Inocência

Ela já havia parado de chorar, não havia mais motivos para isso. A escuridão já havia coberto ela como uma manta quente e confortável e o medo que havia já não era mais necessário, tentou mover seu corpo novamente sem nenhum êxito, mesmo depois de tanto tempo ainda acreditava que tentar se mover era melhor do que ficar apenas estática. Imaginou o que iria comer mais tarde, uma torta talvez, quem sabe omelete? Seria bom não seria? Ainda não podia comer, teria que aguentar mais um pouco, mas não a sede, essa continuava cada vez mais forte e ela se via obrigada a esticar a cabeça um pouco para beber da água que escorria lentamente do seu lado, pelo amor de Deus! Como aquela Água era horrível, alguém devia filtrar aquilo melhor, seria gosto de terra ou esgoto? Bem, era a água que tinha por hora, saindo dali iria tomar um litro de suco de laranja natural e geladinho da padaria do Wando. Vovó ainda dormia do seu lado.

      Onde? Havia dormido? Tentou mexer novamente o corpo sem nenhum sucesso, realmente era muito desconfortável, mas o que poderia fazer além de aguardar a sua vez não é? Lembrou se de uma musica, são engraçadas as coisas que vem na mente em momentos inoportunos como esses, engraçadas mesmo, pois bem, se pós a cantar baixinho, quem sabe assim o tempo não passa mais rápido? Depois parou, não queria acordar a vovó.

     Sensação térmica. Era essa a palavra que procurava, aprendeu há poucos dias na escola, sentia calor e frio ao mesmo tempo, quase como uma sensação de febre e também havia aquela sensação de pressão como se estivesse espremida e o ar que estava quente, mas sempre que entrava nas suas narinas parecia gelado?  Esquisito de mais? Deve ser alguma coisa tipo sensação térmica não é? O corpo humano é cheio de mistérios, então abandonou o pensamento e voltou a cantarolar, ou será que adormeceu novamente?

    Uma estrela? Ate então o céu era apenas um mar negro e vazio, agora surgiu uma pequena estrelinha, tão linda, tão solitária, tentou se mexer sem sucesso novamente, sentiu lagrimas quentes escorrerem pelo seu rosto, o que tinha de fazer mesmo? Ah sim, sim, um desejo. Um desejo para a primeira estrelinha que vejo, foi assim que a vovó ensinou, mas o que deveria desejar? Um copo de suco seria bom, um sanduiche seria melhor ainda, mexer as pernas de novo? São tantas coisas boas que poderia pedir, mas no fundo desejou não adormecer novamente. Adormeceu.

      A pequena estrela estava maior dessa vez, muito maior mesmo, havia barulhos, gritos, apitos, por que tanta confusão? Seu corpo todo estremeceu, não, não o corpo, tudo estremeceu, coisas caiam no seu rosto, seriam pedras? Queria pedir que parassem e que saíssem dali, mas não saiu um som de sua boca, a estrela já estava maior que um sol, a luz tão forte a estava deixando cega, sentiu cede novamente. Agora tinha aqueles homens saindo da sua estrelinha que já nem “inha” era mais, eles vinham e gritavam, pegavam coisas e a ameaçavam, com suas lanças e ferramentas jogadas contra ela, sentiu medo, queria fugir, seu corpo não mexia, queria que eles fossem embora… ate que um deles desceu do céu, de dentro da sua estrela, ela estava chorando, ela pode ver seu rosto sujo, suado e machucado, tinha um grande capacete, seria um guerreiro? Ele sorriu para ela e o medo abandonou seu coração novamente “vai ficar tudo bem princesa, vamos sair daqui?”.  

     Desenterraram seu pequeno corpo que a muito havia perdido as forças por causa da terra que havia a soterrado, foi amarrada numa cama dura e nem teve medo nem mesmo quando foi puxada, ouviu alguém dizendo a palavra fratura, teria que perguntar a vovó o que seria isso. Não conseguiu mexer a cabeça, mas estava acostumada a não conseguir se mexer, será que vovó já havia acordado? Muitas luzes agora, muita gente em cima dela, puxa, mexe, aperta e solta, ate uma mascara nela eles havia colocado, falaram que ela não podia dormir, mas sentia tanto sono! Aqueles homens e mulheres com a mesma roupa, seus rostos preocupados e falando tanta coisa, queria entender melhor sobre o que eles falavam, tantas coisas para perguntar para vovó, o que seria soterrada? Desabamento? Palavras estranhas, mas agora entendeu que aquele homem falou de sua vovó, vovó salvou a vida de alguém ele disse. Vovó sempre foi uma heroína mesmo, teria que perguntar para ela depois o que significava a palavra óbito. 

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