplin.

– pode deixar eles abertos se você quiser, eles não me incomodam em nada. – Chaplin se sentia muito melhor, se sentia leve.

– certo. – Disse Calvin animado, também estava se sentindo bem melhor. – eu vou te obedecer, ou vai que você me bate também, né? – os dois riram bastante dessa vez enquanto se aproximavam da estufa.

– Você é um babaca sabia? – Disse Chaplin rindo, e por um breve momento ele esqueceu tudo de ruim que havia acontecido e sentia que as coisas poderiam realmente melhorar.

Uma História em Hogwarts – Irmandade 02

Tudo passava rápido de mais, muitas pessoas falavam coisas, muitas coisas, era difícil até de respirar. Antes que se desse por conta Chaplin estava em uma sala cheia de outros alunos da Sonserina recebendo instruções para sua primeira aula, se parasse para pensar ele iria perceber que não fazia a menor ideia de como chegou ali, sentia sua cabeça anestesiada, não conseguia focar em nenhum pensamento, nada era palpável. – Woodgarden? – Alguém chamou, o fazendo sair de seu transe.

– pronto. – respondeu de forma automática.

– aqui está a lista de suas aulas e as indicações das salas de aula. – Disse ao entrega-lo um pergaminho, o aluno que estava falando com ele era bem mais velho, bastante alto e magro, com cabelos loiros e olhos azuis, não se lembrou do seu nome, mas sabia que se tratava do monitor graças ao broche dourado em forma de M em sua roupa. – Se tiver alguma duvida não deixem de me procurar. – dessa vez ele disse falando para todos. – andem em grupos e cuidado com as escadas e corredores, nenhum caminho em Hogwarts é cem por cento confiável. – Wuffir? – continuou o monitor a entregar os pergaminhos. Logo todos os novos alunos foram deixados em seus dormitórios, à maioria deles estava extremamente ansiosa para as primeiras aulas logo ao amanhecer e muitos estavam com a ansiedade tão grande que demoraram para conseguir dormir, Chaplin também teve dificuldades para dormir, porém não pelo mesmo motivo, ele não conversou com nenhum colega da sua casa e nem arrumou suas coisas direito, não colocou seu pijama e nem ao menos retirou seus sapatos, ficou prostrado em posição fetal em sua cama, com olhos bem abertos, ele se sentia como um filhote de qualquer animal indefeso e abandonado em um ninho de serpentes vorazes sem saber que horas seria devorado.

– Você vai atrasar. – assim que ouviu a voz, acordou assustado. O sol já entrava pela janela. Pelo menos você já tá arrumado. O que houve? Acordou muito cedo e dormiu de novo?

– não. – disse enquanto limpava os olhos, seu coração ainda batia acelerado por causa da adrenalina que sentiu. – não tenho certeza.

– A maioria já foi para as aulas, vi você dormindo, como estamos na mesma turma eu iria me sentir mal em deixar você ai. Acho que ninguém mais te percebeu.

– Obrigado. – Chaplin se levantou e começou a pegar suas coisas, arrumou sua bolsa, ajeitou sua roupa e cabelo. Deu uma olhada no pergaminho e viu que sua primeira aula seria Historia da Magia, com o Professor Binns. Agora era só descobrir onde seria a sala de aula. Quando se virou novamente se assustou, o outro aluno que o havia acordado ainda estava lá, o aguardava silenciosamente. Agora sim ele pode reparar bem nele, era quase da sua altura, um pouco mais baixo, olhos grandes e azuis bem claros, cabelos negros e lisos fazendo uma franja que tampava a testa e quase chegava aos olhos. Ficaram encarando um ao outro por um tempo, ele aparentava uma tranquilidade sinistra que dava calafrios em Chaplin, o silencio constrangedor continuava e os dois continuavam a se encarar, os olhos do garoto estavam tão vidrados em Chaplin que ele nem piscava, sem saber exatamente o que fazer Chaplin resolveu conversar.

– Oi.

– Oi. – disse o garoto sorrindo, ainda sem desviar o olhar. – Já está pronto?

– err. – Chaplin hesitou em responder, estava ficando bastante desconfortável e irritado, tanta merda acontecendo em sua vida em menos de um dia e agora tem um esquisitão da Sonserina querendo lhe irritar. Só de pensar desse jeito sua irritação crescia mais e ele não tinha nenhuma vontade de segurar mais toda essa frustração que sentia. – POR QUE RAIOS VOCÊ ESTÁ ME ENCARANDO EM?

O garoto ficou tão surpreso pelo grito de Chaplin que deixou cair sua mochila e algo a mais no chão, seu rosto ficou vermelho e ele rapidamente se abaixou e começou a tatear o chão e busca de seus pertences. Chaplin estranhou a dificuldade do garoto para pegar suas coisas, afinal, eram apenas duas coisas que caíram no chão. A mochila ele achou facilmente, mas aquele outro negocio que estava bem na frente dele, ele parecia que ainda não tinha visto, era um objeto diferente, parecia estar dobrado, era preto com partes metálicas, se esticado ficaria idêntico a uma bengala. Sentiu uma pontada no estomago ao pensar naquilo como uma bengala, Chaplin se tocou da mancada que havia dado. O garoto achou sua bengala dobrável e com um gesto a esticou.

– me desculpe, eu não tive intenção. – Seu rosto ainda estava muito vermelho, ele se virou e foi seguindo em direção à porta tateando o chão rapidamente com sua bengala. Chaplin ficou apenas estático o observando e se sentindo a pior pessoa do mundo.

– Parabéns Chaplin. – disse em voz baixa. – Agora sim você é um verdadeiro Sonserina.

 

Finalmente chegou na sala de aula, parecia ser o ultimo a chegar, porém o professor ainda não havia chegado, passou o olho pela turma e viu o garoto que o havia acordado entre outros membros da Sonserina, ele parecia estar tranquilo, mas mantinha os olhos fechados. A consciência de Chaplin pesou dolorosamente. Após um breve momento ele continuou a olhar o restante da turma e seus olhos se encontraram, Charles já estava lá e era como se o mundo todo tivesse ficado em silencio durante aqueles segundos, Chaplin abaixou a cabeça e se sentou em uma cadeira vazia próxima a porta. Todos foram surpreendidos quando o fantasma atravessou o quadro negro.

– Bom dia alunos. – Sua voz parecia um aspirador velho, ele falava lentamente e sem nenhuma emoção, ele falava como se tivesse lendo algo que estava escrito em um caderno de anotações, parando em cada virgula e expressando nada de emoção. – não temos tempo para ficar impressionados, essa é a primeira aula de Historia da Magia que vocês terão e eu estou ansioso para encher a mente de vocês com conhecimento, saibam que conhecimento é historia e a historia é conhecimento. Vamos começar nosso plano de aulas esse semestre com a origem…

Cada palavra que saia da boca do professor tinha um peso, lentamente a empolgação de cada aluno foi sendo substituída pelo sono, tedio e desinteresse, ele continuava falando sobre os temas que iram ser abordados e como seus testes seriam aplicados e por mais que coisas como Rebelião dos Duendes ou Guerra dos Gigantes parecesse extremamente empolgante, a forma com que o professor falava faziam parecer quase um grande lamurio. Charles estava muito preocupado com seu irmão para prestar a atenção em tudo isso, o observava de longe, conseguia ver o quanto ele estava triste e sozinho, perdido em um lugar onde não poderia salva-lo. Tinha que falar com ele, dizer que iria ficar tudo bem, dizer que tudo iria dar certo, mas como?

– Com licença senhorita. – Disse o professor com um tom ríspido que fez todos os alunos terem os olhos voltados para uma única aluna da segunda fileira. – Você poderia me explicar o que está acontecendo?

– Desculpe professor, é que eu estou com um problema. – A aluna era uma garota baixinha, com cabelos lisos e loiros, olhos castanhos e bochechas roliças e rosadas, ela era da Corvinal e o que chamou a atenção do professor era o fato dela manter um objeto retangular em sua mão que estava levantada acima de sua cabeça e que refletia uma tênue luz em sua face. – Não consegui sinal dês de ontem, meus dados moveis não funcionam e eu preciso informar minha mãe que minha aula já começou. – O professor assim como os outros alunos olhavam pasmos para ela, que por sua vez chegou a levantar e subir na cadeira para tentar conseguir sinal para seu smathphone. – Pensei que aqui em cima eu conseguiria algum sinal, saco. Bem, minha bateria vai acabar logo. – ela suspirou desanimada. –  onde eu encontro uma tomada nesta sala professor?

– Tomada? Não temos esse tipo de necessidade em Hogwarts senhorita.

– OQUE? – a garota quase caiu da cadeira e o professor continuou.

– aqui em Hogwarts você não vai precisar desses instrumentos de trouxas, celulares e energia elétrica estão fora de questão.

– E meu notbook? – perguntou desesperada.

– Desnecessário. – o professor respondeu impassível.

– meu tablet? – perguntou enquanto se sentava com dificuldades.

– inútil. – falou ao se virar de costas.

– Internet? – ela insistiu mesmo já sem esperanças, deixou os braços caírem e seu smartphone escorregou pelos seus dedos, deslizando para um canto da sala.

– Inexistente. – E assim todos sabiam que aquela discussão havia terminado, a garota estava perplexa, completamente atordoada, alguns alunos riam baixo enquanto outros aproveitaram a situação para conversar e tagarelar, mas logo a voz cansativa e pesada do Professor caiu sobre os ombros de todos e a aula voltava a sua sincronia.

 

Apenas Uma Noite Tranquila – Final

Sentia-se um pouco desorientada, olhando para onde estava antes ela viu três corpos caídos ao chão e sua mente tentou trabalhar, a exaustão não deixou e ela acabou perdendo de vez a consciência. Acordou desesperada, alguma coisa segurava bem forte seus ombros e falava alguma coisa, era uma voz grossa e masculina, Carla abriu os olhos entrando em pânico e olhando diretamente para o homem a sua frente tentou escapar, se debateu, tentou gritar sem sucesso, sua boca apenas abriu e corpo torceu como se estivesse prestes a convulsionar. Ele ainda falava algo, repetia a mesma coisa, repedia sem parar e fazia de forma tranquila – você está salvo – era o que ele dizia – Vai ficar tudo bem. – quando Carla entendeu as palavras seu corpo cedeu, toda sua força se esvaziou como areia escapando de um saco furado, Carla ficou tonta e começou a chorar, soluçava como uma criança novamente, e as lagrimas vinham cada vez mais, sua garganta doía pelo esforço que fazia, ela não se importava com isso agora, o homem a abraçou bem forte. Estavam dentro de alguma casa, de tempos em tempos ele olhava pela janela e se sentava novamente, Carla se sentia mais calma, então eles ficaram calados por muito tempo, a horda os havia alcançado, mas não havia descoberto onde se esconderam, estavam passando desorientados e frustrados, caçando seus fugitivos. O homem que salvou sua vida era forte, tinha cabelos pretos e curtos e uma barba mal feita, podia ver algumas cicatrizes no rosto e no pescoço, em outra ocasião ela teria corrido dele, o teria achado com cara de perigoso, não era o que ela sentia, estava feliz, por mais que não conseguisse expressar nesse momento ela estava mais do que feliz, queria pular de alegria, pensava que nunca mais iria encontrar alguém vivo novamente, talvez pulasse de alegria realmente se seu corpo deixasse, estava tão dolorida que mal conseguia se mexer, seus olhos estavam pesados e estava com uma sensação de alivio que acalmava seu coração, lutou inutilmente para não dormir novamente. Acordou com a água fresca descendo pela sua garganta.

– está com fome? – timidamente acenou que sim com a cabeça. O homem sorriu e tirou da mochila duas daquelas barras de proteína horríveis que davam sensação de estufada que apenas seu pai comia, elas não eram horríveis mais, eram maravilhosas e se pudesse comeria mais e mais. – esta mesmo com fome em? A maioria deles já foram para outro lugar, vamos passar a noite aqui, pode dormir tranquilo. – Carla obedeceu quase que automaticamente, sentia que podia dormir para sempre.

Quando acordou o dia já estava claro, a chuva havia parado e imaginou quanto tempo havia dormido, estava mais dolorida que de costume, sentia muito frio e uma leve tontura, olhou para os lados procurando seu salvador e seu coração quase parou quando percebeu que ele não estava ali por perto, para sua felicidade ele logo apareceu.

– finalmente você acordou em? Eu pensei que teria de acorda-lo ou te levar dormindo mesmo. – ele sorria e parecia tranquilo, como alguém poderia estar tranquilo numa situação daquela? – qual o seu nome? – Carla não respondeu, não por que não queria responder, e sim porque havia percebido que não conseguia, fazia tanto tempo que não conversava com alguém que parecia ter esquecido como se faz, se limitou apenas a ficar olhando para ele. – depois você me fala então. Meu nome é Diego, bem, hora de ir embora, nossa carona está esperando.

Carla estava com os músculos tão fadigados que não conseguia ficar em pé, Diego a colocou em suas costas como seu pai fazia quando pequena, apenas lhe disse que se precisasse ela teria que descer, mas para não ter medo, ele não a deixaria para trás, ela confiou nele totalmente, então assim eles saíram. Carla via agora que ele carregava duas armas na cintura e tinha uma pochete, fora isso não parecia ter mais nada, ele correu com ela nas costas e parecia não se cansar, às vezes parava e olhava em volta, nesses momentos descia Carla e segurava uma de suas armas nas mãos, continuaram assim por um tempo e duas vezes pararem dentro de algum estabelecimento, em um deles se depararam com um dos mortos, era como Diego os chamavam e nessa hora ele retirou uma faca bem grande de sua bota e o matou com um golpe certeiro na cabeça, Carla se assustou um pouco apenas, o fato de se sentir segura com Diego a mantinha controlada; pensou na sua casa, quando saia levava uma faca e se imaginou fazendo o mesmo com o senhor Nicolau ou o do apartamento do sexto andar, será que teria conseguido? Bem, felizmente que não o fez, afinal, se não tivesse saído do prédio, jamais teria sido encontrada por Diego. Logo continuaram correndo pelas ruas, Carla se sentia um pouco melhor e quando não precisassem correr fazia sinal para Diego parar, assim ela poderia descer e ser um estorvo menor, mesmo assim eles avançavam bem devagar, não podiam chamar atenção, então paravam por muito tempo em vários pontos para evitar confrontos com grupos de mortos. Em um determinado momento eles pararam próximos ao mercado novamente, Diego a levou para uma esquina e a escondeu dentro de um carro, disse para esperar e assim ela fez, mesmo com pouco tempo passando, a imaginação a fazia pensar nas coisas mais terríveis, coisas como Diego ser pego pelos mortos ou até mesmo ter abandonado ela ali, se surpreendeu em saber que se algo assim ocorresse ela ficaria tranquila, muito mais do que deveria, pensaria em algo e sairia dali de algum jeito, sua força e esperança foram sendo restauradas, e o mais importante que isso, sua vontade de viver, mesmo assim ficou extremante feliz quando Diego retornou, ele estava carregando uma grande mochila de viagem que estava bem cheia.

– Eu estava no mercado quando você entrou. Não sei dizer se você estava sendo corajoso ou estupido, teve sorte, muita sorte mesmo. Agora vamos, logo vai anoitecer novamente, nossa saída é por ali.

Saiu do carro e agora andava ao lado de Diego, aparentemente sua estupida ideia de entrar no mercado garantiu para eles uma fuga mais tranquila da cidade por este caminho, antes estava repleto de mortos, agora se via apenas alguns solitários pelos cantos, Diego cuidava deles com facilidade utilizando sua faca, mesmo assim chegou um momento que o numero deles estava grande de mais, então começou a utilizar sua arma, agora Carla percebeu o porquê dele não a ter usado antes, cada vez que matava um, outro aparecia atraído pelo barulho que ecoava por toda a cidade, logo aquela horda gigantesca os alcançaria e começaria tudo de novo, correr e se esconder, se esconder e correr, esse pensamento a desanimou bastante, por quanto tempo mais aguentaria aquilo? Não muito provavelmente, estava fraca de mais, desnutrida e doente e seria um peso para Diego se tivesse que carrega-la, mas Diego não parecia estar preocupado, ele apenas olhava para ela e sorria como se fosse para acalma-la, assim ela parou de pensar, confiaria nele até o fim. O barulho de um carro era algo que ela não ouvia há muito tempo, eram dois deles que se aproximaram rapidamente, um passou por eles e outro ficou pouco atrás, alguns homens e mulheres desceram, eram seis no total e a sequencia de ensurdecedores barulhos de tiros começaram e cada disparo assustava Carla um pouco, por mais que ela tentasse acompanhar e esperar eles acontecerem ela sentia seu corpo inteiro vibrar, mas tudo isso não durou muito tempo, Diego colocou a mochila dentro do carro que havia ficado atrás deles, uma mulher morena estava esperando ao volante.

– Está atrasado Soldado, pensamos que tínhamos te perdido.

– Eu tive um contratempo Jú, temos um novo rapaz no grupo. – A mulher que ele chamou de Jú a olhou com espanto, Carla imaginava que sua aparência realmente estava terrível, o que não sabia era que o que realmente impressionava a mulher era o fato de uma criança ter sobrevivido ali sozinha.

– Parece que seu cérebro finalmente parou né Soldado? nem sabe mais diferenciar uma garota de um garoto mais?

– Garota? – Diego a olhou meio desconcertado. – Me desculpa, ora, mais é que…

– Ele nunca soube gata, é um panaca. – Disse outro homem rindo, um baixo e quase careca que entrava no carro enquanto guardava uma grande arma. – Vamos embora. – Logo estavam todos dentro do carro seguindo para fora da cidade, à mulher dirigia e o homem careca ia ao seu lado, atrás estavam Carla e Diego, o outro carro vinha logo atrás.

– Então você é uma garota? E não me disse nada? – Diego sorria enquanto falava, sua voz parecia ser sempre tranquila. – Vamos começar de novo, meu nome é Diego, eles me chamam de Soldado, aquela é Juliana, pode chamar de Jú. – A mulher acenou com a mão sem tirar os olhos da estrada. – e o mal educado ali é o Careca, mas se quiser pode chamar de Carlos. – Jú riu enquanto o Careca resmungava algum palavrão. – então, qual é seu nome?

– Car… – sua voz quase não saia. – Carla, meu nome é Carla. – Conseguiu dizer, sua voz estava um pouco rouca, parecia estranha até para ela, quanto tempo havia ficado sem falar?

– Ahm, então você realmente sabe falar em? Carla é um lindo nome, muito prazer Carla, agora você faz parte do grupo.

– Diego? – Jú o chamou. – Ela não me parece muito bem não.

– Está desnutrida e com febre, sabe-se lá o que ela passou por aqui, já faz quanto tempo? Cinco meses?

– Mais do que isso Diego. – Jú continuava falando sem tirar os olhos da estrada. – Então Carla? Você estava sozinha ou tinha mais alguém?

– Sozinha. – Ela disse com muito esforço, estava ficando sonolenta novamente. – Meus pais, no apartamento, eles… eram…

– Por Deus. – Jú olhou para trás agora, via o estado da garota e lagrimas brotaram nos seus olhos. – Como ela conseguiu?  – Diego a colocou no seu colo, estava um pouco quente de febre, suja e machucada, mas estava bem, e sorria enquanto o sono tomava conta de seu corpo novamente.

– Não se preocupe Carla, você vai ficar bem, vamos cuidar de você. – Carla não ouviu o que ele disse, mas de alguma forma era como se tivesse absorvido as palavras, seu corpo estava relaxado, a dor a abandonava temporariamente, sua mente entrava num sono tranquilo e sem sonhos, o barulho do carro e o colo de Diego a deixou mais confortável do que qualquer outra coisa há meses, era a primeira vez em muito tempo que ela se sentia tão segura, a viagem seria um pouco longa até o esconderijo daqueles sobreviventes, então foi ali mesmo, dentro daquele carro e dês de que todo esse pesadelo começou que Carla teve sua primeira noite tranquila.

Uma História em Hogwarts – Irmandade 01

– A COOOOR DEEEM ME NI NOS. – ela cantou pausadamente. – Não vão querer perder o primeiro dia não é mesmo? – os dois garotos pularam de suas camas sorrindo e gritando, a ansiedade era tão grande que eles mal haviam conseguido dormir, passaram quase metade da noite conversando tudo sobre Hogwarts. A sincronia dos dois era perfeita, pijama, cueca, bermuda, camisa e chinelos, as coisas iam e viam pelas mãos um do outro de forma perfeita, não precisavam nem se olhar e muito menos conversar, um arrumava a cama enquanto o outro já guardava as cobertas que o primeiro havia acabado de arremessar, eram gêmeos é claro, em todos os aspectos e com todo o orgulho que bons gêmeos poderiam ter; rosto comum uns diriam de pele queimada de tanto brincar no sol, cabelos pretos e crespos sem nenhum cuidado vaidoso, para diferenciar com precisão seria necessário olhar as cicatrizes, eram varias e espalhadas nos joelhos, cotovelos e mãos.

Obviamente eles não eram tão idênticos assim, Charles veio primeiro, dois minutos e sete segundos a frente de Chaplin, o que já era motivo de se gabar, era mais velho e se considerava mais sábio e sempre tentava aprender algo para depois ensinar ao seu irmão, já Chaplin costumava viajar, sua mente ia para lugares onde ninguém mais o alcançava e era necessário gritar seu nome varias vezes para ele voltar. Quarto arrumado, banho tomado, dentes escovados e já competiam na corrida para chegar à mesa do café. A casa não era grande e nem pequena, tinha o tamanho ideal, todos os maiores detalhes, pequenos e grandes eram feitos em madeira, cadeiras, mesas, estaturas de animais e vários outros, não seria de espantar afinal o pai deles é marceneiro e escultor, um dos melhores que existe com certeza e o melhor de toda cidade com mais certeza ainda, ele é um trouxa, mas a mãe vive dizendo que o trabalho dele tem mais magia do que toda Londres junta. Hoje foi Chaplin que ganhou na corrida, estavam empatados novamente, como de costume os pratos já estavam prontos com torradas, geleia de morango, bolo de cenoura e suco de acerola, tudo feito à mão pela mãe, ela valorizava muito a vida dos trouxas e é por isso que decidiu morar numa cidadezinha pequena, a mesma onde o pai nasceu e morou a vida toda, ela sempre conversa com Charles e Chaplin sobre Hogwarts e contou varias historias sobre bruxas e bruxos famosos, mas a favorita dos dois era a historia de Harry Potter e do dia que os bruxos das trevas atacaram Hogwarts dois anos depois dela se formar. Eles ficavam ansiosos imaginando se algum dia eles teriam alguma aventura fantástica como aquelas para contar, poderiam ser os Lufa-Lufanos mais famosos da historia um dia, Lufa-Lufanos é claro, todos os bruxos da família foram Lufa-Lufa e com certeza dessa vez não vai ser diferente, ambos já sabiam tudo e mais um pouco sobre Lufa-Lufa e sempre mais queriam saber.
– Então meninos? Ansiosos? – disse a mãe enquanto pegava um pote de mel do armário. Ela era simpática, uma típica dona de casa na visão de alguns, cabelos pretos e lisos caídos até a altura dos ombros, rosto rechonchudo e sorridente, era pouco mais alta que seus filhos, eles iriam ficar mais altos que ela com certeza.

– Simmmmmmmmmmmmmmmmmmm. – os dois responderam ao mesmo tempo e com toda energia como de costume.

– espero que estejam preparados. – disse a voz grossa e firme do pai enquanto ele entrava pela porta da cozinha, era alto e musculoso, tinha cheiro de serragem e óleo, ele deixava o cabelo crespo sempre bem curto e tinham um bigode volumoso que se juntava a uma barba bem vistosa, quem olha pela primeira vez pode ficar cismado com sua cara fechada e intimidadora, a verdade era que ele tinha o maior coração de todos e derretia igual manteiga no sol quando se tratava de seus filhos. – conversamos antes e vou repetir meninos, vocês não precisam ir se não quiserem, sei que os dois são bruxos, mas podem escolher uma vida mais tranquila e sem risco.

– Peter! – a mãe disse em tom de reprovação. – já conversamos sobre isso.

– Eu sei Laura, eu sei. – ele tossiu de forma falsa, como faz de costume para disfarçar e continuou – mas são meus meninos, eu não quero que eles corram perigo, sejam comidos por dragões, ciclopes e Valmernorts.

– Voldemort! – os dois corrigiram em conjunto.
– MENINOS!!!! – a mãe disse quase caindo de costas de susto. – não falem esse nome. – os dois começaram a rir. – Aquele que não deve ser nomeado. – a mãe continuou falando enquanto dava um olhar de reprovação para seus filhos que fingiram ficar sérios. – Ele não existe mais Coração, você não precisa se preocupar, nossos filhos estão seguros, vão estar em boas mãos na Lufa-lufa.

O restante do dia passou feito um vento de inverno, tudo já estava pronto é claro, todo material e vestimenta, ambos com suas varinhas de castanheira e núcleo de pelo de unicórnio, até Ferristria, a gata malhada que eles resgataram de uma árvore ainda filhote e que nunca mais desgrudou dos dois estava pronta para a viagem. Assim foram se passando as horas, colocaram tudo na caminhonete de seu pai, a mãe os fez conferir tudo dezenas de vezes até ter certeza de que estava tudo pronto e assim partiram rumo à estação de trem.

– estação 9 ¾! – exclamou Chaplin.

– pela primeira vez, assim como Harry Potter. – Charles respondeu sorrindo.

O pai e a mãe estavam abraçados, as lagrimas do pai escorriam pelo rosto e eram absorvidas pelo bigode e barba enquanto a mãe tentava acalma-lo. – Logo eles estarão de volta querido, vai ter as férias e os feriados, vamos trocar cartas e mais cartas. Até logo meninos, já está na hora e lembrem-se, sejam orgulhosos Lufa-lufanos.

– seremos mamãe. – responderam juntos e com firmeza, se olharam e deram as mãos usando aos outras para empurrar o carrinho e assim atravessaram direto para poder embarcar, mesmo conhecendo a magia eles não puderam evitar se impressionar, tantas pessoas, tantos bruxos reunidos e embarcando para o lugar mais magico do planeta, se olharam novamente e ouviram o trem chiar, alguém gritava que era hora de embarcar e assim eles se juntaram a muitos outros, rumo a Hogwarts.

A viagem de trem foi maravilhosa, a magia crescia a cada segundo e não parava mais, conheceram pessoas, varias outras crianças que também esperavam ansiosas pelo seu primeiro dia. Após desembarcarem foram rumo ao um campo onde foram guiados até um gigantesco lago e de lá puderam deslumbrar do castelo magnifico que os aguardava, foram de jangada pelo lago e não pararam de se maravilhar, Chaplin jurou ter visto uma sombra passar por de baixo deles e Charles riu. – Quem sabe é uma sereia para você se casar. – Entraram finalmente pelos corredores da escola e seguiram até um grande salão, em vez de teto eles viam o céu estrelado e milhares de velas flutuando, vários alunos estavam de pé aplaudindo a entrada deles, todo o salão estava dividido em quatro, representado as quatro casas enquanto dezenas de fantasmas dançavam entre as mesas e socializavam com os alunos. Com um sinal todos se calaram, uma mulher que aparentava ter uma idade bem avançada estava à frente de todos e se apresentou como Diretora Minerva Mcgonagall, ela sorria e seu rosto era uma mescla de gentileza e severidade, ela fez a saudação a todos e deu as primeiras instruções, aos novos e antigos alunos e então finalmente a cerimonia de seleção que eles tanto aguardavam.

O chapéu seletor estava diante de todos, um a um, cada aluno foi sendo chamado para sentar-se diante de todos para o chapéu anunciar qual casa eles iriam pertencer, a empolgação aumentava a cada segundo e toda vez que o nome Lufa-Lufa era dito a ansiedade e alegria aumentar mais e quando o nome Charles Woodgarden foi dito o coração dos dois quase pulou pela boca, Chaplin viu seu irmão seguindo em direção ao chapéu e sabia que ele estava tremulo, sabia que sua mão direita estava suando e se sentiu satisfeito ao ver seu irmão secar a mão em suas vestes antes de sentar na cadeira, seu rosto era um misto de felicidade e desespero, muito típico de Charles, não demorou muito para o chapéu gritar:
– LUFA-LUFA. – Todos da casa de Lufa-Lufa gritaram em comemoração e o olhar de Charles e Chaplin cruzou, Charles era a satisfação em pessoa.

– Chaplin Woodgarden. – foi o nome falado em seguida, era sua vez. Caminhou com tranquilidade até o chapéu e se sentou, pode olhar nos olhos de seu irmão que já estava sentado na mesa junto com outros Lufa-lufanos, “seu lugar está guardado” era o que seus olhos diziam.

– É isso mesmo? Estou vendo dobrado? – disse o chapéu fazendo Chaplin perder a concentração.  – Vejo em você muito de seu irmão e percebo agora que há muito de você nele também, você tem alguma duvida meu jovem?
– Não tenho, de forma alguma. – Chaplin estava tranquilo como sempre ficava em situações novas.

– Então eu posso te mandar para o lugar aonde você vai se encontra e vai descobrir mais de você do que você imagina que têm?

– sim… claro. – Foi estranho, não entendeu direito o que o chapéu quis dizer, mas isso não importava agora.

– Pois bem então, está decidido. – Chaplin sorriu com tranquilidade enquanto olhava para seu irmão e ouviu o chapéu gritar. – SONSERINA. – e o mundo parou de girar, o que aconteceu? Era isso mesmo? No meio de gritos e aplausos o chapéu foi retirado e Chaplin foi sendo empurrado até o meio dos outros da casa de Sonserina, mal conseguia respirar, tantos rostos, tantos gritos, apertos de mãos e sorrisos. Com um sinal os alunos se sentaram e outro nome foi chamado, a ansiedade dos outros alunos para ver quem seria o próximo a ir para uma das casas voltou e assim Chaplin foi esquecido, porém ele não se sentou, ainda estava de pé e em choque, teve medo, mas sabia que teria que fazer, respirou fundo virando a cabeça para o lado e assim olhou na direção da mesa da Lufa-Lufa, e lá estava ele como Chaplin já sabia; Charles também estava de pé, o único em pé de toda Lufa-Lufa, mas não havia o que falar, não havia o que pensar, alguém puxou Chaplin para que ele se sentasse e ao olhar de volta viu que Charles também havia sentado. Assim a cerimonia continuou até que o ultimo aluno novato fosse chamado e a diretora dava os últimos comprimentos antes da ceia começar, o coração de Charles estava acelerado e sua mente não conseguia se concentrar, o coração de Chaplin batia com pesar e sua mente procurava inutilmente por uma solução, pela primeira vez na vida havia uma barreira entre eles.

Apenas Uma Noite Tranquila 05

Cada esquina, cada canto, cada casa, todos os lugares estavam infestados e por cada lugar que ela passava mais deles vinham, estava sem folego, toda a força que havia ganhado antes já tinha desaparecido, suas articulações e músculos doíam, seus olhos ardiam, sentiu a boca seca e quando olhou para trás não queria acreditar, a morte caminhava em sua direção como uma onda De horror e o som que ela produzia lhe dava arrepios, um coro fúnebre de gemidos que lembravam a ódio, dor, desespero e lamentação, em outra situação sentiria pena delas, mas nesse momento sua cabeça não conseguia pensar em muita coisa, se concentrava apenas em continuar correndo, e estava correndo cada vez mais devagar, logo não corria mais, estava trotando apenas, a principio se manteve a uma boa distancia da maioria deles, mas por pouco tempo, sem conseguir seguir em frente virou em uma rua qualquer à esquerda, nem mesmo pensou que poderia estar entrando numa situação ainda pior, nem imaginou que a rua poderia estar infestada também ou que fosse uma rua sem saída, entrou na rua, deu alguns passos e caiu, seu corpo doía mais do que já havia doido antes, sentiu vontade de vomitar e sabia que estava vulnerável ali, caída e indefessa e a mercê do destino inevitável, podia os ouvir chegando, ouvir seus lamentos e desejos de sangue, nesse momento soube novamente que ainda não estava pronta para se entregar, iria contar com a sorte mais uma vez e usou as ultimas forças que lhe restaram para rolar para o lado, ela encaixou perfeitamente, nunca havia estado de baixo de um carro antes, e era como se estivesse sido cronometrado, a horda inumana avançou pela esquina, centenas deles vinham vagarosos e desajeitados, Carla tampou a boca e quis fechar os olhos, mas esses ficaram abertos e vidrados enquanto eles passavam e continuaram passando, mais uma vez a sensação de que o tempo havia parado, eles continuavam virando a esquina e passando direto por ela, nenhum deles havia pesando em olhar debaixo daquele carro, eles não pareciam capazes de pensar, apenas faziam coisas simples, eram menos que animais e mesmo assim eram terríveis, parecia interminável, eles vinham e continuavam vindo, estava cercada novamente, seu corpo parecia que estava prestes a desmoronar e não podia graças a toda tensão, então finalmente, após o que parecia ser uma eternidade a horda se foi, alguns ainda ficaram perambulando de um lado ao outro, outros simplesmente pararam ali e ficaram, Carla continuou esperando e esperando, por fim seu corpo e sua mente cederam e ela finalmente desmaiou de exaustão.

Acordou assustada, uma dor latejava em sua nuca, estava tudo escuro, demorou alguns segundos para se localizar, havia batido a cabeça com força em alguma peça do carro e sentiu o quente sangue escorrer pelo pescoço, parecia não ter chamado à atenção de nenhum deles, conseguiu ver apenas três sombras paradas próximas do carro, então continuou ali, estava sentido frio, sede e fome, seu corpo ainda estava todo dolorido e sua mente cansada implorava para que ela caísse no sono novamente, lutou contra isso o máximo que pode e todo o tempo que ficou embaixo do carro foi entre pequenos cochilos e a luta constante para se manter acordada. Sentindo o queixo batendo contra o chão acordou de novo, algum tempo havia passado, a luz do sol já alcançava o topo dos prédios e agora podia enxergar perfeitamente, estava sozinha, alguma coisa havia chamado à atenção das sentinelas que estavam ali antes, mesmo assim esperou alguns minutos para poder sair de seu esconderijo, tinha certeza de que se precisasse se esconder ali novamente provavelmente não teria a mesma sorte, mesmo assim precisava achar um lugar para fazer suas necessidades fisiológicas. Em um beco conseguiu se aliviar, se limpou como pode, mas não fazia muita diferença, estava completamente imunda, ela também não se importava muito nesse instante, um banho seria bem vindo, mas se pudesse escolher, uma boa refeição seria bem melhor. Depois de toda adrenalina e agora com o sangue mais frio ela sentia seus músculos latejando e mancava um pouco na perna esquerda, torceu um pouco o tornozelo em algum momento, jamais se lembraria de qual, andou por mais becos e constatou que sabia onde estava, pensou que tivesse atravessado a cidade de tanto que correu, a verdade era que ela estava apenas alguns quarteirões de seu prédio, então se escondeu em lixeiras e dentro de um ou outro carro, não encontrou nada além de restos podres de comida, tentou comer as que pareciam menos repugnantes e mesmo com a fome que tinha, ainda não era suficiente para comer fungos e outras coisas em decomposição, queria entrar em alguma loja, mas todas elas estavam enfestadas e se chamasse a atenção de um deles, acabaria chamando a atenção de todos novamente, assim passou por mais um dia, seu estomago se contraia e doía, se encolheu dentro de uma lixeira e assim ficou durante toda a noite, ouviu por umas três vezes os passos lentos e gemidos rítmicos das criaturas lá fora, sempre sentia um aperto no coração, um frio na barriga, a tenção era extrema e quando eles passavam e depois sumiam o alivio era bem vindo, mas nunca durava por muito tempo.

Não aguentou ficar mais um dia sem beber água e comer, teria que arriscar entrar em alguma loja ou casa, as casas pareciam mais seguras, ou seja, eram mais perigosas na verdade, não se podia ver se havia algum deles lá dentro, poderia ser uma armadilha mortal, o supermercado estava cheio deles, podia ver muitos deles andando de um lado para o outro então decidiu arriscar a padaria. Antigamente, ou seja, antes dessa loucura acontecer, sempre ia à padaria com seu pai, o dono era um senhor bonzinho que sempre lhe presenteava com elogios e doces, imaginou que agora ele também seria um deles. Andou espreitando pelas ruas, ela havia tido uma ideia estupida que mesmo imaginando que não funcionaria preferiu arriscar, com uma velha caixa de papelão mofado e quase seco que havia achado fez o que queria que fosse uma camuflagem, apenas abriu a caixa o máximo que pode e usou para tentar cobrir o máximo do corpo quando precisasse parar, andava lentamente encostada na parede e ao menor sinal de perigo colava o papelão no corpo e se encolhia o máximo que podia e se sentia estupida, muito estupida mesmo e quando seu plano funcionou no momento em que uma das criaturas passou por ela sem nem a notar ficou mais surpresa do que contente. O que antigamente seria uma caminhada de poucos minutos se tornou uma odisseia de varias horas, se escondendo e esperando e pela primeira vez podia observar aqueles seres de perto, se lembrou dos filmes de zumbis estúpidos que seus primos assistiam, não era como aquilo, eles não queriam comer cérebros e eles nem eram tão lentos, eram apenas desajeitados, e o mais terrível eram os olhos, aquele olhar vazio e ao mesmo tempo cheio de sentimentos ruins, junto aos gemidos então? Sempre iriam lhe dar arrepios. Quando finalmente chegou a padaria o dia já havia passado de sua metade e uma fina chuva caia do céu, antes de ter coragem para entrar na padaria ela olhou por todas as janelas que pode, parecia vazio lá dentro, mas não iria confiar tão fácil, não depois do apartamento do sexto andar, as janelas estavam sujas e todas trancadas, logo pensou que a porta também estaria e desanimada foi conferir, realmente a porta deveria estar trancada, isso até alguém arrombá-la, a porta estava entreaberta e ela podia ver claramente a  maçaneta quebrada, olhou em volta para ter certeza que nenhum observador indesejado tivesse percebido e então como uma gatuna ela entrou quase rastejando, lentamente e bem atenta foi olhando cada canto da padaria, começou pelo balcão, passou para as mesas, conferiu o banheiro, a porta dos fundos, a dispensa e todos os cantos que pode, estava fazia, assim também quase estava de mantimentos, alguém havia tido a mesma ideia que ela, era obvio, afinal alguém havia arrombado a porta, sabe-se lá quantos sobreviventes passaram por ali ao invés de tentar a sorte no mercado? Muitos provavelmente, mesmo assim não foi de muito infortúnio, achou duas embalagens fechadas de biscoito perdidas entre as prateleiras, uma lata de milho que lhe custou muito tempo até desisti de abri-la e um tesouro, uma barra de chocolate, comeu lentamente, se pudesse a faria durar por mais de um ano, infelizmente não durou mais do que algumas horas, estava com muita fome para pensar em racionamento. O segundo maior tesouro foi a água, ela não quis tomar banho, teve medo de ser surpreendida, mas bebeu o máximo que pode, se surpreendeu com a sede que estava, água nunca havia sido tão saborosa em toda sua vida, tentou achar alguma garrafa para levar, não teve sucesso, mesmo assim estava contente, apesar de não conseguir dormir direito, teve uma noite melhor do que a que passou de baixo do carro ou na lixeira, e o principal, lá dentro estava seco.

Acordou dolorida, já estava se habituando à sensação, não gostava é claro, apenas a estava incomodando menos do que antes. Queria dormir mais, queria ter uma cama gostosa e um cobertor quente, lá fora o barulho da chuva lhe trazia boas lembranças, estava escuro ainda então esperou o dia amanhecer. Ficou sentada e encolhida no próprio corpo quando os primeiros raios de sol iluminarem as ruas, olhando por cada janela, sempre espreitando para ter certeza que não havia nenhum visitante indesejado foi beber água e utilizar o banheiro, essas pequenas coisas que antes nem prestava a atenção agora eram sua maior felicidade, usar um banheiro e teve coragem de abrir a água e limpar um pouco seu corpo, foi bem rápido e se sujou novamente ao vestir as suas roupas, mas mesmo assim se sentiu mais leve que antes, não deu descarga para não chamar a atenção e em seus pensamentos desejava apenas uma roupa mais seca, limpa e principalmente que tivesse aguentado e não comido todo o chocolate. Estava pronta agora, logico que sua situação poderia ser bem melhor, também poderia ser bem pior, havia escapado da morte diversas vezes, pensando na desventura que teve no seu prédio, parecia que tinha acontecido há meses e não há pouco dias, olhou para o papelão que havia usado de camuflagem, estava praticamente em pedaços, também o tinha utilizado de cama e agora não poderia usar para camuflar novamente, também ele não aguentaria. Lá fora a chuva caia, não era das mais fortes que Carla já havia visto, mas também não era das mais fracas, então ela pensou que poderia ser uma vantagem, aqueles zumbis não era muito espertos no fim das contas e andar na chuva também não era a coisa mais fácil, se prestasse a atenção no caminho e se seu tênis não escorregasse talvez ela pudesse entrar e depois fugir do mercado com uma ou duas coisas, o plano era estupido, ela sabia, mas teria que arriscar, já tinha decidido, sairia da cidade em seguida, ficar ali seria sua morte certa e não poderia contar com a sorte sempre, pelo menos não ali, acreditava que uma hora a sorte se esgotaria e ela se veria cercada, seria devorada ou pior, seria transformada daquelas coisas horríveis, não, ela não deixaria isso acontecer, sairia da cidade e encontraria o lugar seguro que a televisão falou, andaria pela estrada e encontraria comida no caminho, inocentemente pensava que poderia caçar algum animal ou encontraria algo que a iria salvar, já havia perdido muito da sua mentalidade de criança, mas a esperança e fantasia nunca haviam desaparecido completamente, talvez fossem elas que a mantiveram viva, para seu bem ou para seu mal, mas ainda sim ela estava milagrosamente viva.

Não tinha mochila, nem faca ou lanterna, a fome era uma companhia tão constante que já nem lhe dava coragem, a coragem já estava mesclada em seu corpo e alma, ela fazia o que tinha que fazer, tinha medo é claro, medo de morrer e medo de viver, não perdia seu tempo pensando no dia de amanhã, pensava apenas no agora, e agora estava determinada a sair desse lugar amaldiçoado. Respirou fundo e deu o primeiro passo para fora da padaria, à chuva caia pesada em sua cabeça e corpo, já estava acostumada com o cabelo curto, mas ainda estranhava a leveza da cabeça, parecia menos protegida, ainda assim água da chuva dava mais alivio do que pesar, olhou para os lados, tudo parecia bem tranquilo, mas por quanto tempo ela não saberia. Correu por alguns quarteirões e ficou fadigada rápido, a chuva pesava suas roupas e não tinha muito folego então logo se limitou a andar rapidamente ou trotar por alguns pontos que se sentia vulnerável, começou a chamar a atenção de uma ou outra criatura e constatou que se a chuva a atrapalhava, realmente era pior para eles. O único problema? Ela se cansava e parecia que eles não, mas agora também já era muito tarde para voltar a trás, então continuou até chegar próxima ao mercado e vendo que um pequeno grupo já começava, mesmo que com dificuldade, a segui-la deu uma puxada nos seus passos, logo estava correndo, mesmo que não com tanto esforço, o ar parecia ter ficado pesado e por um breve momento pensou em cair no chão e desistir, não conseguiu, jamais conseguiria simplesmente desistir e quando viu o mercado adiante pareceu que sua força havia sido renovada, quatro deles estavam próximos ao mercado e ela passou por eles mais rápido do que eles podiam reagir, entrou no mercado fazendo um barulho estridente enquanto deslizava com seu tênis no escorregadio chão quase sem conseguir parar, estava completamente molhada, com respiração pesada e bufando, queria chorar nesse momento; eram muitos lá dentro, se arriscasse entra um pouco mais para pegar algo, com certeza não sairia dali e todos eles estavam olhando para ela, e começaram os gemidos, primeiro um, depois outro e logo todos eles estavam em seu lamento de fúria, o som estava cada vez mais alto, ecoando por todo o mercado e ao mesmo tempo eles avançaram. Retomando rapidamente o equilíbrio se voltou para a saída, os que estavam a seguindo do lado de fora já estavam bem próximos, ainda sim era uma pequena dezena se comparado a centena que estava avançando agora, ela passou pelos três que já havia passado antes, mesmo cansada ela ainda estava mais ágil que eles, o problema foi com o resto que estava do lado de fora, Carla olhava para um lado e lá estavam uns cinco, para o outro havia mais quatro, dos prédios e carros surgiam mais alguns e do mercado o verdadeiro inferno se aproximava, se lembrou da situação que estava quando saiu do seu prédio, teve que correr muito e teve sorte de achar um carro para se esconder, queria olhar e pensar no melhor caminho para seguir, infelizmente não dispunha de tempo então simplesmente correu para o lado que tinha menos deles, aproveitava a rua larga para ter uma distancia maior entre ela e eles, mas a cada passo que percorria maior era o numero deles que surgia, nem queria olhar para trás, podia ouvir seus gemidos, sabia que estavam perto, a chuva estava pesada, seu tornozelo ainda doía, assim como seus músculos, nem correu muito dessa vez, nem mesmo avançou um quarteirão direito e já estava cambaleando, não dava mais, estava esgotada, sua velocidade foi diminuindo até quase parar, seus pés mal saiam do chão, estava se arrastando em pé. A água da chuva caia forte em seu corpo e lhe dava tranquilidade, deixou que escorresse para seus lábios, sua respiração era profunda e era abafada  pelos gemidos de fúria, seu olhos estavam semicerrados, viu um deles se aproximando rapidamente pela frente, quis reagir mas não conseguiu nada além de dar um meio passo para o lado, ele a agarrou com seus braços fortes, estava molhado assim como ela, não se incomodou com isso, entregou seu corpo completamente para ele e imaginou se iria doer muito, imaginou se seria rápido ou se sofreria muito, pode sentir o hálito quente próximo de seu rosto, fechou as mãos pressionando os dedos antecipando a dor que iria sentir, um barulho feito um trovão ecoou do seu lado, sentiu seu corpo todo vibrando, o susto a despertou do seu transe, podia sentir um cheiro muito forte de algo queimado,  um segundo trovão veio e depois um terceiro, sentiu uma pressão forte no abdômen quando seu captor a levantou, ela estava no em cima de seu ombro agora e ele começou a correr.

Apenas Uma Noite Tranquila 04

Percebeu que estava há muitos minutos com o garfo parado enquanto olhava para aquele porta retrato, em seu devaneio havia elogiado a menina na foto, uma garota bonita realmente, se surpreendeu quando se lembrou de que a menina na foto era ela mesma. Era engraçado, foto não tinha nem um ano que havia sido tirada, ela já havia esquecido essas coisas, parecia que a vida toda foi daquele jeito, sentia como se já tivesse passado muitos anos e o mais engraçado e que achou a menina da foto linda, enquanto nessa época se achava a mais feia e desengonçada de todas. Tudo havia mudado tão rápido, não saberia dizer se havia amadurecido ou se havia aprendido a sobreviver, tinha certeza de que quando pusesse os pés lá fora não irá durar muito tempo, não tinha mais medo de morrer, todos que conheciam já haviam morrido ou estavam na situação de seus pais, preferia acreditar que a alma deles havia encontrado a paz também, por fim, a morte até seria bem vinda, mas não conseguiria suicidar e não vai deixar ser devorada, enquanto puder vai se segurar na única coisa que lhe pertence, vai se segurar na sua vida até o ultimo instante. Terminou de comer, lavou os pratos, limpou a casa, afinal era sempre bom arrumar algo para passar o tempo, mesmo depois desse tempo todo, não havia se acostumado com todos os incessantes gemidos e batidas de seus pais, quando a bateria de seu Ipod acabou pensou que iria enlouquecer, talvez tenha enlouquecido de verdade, nessa altura das coisas nem importava mais, não conseguia dormir direito também, tinha apenas sono picado, sempre abria os olhos e olhava em volta, conferia todas as portas, todos os cômodos da casa, só assim conseguiria fechar os olhos novamente, para logo depois abri-los de novo e repetir sua paranóica rotina, às vezes queria apenas ter uma noite tranquila.

Estava se sentindo cada vez mais doente, estava desanimada e desmotivada, já não tinha muito apetite, o que não significava muito, sua comida já estava acabando novamente, comia cada vez menos e mesmo assim parecia que a comida sumia, ou talvez seja o tempo que estava passando mais rápido. Havia escutado tiros essa noite, não se importou muito, isso agitava as criaturas, mas nunca duravam muito tempo então já estava pronta para sair novamente. Com outra faca, a mesma mochila nas costas e lanterna na mão trancou seu apartamento e saiu, seus pais estavam terrivelmente agitados, podia ouvi-los mesmo com a porta fechada; passou a mão no cabelo e pensou no apartamento do sexto andar, teve que respirar fundo para dar o próximo passo. O corredor estava pouco iluminado, lá fora o tempo estava fechado, havia chovido e isso apenas deixava Carla desconfortável, teve que usar a lanterna assim que chegou nas escadas, talvez Carla estivesse desconcentrada ou segura de mais da sua situação e graças à penumbra que o corredor se encontrava ela não percebeu a sombra que lentamente surgia da escada que vinha do décimo segundo andar.

No quinto andar todas as portas estavam fechadas, no quarto, terceiro, segundo e primeiro também e isso foi um duro golpe em seu coração, abaixo estaria o hall de entrada e saída e nem imaginava o que poderia encontrar por lá, enquanto para cima poderia ter melhores oportunidades se não fosse o senhor Nicolau no meio do caminho, então pensou um pouco e decidiu descer para o hall e finalmente ver como estavam as coisas lá em baixo. Antes mesmo de terminar as escadas ela pode apagar a lanterna, mesmo com o tempo nublado a luz do dia entrava melhor pelas vidraças que cercavam quase todo o lugar, estava como ela se recordava, havia a grande bancada onde ficava o porteiro, os quadros e a televisão próxima as poltronas de espera, o grande tapete e os vários vasos de flores, o problema era que as flores estavam mortas, assim como todas aquelas pessoas que estavam em pé ou escoradas nos cantos, não teve tempo para conta-los, pois escondeu sua cabeça na mesma velocidade que a havia posto para fora da escada, subiu de costas o mais lento que pode, não podia fazer nenhum barulho, seu coração batia feito um tambor, sentiu a bile subir pela garganta, quando chegou na segunda parte da escada que levaria ao primeiro andar teve certeza que não foi seguida, então continuou a subir com mais velocidade, ainda com cuidado para não fazer nenhum barulho.  Um golpe terrível da sorte, as portas de baixo acabaram e o hall estava enfestado, agora teria que bolar um bom plano, ir lá para fora ainda parecia uma ideia absurda, talvez então conseguisse acessar as janelas dos apartamentos trancados, bem, pensaria em algo em breve, estava quase otimista quanto a isso, mas esse otimismo não duraria muito tempo.

Antes de terminar de subir a escada que levava para o sétimo andar Carla ouviu o gemido, a principio ignorou, afinal, em vários dos apartamentos haviam criaturas dentro, felizmente a maioria estava trancada lá dentro também, novamente o gemido chamou sua atenção, ele estava nítido, bem próximo na verdade, olhou para trás pensando que poderia ter sido seguida e percebeu que a lanterna estava desligada ainda, ligou a luz e viu que não havia ninguém atrás então se voltou para frente, e lá estava ele, exatamente como ela o havia visto da ultima vez, o uniforme dos correios, o rosto muito mais envelhecido, aqueles olhos vazios e famintos, ele estava muito próximo, ela pode sentir seu hálito podre enquanto as duas mãos cadavéricas tentaram lhe agarrar, suas pernas fraquejaram novamente e pela primeira vez para seu bem, Carla caiu e escorregou pela escada que levaria ao sexto andar e por sorte escapando do abraço mortal do senhor Nicolas que em resposta soltou um chiado horrível, era como se estivesse frustrado. Ele avançou novamente e Carla se recuperou da queda, não havia machucado e ganhou uma distancia que pode usar,  passou pelo sexto andar sem olhar para os lados, desceu as escadas para o quinto como nunca havia descido escadas antes, continuou até o quarto andar e se lembrou do hall, não poderia ir para lá, seria morte certa, então em um ato desesperado tentou abrir as portas do quarto andar e como resposta ouviu batidas e gemidos dos outros lados das portas, de todas elas, correu para a escada rumo ao terceiro andar e viu o vulto descendo as escadas de forma desengonçada , porém rápida o suficiente. Tentou novamente as portas do terceiro andar e novamente teve como resposta batidas e gemidos, parecia que todos os andares de baixo estavam infestados, não sabia se para sua sorte ou azar que todas as portas estavam trancadas, então correu novamente, no segundo andar todas as portas já estavam em um ritmo doentio de batidas, arranhões e gemidos, parecia que o prédio inteiro havia despertado, então não havia jeito, era tudo ou nada, ou saia do prédio ou morreria nele.

Estava sem folego quando chegou na metade das escadas, segurou o ar quando se voltou para o resto do caminho, um homem de rosto deformado e que vestia o que um dia foi um lindo terno de linho a estava aguardando, Carla recuou enquanto ele gemia e avançava em sua direção e  também pode ouvir os gemidos e passos do senhor Nicolas logo acima, pensou em sua mãe quando ainda viva, seu olhos cheio de lagrimas não derramaram nenhuma gota dessa vez, agora era sua vez e não tinha muito o que fazer e mesmo assim veio aquele sentimento, um sentimento forte e selvagem, queria viver, independente de qualquer coisa, ela queria viver e se agarraria a sua vida com todas as forças que tinha, tomou um impulso e ganhou uma força que não conhecia, encarou o homem de terno e se jogou em sua direção, ele mesmo parecia não esperar por esse movimento e de forma desengonçada também avançou na direção da garota, a agarrou com força com suas duas mão e cravou seus dentes com toda voracidade que tinha, nesse instante que Carla aproveitou a oportunidade para soltar sua mochila das costas enquanto a criatura tentava inutilmente se alimentar do náilon cordura que compunha sua mochila, infelizmente teve que largar sua faca e lanterna, um preço pequeno a se pagar pela vida que tentava com todas as forças manter. Agora vinha a parte arriscada, estava no hall, uma olhada rápida pelos cantos e viu que já estava cercada, eram muitos, mais de dez com certeza, alguns rostos conhecidos e outros não, todos eles incitados pela sua presença avançaram gemendo e sedentos por um pedaço dela, então Carla nunca foi tão feliz em ser magra, fintou a porta de entrada e saída do prédio e correu em sua direção com toda convicção que pode, conseguiu desviar dos três que estavam em seu caminho e em apenas alguns passos sentiu o vento que vinha fresco do lado de fora. Foi menos que um segundo de felicidade, se dentro do prédio estava ruim, o lado de fora estava bem pior e agora podia confirmar com os próprios olhos o porque dos barulhos de tiro e os gritos nunca durarem muito tempo, havia centenas ali, parecia muito mais do que quando ela os olhava de seu apartamento, eles estavam dentro de carros, dentro de outros prédios e espalhados por todas as ruas e todos eles começaram a prestar a atenção nela, um a um eles foram gemendo e gritando e a atenção de todos os outros ia sendo chamada, logo uma onda de gemidos e corpos vinham em direção da pequena garota, então ela correu.

Apenas Uma Noite Tranquila 03

Foi o suficiente para alguns dias, não muitos infelizmente, antes do que havia imaginado ela estaria se aventurando novamente com uma faca e mochila para fora do seu apartamento, teve sorte pela segunda vez, a outra porta que não havia testado em seu andar também estava aberta e o apartamento vazio, muito dos mantimentos haviam sido pegos pelo tempo, e quem saiu de lá havia levado o que pode também, conseguiu pouca coisa, com um pouco de coragem revistou toda o apartamento e também o resto do apartamento do cadáver da banheira, conseguiu uma boa lanterna e algumas pilhas, achou uma caixa de remédios, não sabia nada sobre eles, nem mesmo identificar algo além de aspirina, mesmo assim achou que seria bom levar com ela e os deixou sempre na mochila para caso de emergência, se sentiu bem madura quando ignorou roupas e joias, um pequeno anel ninguém sentiria falta pelo menos e pegou também shampoos e sabonetes.  Depois suas necessidades a levaram para cima, tinha que subir ou morreria de fome cedo ou tarde, agora com uma lanterna se sentia bem mais segura, não teve sucesso com o décimo segundo e décimo terceiro andar, todas as portas estava fechadas, no décimo quarto havia uma porta aberta e mesmo assim não conseguiu alimento para mais do que três dias ou quatro se racionasse muito, o que ela já vinha fazendo há algum tempo, perdeu peso, estava mais magra do que já havia sido e também estava pálida, se sentia quase doente e esse era um de seus maiores medos e por esse instante onde ela estava perdida em seus pensamentos que o tempo parou, Carla prendeu a respiração e seus pensamentos se dispersaram, um golpe trágico do destino, o décimo quinto andar, pelo menos duas portas abertas a vista e no meio do corredor havia uma daquelas coisas, ela reconheceu pelas roupas e pelos cabelos, era o senhor Nicolau que morava naquele andar, era um senhor quase aposentado que ainda trabalhava nos correios do bairro, ele estava lá parado, morto e ao mesmo tempo vivo, não a tinha percebido, lagrimas preencheram seus olhos e prendeu a respiração, lentamente ela foi descendo as escadas, décimo quarto, décimo terceiro, décimo segundo e entrou em casa, trancou a porta da sala e se sentou no sofá. Chorou baixinho, não tinha certeza exatamente do porque começou a chorar, talvez por que não poderia subir e pegar suprimentos? Não, não era por isso, essa era a segunda vez que ela havia encarado um deles de frente, a primeira vez que viu um que não era seu pai e foi isso que a fez chorar, mesmo tendo seus pais ali todo esse tempo, gemendo e batendo sem quase nunca parar, ela havia se esquecido de como ele era, como ele estava quando ela o viu, esperou dois dias para sair de casa novamente.

Os andares de baixo aliviaram um pouco, do décimo ate o sétimo andar ela conseguiu seis apartamentos abertos, que lhe deram alimento por um bom tempo, tempo o suficiente para conseguir se recuperar do susto de dois dias atrás, mesmo assim ela começava a pensar que logo não poderia ficar nesse prédio por muito mais do que já havia ficado, logo não vai ter lugares para pegar comida, então começava a imaginar sua rota de fuga, teria que sair pela cidade e achar outro lugar para ficar, ou talvez ela pudesse pegar a estrada para algum outro lugar que fosse seguro e tivesse pessoal, mas onde? Ela nem sabia andar pelo bairro direito, ainda mais sair pelo mundo cheio de monstros. Olhava para fora pela janela e via que nada havia melhorado, às vezes tinha até a impressão de que os números deles aumentavam e isso era muito perturbador, em momentos assim seus pensamentos se voltavam para outro canto, o de se outras pessoas haviam sobrevivido como ela, sabia que o cadáver da banheira havia e que ele escolheu largar isso, ela mesma pensou em fazer o mesmo, não teve coragem, nunca teria coragem o suficiente para isso, pensava então nos colegas de escola, estava com raiva deles por algum motivo, não conseguia lembrar qual motivo era, e assim essa raiva sem sentido sumiu como se nunca tivesse existido, talvez estivessem todos mortos, talvez não, poderiam estar como ela está agora ou até melhor. Pensou em seus parentes também, uma vez achou um telefone celular, já havia tentado ligar para alguém usando o telefone fixo, mas ele estava sem linha, com o celular teve esperança de ligar para algum parente, para a policia ou qualquer pessoa, ouvir a voz de alguém. Nem ficou muito decepcionada quando o telefone não deu sinal. Quando ouvia gritos vindo do lado de fora, corria para a janela, nunca via ninguém, aquelas coisas ficavam agitadas e seguiam para a direção dos gritos, as vezes eram de varias pessoas, as vezes de uma única, poucas vezes vinham acompanhados de barulhos de tiro que logo cessavam, imaginava se eram pessoas que apenas estavam passando por ali ou se eram pessoas como ela, que ficaram presas em sua casa e por algum motivo tiveram que arriscar sair de lá, um dia seria ela a ter que tentar a sorte do lado de fora, quanto tempo será que iria durar? Não muito provavelmente, Carla não era pessimista, mas entendia bem sua situação, já havia se conformado com isso há algum tempo e mesmo assim uma força a compelia a continuar vivendo.

No sexto andar tudo mudou. Começou como todos os outros dias de espreita nos andares de baixo, apenas um apartamento estava aberto, um apartamento comum, não muito diferente de todos os outros, não parecia que alguma família havia morado ali, talvez um homem solteiro apenas. Com tranquilidade fez o que vinha fazendo sempre, assaltou a cozinha, colocou o máximo de coisas que pode na mochila e ia sair, depois voltaria para procurar qualquer outra coisa que poderia ser de valor, se virou em direção à saída da cozinha e ele estava lá, uma figura desumana, sobrenatural, um homem que deveria ser de meia idade, seu rosto cadavérico, os lábios haviam sido arrancados, estava sem camisa vestindo apenas uma bermuda jeans e um único chinelo em seu pé direito, ele olhava para ela, aquele mesmo olhar vazio e ao mesmo tempo sedento, saia um som de sua boca, um grunhido baixo e rítmico, não parecia estar respirando, mesmo assim fazia esse barulho aterrador, ele abriu a boca e o barulho que fazia ficou maior e mais agressivo, de forma desajeitada avançou na direção de Carla, ela soltou um grito curto automático e correu para o outro canto da cozinha, seus olhos não desgrudaram dele e os dele a seguiram para onde quer que ela fosse. Mais uma vez ele avançou ferozmente gemendo cada vez mais alto e Carla tentava controlar seu pânico, a única coisa que impedia ele de pegar a garota era uma pequena mesa com quatro cadeira que estava no meio da cozinha, aquela criatura não parecia ser capaz de pensar, mas reagia de forma rápida, mesmo que ela tentasse dar a volta da mesa ele ia pelo outro lado, era um mórbido jogo de gato e rato, Carla jogou nele sua faca e tudo mais que achou no alcance de suas mãos, ele não parecia se importar, era como se não sentisse dor alguma, coisas começaram a passar por sua cabeça feito raio, pensamentos de todos os tipos, até então nenhum que fosse de grande ajuda, a garota simplesmente correu para um lado da cozinha e ele veio, ela deixou ele se aproximar bastante e tomou impulso para o outro lado, em sua mente ela apenas se imaginava caindo ou encontrando outro deles logo a frente, se imaginou sendo agarrada, sendo devorada e nem percebeu que havia conseguido sair da cozinha, correu pelo hall e abriu a porta, viu o corredor vazio e se sentiu aliviada, pegou a chave da porta e saiu, agora estava salva, estava livre e assim a dor veio rasgando sua cabeça.  Ele havia agarrado seu cabelo e agora eles disputavam força, ela do lado de fora, ele do lado de dentro e a porta ainda estava aberta, ela viu a outra mão cadavérica segurar a porta, ele teria mais força que ela, ele a puxaria para dentro ou abriria a porta, então Carla fez a única coisa que poderia, fechou os olhos, largou a chave, segurou a maçaneta da porta com as duas mãos e puxou com toda a força que tinha, não funcionou, então ela soltou um grito abafado, apoiou um pé na porta e usou todo o pouco peso que tinha, a porta bateu com força e ecoou por todo o prédio, Carla sentiu a maior dor que já havia sentido na vida, um grande tufo de seu cabelo havia sido arrancado e agora estava preso na porta, linhas de sangue escorriam pelo seu rosto, os dedos da criatura estavam no chão e a criatura batia na porta e gemia, talvez de fúria ou frustração. Respirou um pouco, pegou a chave e trancou a porta, não acreditava que a criatura conseguiria abri-la, mas preferia não arriscar, ela deu a volta e começou a subir para sua casa, suas pernas tremiam, seu corpo parecia leve e pesado ao mesmo tempo, quando chegou ao apartamento ela foi direto para o chuveiro, ficou sentada chorando por mais tempo do que pode contar, chorou até suas lagrimas acabarem, o sangue foi lavado junto as lagrimas. Tempo depois se sentiu melhor, se sentiu mais viva, se alimentou e depois de pensar muito pegou uma tesoura e foi para o seu quarto, ainda era dia e estava bem iluminado, do lado de fora se ouviam gemidos baixos e distantes, no seu prédio se ouviam muitos gemidos, os do andar de cima, talvez o do andar de baixo e com absoluta certeza os de seus pais presos no quarto; Carla cortou seu cabelo o máximo que pode, deixou bem baixo, bem curto, o corte ficou feio, mas há muito tempo ela não se importava com aparência, nunca havia se achado bonita antes, não que fosse feia, mas para a maioria das adolescentes a autoestima variava com o dia, essas coisas não importavam mais, ninguém a iria ver mesmo, seu cabelo agora estava bem masculino e cheio de falhas, seu rosto magro com olheiras de noites ruins a davam uma aparência horrível, viu os ferimentos da grande falha que havia ficado em seu couro cabeludo, pensou se nasceria cabelo ali novamente e deu de ombros, não importava mesmo, pouca coisa importava agora. Seus pais estavam agitados essa noite, não conseguiu dormir.