Assim o poeta fez

É assim que caiu o poeta,
diante do risos e chacotas.
Assim se desfaz o poeta,
nas graças daqueles que o fizeram tombar.
Mesmo assim o poeta se levanta,

e mesmo assim ele tenta amar.
O poeta não pode parar,
nada mais ele sabe fazer.

O poeta tenta mudar,
mas é incapaz de o fazer.

então ele levanta e vai,

segue adiante e nem sabe o porque.

Criatura

Eles não podem amar, não lhes foi permitido.

Nem compreender, não lhes foi concedido.

Eles são o que são, nada pode mudar.

Foi o que todos disseram e assim será.

Criaturas forjadas da magia esquecida.

Sem personalidade, sem escolhas ou alma.

Nasceram para servir, trabalhar e cumprir.

Um como aquele não poderia existir.

Mesmo sendo o que era, sendo não natural.

Um ser que não era nem mesmo real.

Poder amar uma pessoa que não o iria enxergar.

Querer ser amado por quem nunca irá lhe procurar.

Apenas por que um dia ele o enxergou.

Um simples segundo que nem mesmo notou.

Nos seus olhos sem inspiração e sorriso sem o sol.

Onde havia uma tristeza que era sem igual.

Conseguiu perceber o que ali havia.

Um coração que ansiava por um pouco de alegria.

E mesmo sabendo que ele jamais perceberá.

Dedicou a sua vida a lhe acompanhar.

E vendo seu sorriso pela primeira vez.

Percebeu que o seu próprio surgia, um reflexo talvez? 

Apenas uma noite tranquila

Os gemidos continuavam, parecia que sempre estiveram lá, dia e noite, noite e dia. Às vezes eles paravam e se podia ouvir o silencio, mas esses eram momentos raros e hoje não era um desses, então os gemidos continuavam. Dessa vez eram baixos e lentos como uma lamentação, outras vezes eram furiosos e vinham acompanhados de murros, estalos e barulhos de arranhões e tinha vezes que ela não conseguia identificar que tipo de gemidos eram, perturbadores, quase hipnotizantes. Apenas se sentava diante da porta do quarto e ficava os ouvindo, certa vez até mesmo pensou que eles poderiam estar tentando conversar com ela, alguma forma de comunicação primitiva talvez? Desistiu dessa ideia rapidamente, não havia tentativa de comunicação, se tivessem algum sentimento, esse seria fúria, lamentação, frustração ou fome, com certeza uma insaciável fome, talvez todos esses sentimentos de uma vez. Ela sempre pensava nisso, mas pensar nessas coisas a fazia pensar que eles ainda eram humanos, que ainda podiam ter alguma lembrança do que eles eram antes, então ela odiava pensar nisso e odiava mais ainda todos esses gemidos.

         Viver em apartamento era o máximo, esses eram seus pensamentos algum tempo atrás, meses talvez. Apartamentos eram seguros, cômodos e muitas vezes mais tranquilos que casas, décimo primeiro andar era perfeito, não tão alto quando o vigésimo e nem tão baixo quanto o terceiro, podia ficar horas olhando pela janela e vendo a vida lá de baixo, carros buzinando, pessoas correndo de um lado para o outro, mas isso também havia sido antes, se olhasse para a janela agora estariam vários carros abandonados e varias pessoas andando lentamente para lá e para cá como se estivessem perdidas e outras até mesmo paradas como se esperassem algo, às vezes ouvia um grito e outras vezes eram barulhos de tiro, centenas de vezes ela se imaginou pegando uma arma e saindo pelas ruas como uma personagem de filme de ação faz, ou então sonhava com um esquadrão mal encarado arrebentando a porta de sua casa e a salvando, na maioria das vezes ela apenas tinha pesadelos onde ela estava sendo devorada e nada conseguia fazer para impedir, noites assim ela acordava suando e percebia que os gemidos do quarto ao lado estavam mais ferozes. Há muito tempo tinha se acostumado com o cheiro, talvez tenha sido a primeira coisa com a qual ela havia se acostumado.

           Tudo tinha acontecido muito rápido, era um dia como outro qualquer, pessoas falavam de ataques e de alguma doença, mas Carla não tinha tempo para ouvir essas bobagens, havia tantas coisas mais importantes para se pensar. Esse ano não estava indo bem na escola e tinha menstruado pela primeira vez hoje, bem no meio da aula, queria morrer, sumir do mapa, quem sabe voltar daqui uns cinco anos quando seu corpo estiver mais bem desenvolvido, afinal, nenhum garoto vai querer namorar uma menina tão magra e torta. Estava andando perdida em seus pensamentos, a escola nem era muito longe de sua casa, o bairro estava um pouco agitado, viaturas de policia e bombeiros passavam, ambulâncias iam e vinham, algumas pessoas gritavam e brigavam nas ruas, isso não era problema dela, entrou no seu prédio, entrou no elevador, ainda buscava soluções para seu vexame na escola. Antes de terminar de abrir a porta de casa sua mãe a puxou para dentro, estava com cara de assustada suava muito.

     – Carla você está bem? Graças a Deus, Graças ao bom Deus.

     – Que foi mãe?

     – As pessoas estão loucas, você não viu? Lá fora? – Carla tentou se lembrar de ter visto algo em especial, mas nada lhe veio a memoria. Apenas balançou a cabeça negando. – seu pai foi atacado hoje, um homem louco o mordeu, arrancou carne dele Carla, carne viva, eu fiz um curativo, ele está no quarto esperando resgate, no telefone eles disseram que todas as viaturas estavam ocupadas, oh Meu Deus, nos ajude senhor. – sua mãe sempre foi muito dramática, ir tanto à igreja não lhe fazia muito bem, era uma mulher muito impressionável. Abriu a porta do quarto de seus pais, havia um cheiro estranho nele, seu pai estava deitado na cama tranquilamente, seu braço direito repousava sobre o corpo e ela pode ver o grande curativo que a mãe fez, nada mais do que um pano enrolado em volta do braço com marcas de sangue. Fechou a porta e foi para seu quarto, não queria mais ouvir os lamentos da mãe pelo telefone, ela brigava com alguma atendente da emergência, ora, seu pai foi atacado, mas não parece ser nada muito serio, amanhã já vai estar tudo bem com certeza. Entrou em seu quarto, fechou a janela, pegou seu ipod e se perdeu no mundo da música. Estava segura agora, longe da escola, longe do vexame, nada podia alcança-la ali, pelo menos até amanhã.

       – Acorda, ACORDA CARLA. – a menina olhava assustada para a mãe, estava escuro, com um único fone de ouvido não conseguia entender direito o que ela falava.

        – O que foi mãe? Que horas são?

        – Você não ouviu? – agora estava ficando preocupada, já estava acostumada com o gênio da mãe, mas dessa vez ela estava desesperada de mais até para ela.

        – Ouviu o que?

        – Tiros. Está acontecendo uma guerra lá fora, a televisão diz que algum tipo de doença, eles estão matando pessoas filha, é o fim do mundo. – aquelas palavras soaram meio como absurdo, mas mesmo assim Carla sentiu seu corpo tremer, esticou seu corpo ate a janela, sua mãe a puxou de volta e a abraçou, ela estava chorando. Pode ouvir agora os barulhos de tiro, eram abafados e pareciam estar bem longe, os gritos não, os gritos vinham de todo lugar, do andar de cima, do andar de baixo, dentro e fora do prédio e também nos prédios vizinhos, mesmo não entendendo o que estava acontecendo, teve medo.

      – Vamos arrumar as coisas e sair daqui, falaram na TV que tem um lugar seguro, vamos pegar o carro e sair, arrume suas coisas, eu vou arrumar as minhas e pegar seu pai. – parecia errado fazer aquilo, sair naquela bagunça, mas também não queria ficar ali, começou a juntar coisas na sua mochila, não conseguia pensar direito no que deveria levar, com certeza roupas, sapatos, cosméticos? Seria estúpido pegar essas coisas? A gritaria estava atrapalhando a pensar, juntou varias coisas e pegou a mochila, depois pensaria no que esqueceu, andou até a sala e viu uma mochila de viagem no chão, parecia que a mãe ainda não tinha arrumado tudo, foi até a cozinha, os armários estavam revirados, mas ainda tinha muita coisa neles, bem, também não da para levar muita coisa; pegou um pacote de biscoito, deixou a mochila de lado e se sentou para comer o biscoito. Já havia terminado e nada de sua mãe aparecer, será que ela estaria no banheiro? Foi conferir e descobriu que não, então restava apenas um lugar.  Andou até o quarto de seus pais, mas no momento em que colocou a mão na maçaneta sentiu um calafrio, alguma coisa estava errada, abriu a porta com cuidado, o quarto estava na penumbra e a única luz que se tinha vinha do abajur que ficava ao lado da cama, demorou alguns segundos para entender a cena que havia encontrado; a primeira coisa que se lembra de ter visto foi a mãe, ela estava olhando para a porta, seus olhos estavam arregalados e sua face contorcida, estava deitada no chão de barriga para cima então seu rosto voltado para porta estava de cabeça para baixo, seu pai estava em cima dela, a segurava com força enquanto ferozmente cravava seus dentes em sua barriga  e rasgando sua carne, o sangue já estava espalhado pelo corpo de ambos. Ao perceber a porta aberta a atenção de seu pai foi para sua direção, ele olhava para ela com olhos vazios e ao mesmo tempo furiosos, pode sentir o desejo animalesco nos olhos de seu pai e quando ele se levantou lento e desajeitado ela viu que ele ainda segurava o intestino de sua mãe; o cheiro era de sangue, fezes e doença, ele deu o primeiro passo em direção a porta soltando um gemido terrível que fez Carla acordar de seu pesadelo e ver que ele era real. O segundo passo foi desajeitado, mas foi largo o suficiente para quase atravessar o quarto todo, no próximo passo ele estaria em cima dela. Sem nem mesmo pensar passou a mão pelo lado de dentro da porta, o que antigamente era uma brincadeira que fazia com seus primos iria salvar sua vida, pegou a chave do quarto e bateu a porta com força trancando seu pai lá dentro no momento certo em que ele iria a ter alcançado, ele arranhou e esmurrou a porta, gemeu e gritou, suas pernas haviam fraquejado, estava caída diante da porta, chorava, sua boca estava aberta e nenhum som saia, as suas lagrimas desciam e ela soluçava em silêncio, sua bexiga a havia traído, mas ela ainda não conseguia pensar em algo concreto, sua mente divagava e buscava alguma escapatória para aquela realidade, a imagem ainda era muito viva  e se repetia varias e varias vezes no mesmo segundo, o cheiro ainda impregnava seu nariz, então ficou ali sentada com a chave na mão e com lagrimas escorrendo dos olhos, não entendia, não acreditava, não podia, não conseguia acreditar ainda  e foi então que um segundo gemido se juntou ao primeiro, o som de duas vozes, os murros de quatro braços batendo na porta em que estava apoiada; sua única reação foi por a mão na boca e ter seus olhos arregalados, seu pesadelo acabou de piorar.

        Na primeira noite ela apenas chorou ate cair no sono e horas depois acordou desesperada imaginando que seus pais de alguma forma haviam escapado do quarto, havia ficado um pouco histérica, chegou a gritar com eles pela porta, queria gritar com o mundo, não entendida e não queria aceitar o que estava acontecendo. Olhar pela janela e ver no que o mundo lá fora havia se transformado não ajudava, na televisão só havia caos, os canais nacionais não funcionavam e os estrangeiros um a um foram perdendo o sinal, alguns falaram de lugares seguros, algo como se fossem campos de concentração, mas Carla não se imaginou indo até lá sozinha, não sabia dirigir e não tinha armas, muito menos tinha coragem para fazer algo tão perigoso, olhou pelo olho magico da porta, parecia tudo deserto, mas ela não abriria a porta também, nunca se sabe o que pode haver, se um daqueles entrarem seria seu fim, então ela decidiu ficar ali e esperar por algum tipo de resgate.
          Lá pela terceira semana ela já havia parado de contar os dias, já havia perdido o interesse nisso, também havia parado de rezar, sua mãe havia acreditado que era algo como o apocalipse que estava acontecendo, se fosse ela não tinha certeza se rezar ajudaria. A energia também havia acabado então teve de dar preferencia para as comidas congeladas, infelizmente havia muitas então foi inevitável à perda de algumas coisas. Quando seus pais ficavam calados parecia que o mundo parava, às vezes ouvia um ou outro gemido vindo do prédio, o que lhe dava certeza de que sair lá fora era na melhor das hipóteses suicídio, e foi em suicídio que ela havia pensando depois do que seriam uns dois meses, prostrou seu corpo na janela ate a linha da cintura, o vento balançava seus cabelos castanhos e enchia seus olhos de lagrimas, teve uma leve vertigem, voltou para dentro sentindo vergonha, não havia conseguido, era fraca de mais para isso, teria que viver ali presa sabe-se lá ate quando. Acreditava que a água e o gás do prédio apenas ela utilizava, ela ainda tinha mesmo depois que a comida havia acabado, comeu migalhas e restos ate não sobrar nada e ela ainda ficou dois dias sem comer nada antes de começar a cogitar a possibilidade de sair dali, seria melhor pular do prédio, esse era seu pensamento, um suicídio mais rápido pelo menos, mas ainda não tinha coragem, mesmo depois de tanto tempo, morrer ali? Morrer lá fora? O que seria pior? Seu prédio tinha vinte andares mais o hall de entrada e a cobertura, cada andar tinha quatro apartamentos, com certeza havia comida em algum deles, se estiverem abertos seria fácil e se estiverem com pessoas dentro? Se as pessoas estiverem vivas ela teria companhia, afinal, não podia ser a única sobrevivente no prédio. E se estivem mortas, ou pior, e se forem um deles? Seu corpo arrepiava só de pensar, sabia que haviam daquelas coisas andado pelo prédio, podia ouvi-los, mas onde estariam? Estariam presos ou perambulando pelos corredores? A principio havia desistido da ideia, morrer de fome parecia ser uma morte mais tranquila, isso ate começar a sentir fome de verdade, nunca havia ficado tanto tempo sem comer, quase delirava, três dias de estomago vazio foram suficientes para ela abrir a porta pela primeira vez.

          Armada com uma faca de cozinha, mochila vazia nas costas, tênis nos pés e a coragem que a fome lhe dava Carla deu o primeiro passo para o corredor do prédio, a luz vinha fraca da pequena janela e pelas janelas das escadas, olhou para a porta do elevador e imaginou ele se abrindo, depois ignorou, estava com muita fome para ser paranoica, havia mais três portas de apartamentos, andou lentamente ate a mais próxima, girou a maçaneta como se essa fosse feita de vidro, estava trancada, foi ate a próxima, e não conseguiu evitar pensamento de que todas estariam trancadas, mas a segunda não estava, na verdade a porta estava entreaberta, o que fez seu coração parar por um segundo, respirou fundo e entrou; a casa estava arrumada, mas parecia abandonada, havia poeira em todos os moveis, uma fina camada apenas, mas suficiente para saber que ninguém estivera por ali, fechou a porta lentamente e seguiu ate a cozinha com as pontas dos pés; havia um cheiro ruim no ar, algo adocicado e pesado, a cozinha estava segura, então avançou ferozmente na direção da geladeira e quando a abriu se arrependeu amargamente, o cheiro era insuportável, sentiu seu estomago embrulhar, se não estivesse vazio ela teria vomitado, fechou a porta rapidamente e tentou recuperar o folego. Já recuperada ela voltou à atenção para os armários, ficou contente de achar algo, devorou oito barras de cereal, ela odiava barras de cereal, e essas foram a coisa mais gostosa que ela já havia comido na vida, revistando o resto do armário encontrou biscoitos, algumas massas e um punhado de enlatados, ela conseguiria se virar com isso por mais alguns dias com certeza. Juntou tudo que achou na sua mochila e seguiu para a saída, mas algo chamou sua atenção, a porta do banheiro estava entreaberta e de lá ela ouviu o que parecia pingos, pensou que se alguma torneira estivesse aberta isso seria um problema, afinal caçar comida e uma coisa, caçar água é totalmente diferente, deixou a mochila na porta para casos de emergência e em seguida, apenas com a faca ela caminhou ate o banheiro, o cheiro que havia sentido estava mais forte dessa vez e ela ignorou, colocou o ouvido na porta e constatou que havia sim barulho de gotas caindo, então lentamente empurrou a porta ate ela se abrir por completo. O cheiro que sentiu a acertou como um soco, o cheiro doce e podre de uma decomposição, Carla não conseguiu segurar um pequeno grito de susto ao ver que dentro da banheira havia um homem nu, mas que de humano havia perdido muito da aparência, estava com o corpo todo inchado, sua pele estava amarelada em sua maioria, mas as extremidades e o rosto estavam brancos com algumas partes começando a ficar pretas estava cheio de rugas como se tivesse ficado tempo de mais na água, os olhos pareciam que iam pular para fora de suas orbitas e a água que ele estava era de uma tonalidade esquisita, um amarelo podre, difícil de decifrar, pode ver que seus pulsos haviam sido cortados e o sangue se espalhou para dentro e fora da banheira, estava coagulado no chão, mosquitos e suas larvas se serviam a vontade.

         Novamente sentada diante de uma porta, havia decidido que tinha que fechar o chuveiro direito ou a água continuaria pingando, o cheio era muito insuportável, pior do que o da geladeira e ficou grata por ter força o suficiente para não ter vomitado, se vomitasse desmaiaria com certeza, tinha medo de ficar doente também, contou ate cem e prendeu a respiração, entrou rápido no banheiro evitando olhar para o cadáver, sentiu que havia pisado em algo macio e fechou um olho na tentativa de ignorar, apertou o registro do chuveiro o máximo que pode e correu de lá, se imaginou caindo na banheira ou no chão, e ate a imagem do cadáver levantando e a atacando ela teve em sua mente, mas nada disso aconteceu, saiu do banheiro  fechando a porta, correu ate sua mochila, abriu a porta do apartamento e voltou para o corredor, andou de passos rápidos ate sua casa, entrou e trancou a porta e então percebeu que ainda segurava a respiração; se sentiu aliviada, se sentiu salva, tomou um banho gelado e demorado e separou a comida de forma que pudesse racionar melhor dessa vez e na hora que foi dormir conseguiu ate mesmo que a imagem do cadáver da banheira saísse de sua cabeça, o cheiro continuou em seu nariz por algum tempo.

          Foi o suficiente para alguns dias, não muitos infelizmente, antes do que havia imaginado ela estaria se aventurando novamente com uma faca e mochila para fora do seu apartamento, teve sorte pela segunda vez, a outra porta que não havia testado em seu andar também estava aberta e o apartamento vazio, muito dos mantimentos haviam sido pegos pelo tempo nessa casa, e quem saiu de lá havia levado o que pode também, conseguiu pouca coisa, com um pouco de coragem revistou toda a casa e também o resto da casa do cadáver da banheira, conseguiu uma boa lanterna e algumas pilhas, achou uma caixa de remédios, não sabia nada sobre eles, nem mesmo identificar algo além de aspirina, mesmo assim achou que seria bom levar com ela e os deixou sempre na mochila para caso de emergência, se sentiu bem madura quando ignorou roupas e joias, um pequeno anel ninguém sentiria falta pelo menos e pegou também shampoos e sabonetes.  Depois suas necessidades a levaram para cima, tinha que subir ou morreria de fome cedo ou tarde, agora com uma lanterna se sentia mais segura, não teve sucesso com o décimo segundo e décimo terceiro andar, todas as portas estava fechadas, no décimo quarto havia uma porta aberta e mesmo assim não conseguiu alimento para mais do que três dias ou quatro se racionasse muito, o que ela já vinha fazendo a algum tempo, perdeu peso, estava mais magra do que já havia sido e também estava pálida, se sentia quase doente e esse era um de seus maiores medos e assim o tempo parou, Carla prendeu a respiração e seus pensamentos se dispersaram, um golpe trágico do destino, o décimo quinto andar, pelo menos duas portas abertas a vista e no meio do corredor haviam uma daquelas criaturas, ela reconheceu pelas roupas, pelo cabelo, era o senhor Nicolau que morava naquele andar, era um senhor quase aposentado que ainda trabalhava nos correios do bairro, ele estava lá parado, morto e ao mesmo tempo vivo, não há havia percebido, uma lagrima escorreu de seus olhos, lentamente ela foi descendo as escadas, décimo quarto, décimo terceiro, décimo segundo e entrou em casa, trancou a porta da sala e se sentou no sofá. Chorou baixinho, não tinha certeza exatamente do porque começou a chorar, talvez por que não poderia subir e pegar suprimentos? Não, não era por isso, essa era a segunda vez que ela havia encarado um deles de frente, a primeira vez que viu um que não era seu pai e foi isso que a fez chorar, mesmo tendo seus pais ali todo esse tempo, gemendo e batendo sem quase nunca parar, ela havia se esquecido de como ele era, como ele estava quando ela o viu, esperou dois dias para sair de casa novamente.

       Os andares de baixo aliviaram um pouco, do décimo ate o sétimo andar ela conseguiu seis apartamentos abertos, que lhe deram alimento por um bom tempo, tempo o suficiente para conseguir se recuperar do susto de dois dias atrás, mesmo assim ela começava a pensar que logo não poderia ficar nesse prédio por muito mais do que já havia ficado, logo não vai ter lugares para pegar comida, então começava a imaginar sua rota de fuga, teria que sair pela cidade e achar outro lugar para ficar, ou talvez pegar a estrada para algum lugar. Mas onde? Ela nem sabia andar pelo bairro direito, ainda mais sair pelo mundo cheio de monstros. Olhava para fora pela janela e via que nada havia melhorado, às vezes tinha ate a impressão de que os números deles aumentavam e isso era muito perturbador, em momentos assim seus pensamentos se voltavam para outro canto, o de se outras pessoas haviam sobrevivido como ela, sabia que o cadáver da banheira havia e que ele escolheu largar isso, ela mesma pensou em fazer o mesmo, não teve coragem, nunca teria coragem o suficiente para isso, pensava então nos colegas de escola, estava com raiva deles por algum motivo, não conseguia se lembrar qual e essa raiva sem sentido sumiu como se nunca tivesse existido, talvez estivessem todos mortos, talvez não, poderia estar como ela está agora ou ate melhor, pensou em seus parentes também, uma vez achou um telefone celular, já havia tentado ligar para alguém usando o telefone fixo, mas ele estava sem linha, com o celular teve esperança de ligar para algum parente, para a policia ou qualquer pessoa, ouvir a voz de alguém, nem ficou muito decepcionada quando o telefone não deu sinal. Quando ouvia gritos vindo do lado de fora, corria para a janela, nunca via ninguém, aquelas coisas ficavam agitadas e seguiam para a direção dos gritos, as vezes eram de varias pessoas, as vezes de uma única, poucas vezes vinham acompanhados de barulhos de tiro que logo cessavam, imaginava se eram pessoas que apenas estavam passando por ali ou se eram pessoas como ela, que ficaram presas em sua casa e por algum motivo tiveram que arriscar sair de lá, um dia seria ela a ter que tentar a sorte do lado de fora, quanto tempo será que iria durar? Não muito provavelmente, Carla não era pessimista, mas entendia bem sua situação, já havia se conformado com isso há algum tempo e mesmo assim uma força a compelia a continuar vivendo.

         No sexto andar tudo mudou. Tudo começou como todos os outros dias de espreita nos andares de baixo, apenas um apartamento estava aberto, um apartamento comum, não muito diferente de todos os outros, não parecia que alguma família havia morado ali, talvez um homem solteiro apenas. Com tranquilidade fez o que vinha fazendo sempre, assaltou a cozinha, colocou o máximo de coisas que pode na mochila e ia sair, depois voltaria para procurar qualquer outra coisa que poderia ser de valor, se virou em direção a saída da cozinha e ele estava lá, uma figura desumana, sobrenatural, um homem que deveria ser de meia idade, seu rosto cadavérico, os lábios haviam sido arrancados, estava sem camisa vestindo apenas uma bermuda jeans e um único chinelo em seus pés, ele olhava para ela, aquele mesmo olhar vazio e ao mesmo tempo sedento, saia um som de sua boca, um grunhido baixo e rítmico, não parecia estar respirando mas mesmo assim fazia esse barulho aterrador, ele abriu a boca e o barulho que fazia ficou maior e mais agressivo e de forma desajeitada avançou na direção de Carla, ela soltou um grito curto e automático e correu para o outro canto da cozinha, seus olhos não desgrudaram dele e os dele a seguiam para onde quer que ela fosse, ele avançava ferozmente gemendo cada vez mais alto e Carla tentava controlar seu pânico, a única coisa que impedia ele de pegar a garota era uma pequena mesa de quatro cadeira no meio da cozinha, aquela criatura não parecia ser capaz de pensar, mas reagia de forma rápida, mesmo que ela tentasse dar a volta da mesa ele ia pelo outro lado, era um mórbido jogo de gato e rato, Carla jogou nele sua faca e tudo mais que achou no alcance de suas mãos, ele não parecia se importar, era como se não sentisse dor alguma, coisas começaram a passar por sua cabeça feito raio, pensamentos de todos os tipos, mas ate então nenhum que fosse de grande ajuda, então simplesmente correu para um lado da cozinha e ele veio, ela deixou ele se aproximar bastante e tomou impulso para o outro lado, em sua mente ela apenas se imaginava caindo ou encontrando outro deles logo a frente, se imaginou sendo agarrada, sendo devorada e nem percebeu que havia conseguido sair da cozinha direito, correu pelo hall e abriu a porta, viu o corredor vazio e se sentiu aliviada, pegou a chave da porta e saiu, estava salva, estava livre e a dor veio rasgando pela sua cabeça.  Ele havia agarrado seu cabelo e agora eles disputavam força, ela do lado de fora, ele do lado de dentro e a porta ainda estava aberta, ela viu a outra mão cadavérica segurar a porta, ele teria mais força que ela, ele a puxaria para dentro ou abriria a porta então Carla fez a única coisa que poderia, fechou os olhos, largou a chave, segurou a maçaneta da porta com as duas mãos e puxou com toda a força que tinha, não funcionou, então ela soltou um grito abafado, apoiou um pé na porta e usou todo o pouco peso que tinha, a porta bateu com força e ecoou por todo o prédio, Carla sentiu a maior dor que já havia sentido na vida, um grande tufo de seu cabelo havia sido arrancado e agora estava preso na porta, linhas de sangue escorriam pelo seu rosto, os dedos da criatura estavam no chão e a criatura batia na porta e gemia, talvez de fúria ou frustração. Respirou um pouco, pegou a chave e trancou a porta, não acreditava que a criatura conseguiria abri-la, mas preferia não arriscar, deu a volta e começou a subir para sua casa, suas pernas tremiam, seu corpo parecia leve e pesado ao mesmo tempo, quando chegou em casa foi direto para o chuveiro, ficou sentada e chorando por mais tempo do que pode contar, chorou ate suas lagrimas acabarem, o sangue foi lavado junto as lagrimas. Tempo depois se sentiu melhor, se sentiu ate mesmo mais viva, se alimentou e depois de pensar muito pegou uma tesoura e foi para o seu quarto, ainda era dia e estava bem iluminado, do lado de fora se ouviam gemidos baixos e distantes, no seu prédio se ouviam muitos gemidos, os do andar de cima, talvez o do andar de baixo e com absoluta certeza os de seus pais presos no quarto; Carla cortou seu cabelo o máximo que pode, deixou bem baixo, bem masculino, o corte ficou feio, mas há muito tempo ela não se importava com aparência, nunca havia se achado bonita antes, não que fosse feia, mas para a maioria das adolescentes a autoestima variava com o dia, essas coisas não importavam mais, ninguém a iria ver mesmo, seu cabelo agora estava bem masculino e cheio de falhas, com seu rosto magro e olheiras de noites ruins a davam uma aparência horrível, viu os ferimentos da grande falha que havia ficado em seu couro cabeludo, pensou se nasceria cabelo ali novamente e deu de ombros, não importava mesmo, pouca coisa importava agora. Seus pais estavam agitados essa noite, não conseguiu dormir.

        Percebeu que estava há muitos minutos com o garfo parado enquanto olhava para aquele porta retrato, em seu devaneio havia elogiado a menina na foto, uma garota bonita realmente, se surpreendeu quando se lembrou de que a menina na foto era ela mesma. Era engraçado, foto não tinha nem um ano que foi tirada durante as férias, ela já havia esquecido essas coisas, parecia que a vida toda foi daquele jeito, sentia como se já tivesse passado muitos anos e o mais engraçado e que achou a menina da foto linda, enquanto nessa época se achava a mais feia e desengonçada de todas, tudo havia mudado tão rápido, não saberia dizer se havia amadurecido ou se havia aprendido a sobreviver, tinha certeza de que quando pusesse os pés lá fora não irá durar muito tempo, não tinha mais medo de morrer, todos que conheciam já haviam morrido ou estavam na situação de seus pais, preferia acreditar que a alma deles havia encontrado a paz também, por fim, a morte ate seria bem vinda, mas não conseguiria suicidar e não vai se deixar ser devorada, enquanto puder vai se segurar na única coisa que lhe pertence, vai se segurar na sua vida ate o ultimo instante. Terminou de comer, lavou os pratos, limpou a casa, afinal era sempre bom arrumar algo para passar o tempo, mesmo depois desse tempo, não havia se acostumado com todos os incessantes gemidos e batidas de seus pais, quando a bateria de seu Ipod acabou pensou que iria enlouquecer, talvez tenha enlouquecido de verdade, nessa altura das coisas nem importava mais, não conseguia dormir direito também, tinha apenas sono picado, sempre abria os olhos e olhava em volta, conferia todas as portas, todos os cômodos da casa, só assim conseguiria fechar os olhos novamente, para logo depois abri-los de novo e repetir sua paranoia, às vezes queria apenas ter uma noite tranquila.

         Estava se sentindo cada vez mais doente, estava desanimada e desmotivada, já não tinha muito apetite, o que não significava muito, sua comida já estava acabando novamente, comia cada vez menos e mesmo assim parecia que a comida sumia, ou talvez seja o tempo que estava passando mais rápido. Havia escutado tiros essa noite, não se importou muito, isso agitava as criaturas, mas nunca duravam muito tempo então já estava pronta para sair novamente. Com outra faca, a mesma mochila nas costas e lanterna na mão trancou seu apartamento e saiu, seus pais estavam terrivelmente agitados, podia ouvi-los mesmo com a porta fechada; passou a mão no cabelo e pensou no apartamento do sexto andar, teve que respirar fundo para dar o próximo passo. O corredor estava pouco iluminado, lá fora o tempo estava fechado, ate mesmo havia chovido e isso apenas deixava Carla desconfortável, teve que usar a lanterna assim que chegou ate às escadas, talvez Carla estivesse desconcentrada ou ate mesmo segura de mais da sua situação e graças à penumbra que o corredor se encontrava ela não percebeu a sombra que lentamente surgia da escada que vinha do décimo segundo andar.

      No quinto andar todas as portas estavam fechadas, no quarto, terceiro, segundo e primeiro também e isso foi um duro golpe em seu coração, abaixo estaria o hall de entrada e saída e nem imaginava o que poderia encontrar por lá, enquanto para cima ate poderia ter melhores oportunidades se não fosse o senhor Nicolau no meio do caminho, então pensou um pouco e decidiu descer ate o hall e finalmente ver como estavam as coisas lá em baixo. Antes mesmo de terminar as escadas ela pode apagar a lanterna, mesmo com o tempo nublado a luz do dia entrava melhor pelas vidraças que cercavam quase todo o lugar, estava quase como ela se recordava, havia a grande bancada onde ficava o porteiro, os quadros e a televisão próxima as poltronas de espera, o grande tapete e os vários vasos de flores, o problema era que as flores estavam mortas, assim como todas aquelas pessoas que estavam em pé ou escorada nos cantos, não teve tempo para conta-los, pois escondeu sua cabeça na mesma velocidade que a havia posto para fora da escada, subiu de constas o mais lento que pode, não podia fazer nenhum barulho, seu coração batia feito um tambor, sentiu a bile subir pela garganta, quando chegou na segunda parte da escada que levaria ao primeiro andar teve certeza que não foi seguida, então continuou a subir com mais velocidade mas ainda com cuidado para não fazer nenhum barulho.  Um golpe terrível da sorte, as portas de baixo acabaram e o hall estava enfestado, agora teria que bolar um bom plano, ir lá para fora ainda parecia uma ideia absurda, talvez então conseguisse acessar as janelas dos apartamentos trancados, bem, pensaria em algo em breve, estava quase otimista quanto a isso, mas esse otimismo não duraria muito tempo.

         Antes de terminar de subir a escada que levava para o sétimo andar Carla ouviu o gemido, a principio ignorou, afinal, em vários dos apartamentos havia criaturas dentro, felizmente a maioria estava trancada lá dentro também, novamente o gemido chamou sua atenção, ele estava nítido, bem próximo na verdade, olhou para trás pensando que poderia ter sido seguida e percebeu que a lanterna estava desligada ainda, ligou a luz e viu que não havia ninguém atrás então se voltou para frente, e lá estava ele, exatamente como ela o havia visto da ultima vez, o uniforme dos correios, o rosto muito mais envelhecido, aqueles olhos vazios e famintos, ele estava muito próximo, ela pode sentir seu hálito podre enquanto as duas mãos cadavéricas tentaram lhe agarrar, suas pernas fraquejaram novamente e pela primeira vez para seu bem, Carla caiu e escorregou ate a escada que levaria ao sexto andar escapando do abraço mortal do senhor Nicolas que soltou um chiado horrível, como se estivesse frustrado. Ele avançou novamente e Carla se recuperou da queda, não havia machucado e ganhou uma distancia que pode usar,  passou pelo sexto andar sem olhar para os lados, desceu as escadas para o quinto como nunca havia descido escadas antes, continuou ate o quarto andar e se lembrou do hall, não poderia ir para lá, seria morte certa, então em um ato desesperado tentou abrir as portas do quarto andar e como resposta ouviu batidas e gemidos dos outros lados das portas, de todas elas, correu ate  a escada para o terceiro e viu o vulto descendo as escadas de forma desengonçada mas rápida o suficiente, tentou novamente as portas do terceiro andar e novamente teve como resposta batidas e gemidos, parecia que todos os andares de baixo estavam infestados, não sabia se para sua sorte ou azar, então correu novamente, no segundo andar todas as portas já estavam em um ritmo doentio e batidas, arranhões e gemidos, parecia que o prédio inteiro havia despertado, então não havia jeito, era tudo ou nada, ou saia do prédio ou morreria nele.

         Estava sem folego quando chegou na metade das escadas segurou o ar quando se voltou para o resto do caminho, um homem de rosto deformado e que vestia o que um dia foi um lindo terno de linho a estava aguardando, Carla recuou enquanto ele gemia e avançava em sua direção e  também pode ouvir os gemidos e passos do senhor Nicolas logo acima, pensou em sua mãe quando ainda viva, seu olhos cheio de lagrimas não derramaram nenhuma gota dessa vez, agora era sua vez e não tinha muito o que fazer e mesmo assim veio aquele sentimento, um sentimento forte e selvagem, queria viver, independente de qualquer coisa, ela queria viver e se agarraria a sua vida com todas as forças que tinha, tomou um impulso e ganhou uma força que não conhecia, encarou o homem de terno e se jogou em sua direção, ate mesmo ele parecia não esperar por esse movimento e também avançou na direção da garota, a agarrou e cravou seus dentes com toda voracidade que tinha e Carla aproveitou a oportunidade para soltar sua mochila das costas enquanto a criatura tentava inutilmente se alimentar do náilon cordura, infelizmente teve que largar sua faca e lanterna, um preço pequeno a se pagar pela vida que tentava com todas as forças manter. Agora vinha a parte arriscada, estava no hall, uma olhada rápida pelos cantos e viu que já estava cercada, eram muitos, mais de dez com certeza, alguns rostos conhecidos e outros não, e todos eles incitados pela sua presença avançaram gemendo e sedentos por um pedaço dela, então Carla nunca foi tão feliz em ser magra, fintou a porta de entrada e saída do prédio e correu em sua direção com toda convicção que pode, conseguiu desviar dos três que estavam em seu caminho e em apenas alguns passos sentiu o vento que vinha fresco do lado de fora, foi menos que um segundo de felicidade, se dentro do prédio estava ruim, o lado de fora estava bem pior e agora podia confirmar com os próprios olhos o porque dos barulhos de tiro e os gritos nunca durarem muito tempo, havia centenas ali, parecia muito mais do que quando ela os olhava de seu apartamento, eles estavam dentro de carros, dentro de outros prédios e espalhados por toda rua e todos eles começaram a prestar a atenção nela, um a um eles foram gemendo e gritando e a atenção de todos os outros ia sendo chamada, logo uma onda de gemidos vinha em direção da pequena garota e então ela correu.

      Cada esquina, cada canto, cada casa, todos os lugares estavam infestados e por cada lugar que ela passava mais deles vinham, estava sem folego, toda a força que havia ganhado antes já tinha desaparecido, suas articulações e músculos doíam, seus olhos ardiam, sentiu a boca seca e quando olhou para trás não queria acreditar, a morte caminhava em sua direção como uma onda e horror e o som que ela fazia lhe dava arrepios, um coro fúnebre, gemidos que lembravam ódio, dor, desespero e lamentação, em outra situação sentiria pena delas, mas nesse momento sua cabeça não conseguia pensar em muita coisa, se concentrava apenas em continuar correndo, e estava correndo cada vez mais devagar, trotando apenas, estava a uma boa distancia da maioria deles, mas por pouco tempo, sem conseguir seguir em frente virou em uma rua qualquer à esquerda, nem mesmo pensou que poderia estar entrando numa situação ainda pior, nem imaginou que a rua poderia estar infestada também ou que fosse uma rua sem saída, entrou na rua, deu alguns passos e caiu, seu corpo doía mais do que já havia doido antes, cada musculo, cada ligamento, sentiu vontade de vomitar e sabia que estava vulnerável ali, caída e indefessa e a mercê do destino inevitável, podia os ouvir chegando, ouvir seus lamentos fúnebres e desejos de sangue e nesse momento soube novamente que ainda não estava pronta para se entregar, iria contar com a sorte mais uma vez e usou as ultimas forças que lhe restaram para rolar para o lado, ela encaixou perfeitamente, nunca havia estado de baixo de um carro antes e como se estivesse sido cronometrado, a horda inumana avançou pela esquina, centenas deles vinham vagarosos e desajeitados, Carla tampou a boca e quis ate fechar os olhos, mas esses ficaram abertos e vidrados enquanto eles passavam e continuaram passando, mais uma vez a sensação de que o tempo havia parado, eles continuavam virando a esquina e passando direto por ela, nenhum deles havia pesando em olhar debaixo daquele carro, eles não pareciam capazes de pensar, apenas faziam coisas simples, eram menos que animais e mesmo assim eram terríveis, parecia interminável, eles vinham e continuavam vindo, estava cercada novamente, seu corpo parecia que estava prestes a desmoronar e não podia graças a toda tensão, então finalmente, após o que parecia ser uma eternidade a horda se foi, alguns ainda ficaram perambulando de um lado ao outro, outros simplesmente pararam e ali ficaram e Carla continuou esperando e esperando ate que seu corpo e sua mente cederam e ela finalmente desmaiou de exaustão.

          Acordou assustada, uma dor latejava em sua nuca, estava tudo escuro, demorou alguns segundos para se localizar, havia batido a cabeça com força em alguma peça do carro e sentiu o quente sangue escorrer ate o pescoço, parecia não ter chamado à atenção de nenhum deles, conseguiu ver apenas três vultos parados próximos ao carro, então continuou ali, estava sentido frio, sede e fome, seu corpo ainda estava todo dolorido e sua mente cansada implorava para que ela caísse no sono novamente, lutou contra isso o máximo que pode e todo o tempo que ficou embaixo do carro foi entre pequenos cochilos e a luta constante para se manter acordada. Sentindo o queixo batendo contra o chão acordou de novo, algum tempo havia passado, a luz do sol já alcançava o topo dos prédios e agora podia enxergar perfeitamente, estava sozinha, alguma coisa havia chamado à atenção das sentinelas que estavam ali antes, mesmo assim esperou alguns minutos para poder sair de seu esconderijo, tinha certeza de que se precisasse se esconder ali novamente provavelmente não teria a mesma sorte que da ultima vez, mesmo assim precisava achar comida e um lugar para fazer suas necessidades fisiológicas, em um beco conseguiu se aliviar, se limpou como pode, mas não fazia muita diferença, estava completamente imunda, ela também não se importava muito nesse instante, um banho seria bem vindo, mas se pudesse escolher, uma boa refeição seria bem melhor. Depois de toda adrenalina e agora com o sangue mais frio ela sentia seus músculos latejando e mancava um pouco na perna esquerda, torceu um pouco o tornozelo em algum momento, jamais se lembraria de qual, andou por mais becos e constatou que sabia onde estava, pensou que tivesse atravessado a cidade de tanto que correu, a verdade era que ela estava apenas alguns quarteirões de seu prédio, então se escondeu em lixeiras e dentro de um ou outro carro, não encontrou nada além de restos podres de comida, tentou comer as que pareciam menos repugnantes e mesmo com a fome que tinha, ainda não era suficiente para comer fungos e outras coisas em alimentos em decomposição, queria entrar em alguma loja, mas todas elas estavam enfestadas e se chamasse a atenção de um deles, acabaria chamando a atenção de todos novamente e assim passou por mais um dia, seu estomago roncava e doía, se encolheu dentro de uma lixeira e assim ficou durante toda a noite, ouviu por umas três vezes os passos lentos e gemidos rítmicos das criaturas lá fora, sempre sentia um aperto no coração, um frio na barriga, a tenção era extrema e quando eles passavam e depois sumiam o alivio era bem vindo, mas nunca ficava por muito tempo.

        Não aguentou ficar mais um dia sem comer, teria que arriscar entrar em alguma loja ou casa, as casas pareciam mais seguras, ou seja, eram mais perigosas na verdade, não se podia ver se havia algum deles lá dentro, poderia ser uma armadilha mortal, o supermercado estava cheio deles, podia ver muitos deles andando de um lado para o outro então decidiu arriscar a padaria. Antigamente, ou seja, antes dessa loucura acontecer, sempre ia à padaria com seu pai, o dono ela um senhor bonzinho que sempre lhe presenteava com elogios e doces, imaginou que agora ele também seria um deles. Andou espreitando pelas ruas, ela havia tido uma ideia estupida que mesmo imaginando que não funcionaria preferiu arriscar, com uma velha caixa de papelão mofado e quase seco que havia achado fez o que queria que fosse uma camuflagem, apenas abriu a caixa o máximo que pode e usou para tentar cobrir o máximo do corpo quando precisasse parar, andava lentamente encostada na parede e ao menor sinal de perigo colava o papelão no corpo e se encolhia o máximo que podia e se sentia estupida, muito estupida mesmo e quando seu plano funcionou no momento em que uma das criaturas passou por ela sem nem a notar ficou mais surpresa do que contente. O que antigamente seria uma caminhada de poucos minutos se tornou uma odisseia de varias horas, se escondendo e esperando e pela primeira vez podia observar aqueles seres, se lembrou dos filmes de zumbis estúpidos que seus primos assistiam, não era como aquilo, eles não queriam comer cérebros e eles nem eram tão lentos, eram apenas desajeitados, e o mais terrível eram os olhos, aquele olhar vazio e ao mesmo tempo cheio de sentimentos ruins, junto aos gemidos então? Sempre iriam lhe dar arrepios. Quando finalmente chegou a padaria o dia já havia passado de sua metade e uma fina chuva caia do céu, antes de ter coragem para entrar na padaria ela olhou por todas as janelas que pode, parecia vazio lá dentro, mas não iria confiar tão fácil, não depois do apartamento do sexto andar, as janelas estavam sujas e todas trancadas, logo pensou que a porta também estaria e desanimada foi conferir, realmente a porta deveria estar trancada, isso ate alguém arromba-la, a aporta estava entreaberta e se podia ver claramente a  maçaneta quebrada, olhou em volta para ter certeza que nenhum observador indesejado há tivesse percebido e então como uma gatuna ela entrou quase rastejando, lentamente e bem atenta foi olhando cada canto da padaria, começou pelo balcão, passou para as mesas, conferiu o banheiro, a porta dos fundos, a dispensa e todos os cantos que pode, estava fazia, e assim também quase estava de mantimentos, alguém havia tido a mesma ideia que ela, era obvio, afinal alguém havia arrombado a porta, sabe-se lá quantos sobreviventes passaram por ali ao invés de tentar a sorte no mercado? Muitos provavelmente, mesmo assim não foi de muito infortúnio, achou duas embalagens fechadas de biscoito perdida entre as prateleiras, uma lata de milho que lhe custou muito tempo ate desisti de abri-la e um tesouro, uma barra de chocolate, comeu lentamente, se pudesse a faria durar por mais de um ano, infelizmente não durou mais do que algumas horas, estava com muita fome para pensar em racionamento. O segundo maior tesouro foi a água, ela não quis tomar banho, teve medo de ser surpreendida, mas bebeu o máximo que pode, se surpreendeu com a sede que estava, água nunca havia sido tão saborosa em toda sua vida, tentou achar alguma garrafa para levar, não teve sucesso, mesmo assim estava contente, apesar de não conseguir dormir direito, teve uma noite melhor do que a que passou de baixo do carro ou na lixeira, e o principal, lá estava seco.

         Acordou dolorida, já estava se habituando à sensação, não gostava é claro, apenas a estava incomodando menos do que antes. Queria dormir mais, queria ter uma cama gostosa e um cobertor quente, lá fora o barulho da chuva lhe trazia boas lembranças, estava escuro ainda então esperou ate o dia amanhecer. Ficou sentada e encolhida no próprio corpo ate os primeiros raios de sol iluminarem as ruas, olhando para cada janela, sempre espreitando para ter certeza que não havia nenhum visitante indesejado foi beber água e utilizar o banheiro, essas pequenas coisas que antes nem prestava a atenção agora eram sua maior felicidade, usar um banheiro e ate teve coragem de ligar a água e limpar um pouco seu corpo, foi bem rápido e se sujou novamente ao vestir as suas roupas, mas mesmo assim se sentiu mais leve que antes, não deu descarga para não chamar a atenção e em seus pensamentos desejava apenas uma roupa mais seca e limpa e principalmente que tivesse aguentado e não comido todo o chocolate. Estava pronta agora, logico que sua situação poderia ser bem melhor, também poderia ser bem pior, havia escapado da morte diversas vezes, pensando na desventura que teve no seu prédio, parecia que tinha acontecido há meses e não há pouco dias, olhou para o papelão que havia usado de camuflagem, estava quase praticamente em pedaços, também o tinha utilizado de cama e agora não poderia usar para camuflar novamente, também ele não aguentaria. Lá fora a chuva caia, não era das mais fortes que Carla já havia visto, mas também não era das mais fracas, então ela pensou que poderia ser uma vantagem, aqueles zumbis não era muito espertos no fim das contas e andar na chuva também não era a coisa mais fácil, se prestasse a atenção no caminho e se seu tênis não escorregasse talvez ela pudesse entrar e depois fugir do mercado com uma ou duas coisas, o plano era estupido, ela sabia, mas teria que arriscar, já tinha decidido, sairia da cidade em seguida, ficar ali seria sua morte certa e não poderia contar com a sorte sempre, pelo menos não ali, acreditava que uma hora a sorte logo se esgotaria e ela se varia cercada e seria devorada ou pior, seria transformada daquelas coisas horríveis, não, ela não deixaria isso acontecer, sairia da cidade e encontraria o lugar seguro que a televisão falou, andaria pela estrada e encontraria comida no caminho, inocentemente pensava que poderia caçar algum animal ou encontraria algo que a iria salvar, já havia perdido muito da sua mentalidade de criança, mas a esperança e fantasia nunca haviam desaparecido completamente, talvez fossem elas que a mantiveram viva, para seu bem ou para seu mal, mas ainda sim ela estava milagrosamente viva.

         Não tinha mochila, nem faca ou lanterna, a fome era uma companhia tão constante que já nem lhe dava coragem, a coragem já estava mesclada em seu corpo e alma, ela fazia o que tinha que fazer, tinha medo é claro, medo de morrer e medo de viver, não perdia seu tempo pensando no dia de amanhã, pensava apenas no agora, e agora estava determinada a sair desse lugar amaldiçoado. Respirou fundo e deu o primeiro passo para fora da padaria, à chuva caia pesada em sua cabeça e corpo, já estava acostumada com o cabelo curto, mas ainda estranhava a leveza da cabeça, parecia menos protegida, ainda assim água da chuva dava mais alivio do que pesar, olhou para os lados, tudo parecia bem tranquilo, mas por quanto tempo ela não saberia. Correu por alguns quarteirões e ficou fadigada rápido, a chuva pesava suas roupas e não tinha muito folego então logo se limitou a andar rapidamente ou trotar por alguns pontos que se sentia vulnerável, começou a chamar a atenção de uma ou outra criatura e constatou que se a chuva a atrapalhava, realmente era pior para eles. O único problema? Ela se cansava e parecia que eles não, mas agora também já era muito tarde para voltar a trás, então continuou ate chegar próxima ao mercado e vendo que um pequeno grupo já começava mesmo que com dificuldade a segui-la deu uma puxada nos seus passos, logo estava correndo, mesmo que não com tanto esforço, o ar parecia ter ficado pesado e por um breve momento pensou em cair no chão e desistir, não conseguiu, jamais conseguiria simplesmente desistir e quando viu o mercado adiante pareceu que sua força havia sido renovada, quatro deles estavam próximas ao mercado e ela passou por eles mais rápido do que eles podiam reagir, entrou no mercado fazendo um barulho estridente enquanto deslizava com seu tênis no escorregadio chão do mercado quase sem conseguir parar, estava completamente molhada, com respiração pesada e bufando, queria chorar nesse momento; eram muitos lá dentro, se arriscasse entra um pouco mais para pegar algo, com certeza não sairia dali e todos eles estavam olhando para ela, e eles começaram com os gemidos, primeiro um, depois outro ate que todos estavam em seu lamento de fúria, o som estava cada vez mais alto, ecoando por todo o mercado e ao mesmo tempo eles avançaram. Retomando rapidamente o equilíbrio se voltou para a saída, os que já estavam a seguindo do lado de fora já estavam bem próximos, ainda sim era uma pequena dezena se comparado a centena que estava avançando agora, ela passou pelos três que já havia passado antes, mesmo cansada ela ainda estava mais ágil que eles, o problema foi com o resto que estava do lado de fora, olhava para um lado é lá estavam uns cinco, para o outro havia mais quatro, dos prédios e carros surgiam mais alguns e do mercado o verdadeiro inferno se aproximava, se lembrou da situação que estava quando saiu do seu prédio, teve que correr muito e teve sorte de achar um carro para se esconder, queria olhar e pensar no melhor caminho para seguir, infelizmente não dispunha de tempo então simplesmente correu para o lado que tinha menos deles, aproveitava a rua larga para ter uma distancia deles, mas a cada distancia que percorria maior era o numero deles que surgia, nem queria olhar para trás, podia ouvir seus gemidos, sabia que estavam perto, a chuva estava pesada, seu tornozelo ainda doía, assim como seus músculos, nem correu muito dessa vez, nem mesmo avançou um quarteirão direito e já estava cambaleando, não dava mais, estava esgotada, a água da chuva caia forte em seu corpo e lhe dava tranquilidade, deixou que escorresse para seus lábios, os gemidos de fúria eram uma canção fúnebre, seu olhos estavam semicerrados, viu um deles se aproximando rapidamente pela frente, quis reagir mas não conseguiu nada além de dar um meio passo para o lado, ele a agarrou com seus braços fortes, estava molhado assim como ela, não se incomodou com isso, pode sentir o seu hálito quente próximo a sua cabeça e um barulho feito um trovão ecoou do seu lado, sentiu seu corpo todo vibrando, o susto a despertou do seu transe, podia sentir um cheiro forte e um segundo trovão veio e depois um terceiro, seu captor a levantou, ela estava no seu ombro agora e ele começou a correr.

        Estava um pouco desorientada, olhando para onde estava antes ela viu três corpos caídos ao chão e sua mente tentou trabalhar, a exaustão não deixou e ela acabou perdendo de vez a consciência. Acordou desesperada, alguma coisa segurava bem forte seus ombros e falava alguma coisa, era uma voz grossa, masculina, abriu os olhos e mesmo olhando diretamente para o homem a sua frente tentou escapar, se debateu, tentou gritar sem sucesso, apenas abriu a boca e torceu o corpo e ele ainda falava algo, repetia a mesma coisa, repedia sem parar, e fazia de forma tranquila, ele falava que ela estava salva, que ela estava salva agora, e quando Carla entendeu as palavras seu corpo cedeu, começou a chorar, soluçava como uma criança novamente, e as lagrimas vinham cada vez mais e sua garganta doía pelo esforço, não importava e o homem a abraçou. Estavam dentro de alguma casa, de tempos em tempos ele olhava pela janela e se sentava novamente, Carla estava mais calma, então eles ficaram calados agora, a horda os havia alcançado, mas não havia descoberto onde se esconderam, estavam passando apenas desorientados, caçando seus fugitivos. O homem que salvou sua vida era forte, tinha cabelos pretos e curtos e uma barba mal feita, podia ver algumas cicatrizes no rosto e no pescoço, em outra ocasião ela teria corrido dele, o teria achado com cara de perigoso, não era o que ela sentia, estava feliz, por mais que não conseguisse expressar nesse momento ela estava mais do que feliz, queria pular de alegria, pensava que nunca mais iria encontrar alguém vivo novamente, talvez pulasse de alegria realmente, se seu corpo deixasse, estava tão dolorida que mal conseguia se mexer, seus olhos estavam pesados e estava com uma sensação de alivio que acalmava seu coração, lutou inutilmente para não dormir novamente. Acordou com a água fresca descendo pela sua garganta.

      – está com fome? – timidamente acenou que sim com a cabeça. O homem sorriu e tirou da mochila duas daquelas barras de proteína horríveis que davam sensação de estufada que apenas seu pai comia, elas não eram mais horríveis agora, foram maravilhosas e se pudesse comeria mais. – esta mesmo com fome em? A maioria deles já se foram para outro lugar, vamos passar a noite aqui, pode dormir tranquilo. – Carla obedeceu quase que automaticamente, sentia que podia dormir para sempre agora.

            Quando acordou o dia já estava claro, a chuva havia parado e imaginou quanto tempo havia dormido, estava mais dolorida que de costume, sentia muito frio e uma leve tontura, olhou para os lados procurando seu salvador e seu coração quase parou quando percebeu que ele não estava ali por perto, para sua felicidade ele logo apareceu.

         – finalmente você acordou em? Eu pensei que teria de acorda-lo ou te levar dormindo mesmo. – ele sorria e parecia tranquilo, como alguém poderia estar tranquilo numa situação daquela? – qual o seu nome? – Carla não respondeu, não por que não queria responder, e sim porque havia percebido que não conseguia, fazia tanto tempo que não conversava com alguém que parecia ter esquecido como se faz, se limitou apenas a ficar olhando para ele. – depois você me fala então. Meu nome é Diego, bem, hora de ir embora, nossa carona está esperando.

         Carla estava com os músculos tão fadigados que não conseguiu se manter em pé então Diego a pos nas costas como seu pai fazia quando pequena, apenas lhe disse que se precisasse ela teria que descer, mas para não ter medo, ele não a deixaria para trás, ela confiou nele totalmente, então assim eles saíram. Carla via agora que ele carregava duas armas na cintura e tinha uma pochete, fora isso não parecia ter mais nada, ele correu com ela nas costas e parecia não se cansar, às vezes parava e olhava em volta, nesses momentos descia Carla e segurava uma de suas armas nas mãos, continuaram assim por um tempo e duas vezes pararem dentro de algum estabelecimento, e em um deles se depararam com um dos mortos, era como Diego os chamavam e nessa hora ele retirou uma faca bem grande de sua bota e o matou com um golpe certeiro na cabeça, Carla se assustou um pouco apenas, o fato de se sentir segura com Diego a mantinha controlada; pensou na sua casa, quando saia levava uma faca e se imaginou fazendo o mesmo com o senhor Nicolau ou o do apartamento do sexto andar, será que teria conseguido? Bem, felizmente que não o fez, afinal, se não tivesse saído do prédio, jamais teria sido encontrada por Diego. Logo continuaram correndo pelas ruas, Carla se sentia um pouco melhor e quando não precisassem correr fazia sinal para Diego parar, assim ela poderia descer e ser um estorvo menor, mesmo assim eles avançavam bem devagar, não podiam chamar atenção, então paravam por muito tempo em vários pontos para evitar confrontos com grupos de mortos. Em um determinado momento eles pararam próximos ao mercado novamente, Diego a levou para uma esquina e a escondeu próxima a um carro, disse para esperar e assim ela fez, mesmo com pouco tempo passando, a imaginação a fazia pensar nas coisas mais terríveis, coisas como Diego ser pego pelos mortos ou ate mesmo ter abandonado ela ali, se surpreendeu em saber que se algo assim ocorresse ela ficaria mais tranquila do que deveria, pensaria em algo e sairia dali de algum jeito, sua força e esperança foram totalmente restauradas, e mais importante do que isso, sua vontade de viver, mesmo assim ficou extremante feliz quando Diego retornou, ele estava carregando uma grande mochila de viagem que estava bem cheia.

       – Eu estava no mercado quando você entrou. Não sei dizer se você estava sendo corajoso ou estupido, teve sorte, muita sorte mesmo. Agora vamos, logo vai anoitecer novamente, nossa saída é por ali.

      Saiu do carro e agora andava ao lado de Diego, aparentemente sua estupida ideia de entrar no mercado garantiu para eles uma fuga mais tranquila da cidade por este caminho, antes estava repleto de mortos, agora se via apenas alguns solitários pelos cantos, Diego cuidava deles com facilidade utilizando sua faca, mesmo assim chegou um momento que o numero deles estava grande de mais, então começou a utilizar sua arma, agora Carla percebeu o porque dele não a ter usado antes, cada vez que mata um, outros apareciam atraídos pelo barulho que ecoava por toda a cidade, logo aquela horda gigantesca os alcançaria e começaria tudo de novo, correr e se esconder, se esconder e correr, esse pensamento a desanimou muito, por quanto tempo mais aguentaria aquilo? Não muito provavelmente, estava fraca de mais, desnutrida e doente e seria um peso para Diego se tivesse que carrega-la, mas Diego não parecia estar preocupado, ele apenas olhava para ela e sorria como se fosse para acalma-la, assim ela parou de pensar, confiaria em Diego ate o fim. O barulho de um carro era algo que ela não ouvia há muito tempo, eram dois deles que se aproximaram rapidamente, um passou por eles e outro ficou pouco atrás, alguns homens e mulheres desceram, eram seis no total e a sequencia de ensurdecedores barulhos de tiros começaram e cada disparo assustava Carla um pouco, por mais que ela tentasse acompanhar e esperar eles acontecerem ela sentia seu corpo inteiro vibrar, mas tudo isso não durou muito tempo, Diego colocou a mochila dentro do carro que havia ficado atrás deles, uma mulher morena estava esperando ao volante.

       – Está atrasado Soldado, pensamos que tínhamos te perdido.

       – Eu tive um contratempo Jú, temos um novo rapaz no grupo. – A mulher que ele chamou de Jú a olhou com espanto, sua aparência realmente estava terrível, o que não sabia era que oque realmente impressionava era o fato de uma criança ter sobrevivido ali tanto tempo sozinha.

       – Parece que seu cérebro finalmente parou Soldado, nem sabe mais diferenciar uma garota de um rapaz?

       – Garota? – Diego a olhou meio desconcertado. – Me desculpa, ora, mais é que…

       – Ele nunca soube gata, é um panaca. – Disse outro homem rindo, um baixo e quase careca que entrava no carro enquanto guardava uma grande arma. – Vamos embora. – Logo estavam todos dentro do carro seguindo para fora da cidade, à mulher dirigia e o homem careca ia ao seu lado, atrás estavam Carla e Diego, o outro carro vinha logo atrás.

      – Então você é uma garota? E não me disse nada? – Diego sorria enquanto falava e sua voz parecia ser sempre tranquila. – Vamos começar de novo, meu nome é Diego, eles me chamam de Soldado, aquela é Juliana, pode chamar de Jú. – A mulher acenou com a mão sem tirar os olhos da estrada. – e o mal educado ali é o Careca, mas se quiser pode chamar de Carlos. – Jú riu enquanto o Careca resmungava algum palavrão. – então, qual é seu nome?

     – Car… – sua voz quase não saia. – Carla, meu nome é Carla. –Cconseguiu dizer, sua voz estava um pouco rouca, ate o som parecia diferente, quanto tempo havia ficado sem falar?

      – Ahm, então você realmente sabe falar em? Carla é um lindo nome, muito prazer Carla, agora você faz parte do grupo.

      – Diego? – Jú o chamou. – Ela não me parece muito bem não.

      – Está desnutrida e com febre, sabe-se lá o que ela passou por aqui, já faz quanto tempo? Cinco meses?

      – Mais do que isso Diego. – Jú continuava falando sem tirar os olhos da estrada. – Então Carla? Você estava sozinha ou tinha mais alguém?

     – Sozinha. – Ela disse com muito esforço, estava ficando sonolenta novamente. – Meus pais, no apartamento, eles… eram…

     – Por Deus. – Jú olhou para trás agora, via o estado da garota e lagrimas brotaram nos seus olhos. – Como ela conseguiu?  – Diego a colocou no seu colo, estava um pouco quente de febre, suja e machucada, mas estava tranquila, em seu sono sorria tranquilamente.

     – Não se preocupe Carla, você vai ficar bem, vamos cuidar de você. – Carla não ouviu o que ele disse, mas de alguma forma era como se tivesse absorvido as palavras, seu corpo estava relaxado, a dor a abandonava temporariamente e sua mente entrava num sono tranquilo e sem sonhos, o barulho do carro e o colo de Diego a deixou mais confortável do que qualquer outra coisa já havia deixado; era a primeira vez há muito tempo que ela se sentia tão segura, a viagem seria um pouco longa ate o esconderijo daqueles sobreviventes então foi ali mesmo, dentro daquele carro e dês de que todo esse pesadelo começou que Carla teve sua primeira noite tranquila.

Fim da guerra

Os gritos continuam ecoando todas as noites.

Sempre que fecha os olhos pode ver a dor e o sangue.

O barulho do desespero, o cheiro de corpos queimados.

E o que mais o incomoda são os gritos desesperados.

Acorda antes do sol, o suor gelado cobre a pele.

Ouve tiros, sempre mais perto, quando será a sua vez?

Os gritos sessaram? É sempre temporário, logo vem uma explosão e o pesadelo se mostra real novamente.

Correr não adianta, não existe nenhuma saída.

Nada pode salva-lo, não importa o quando ele reze.

Já faz tanto tempo que nem quer mais se importar.

Talvez se acabar logo seria melhor, rever os seus filhos, estar com eles novamente. Queria acreditar nisso.

Sentou-se na cadeira, a sala está vazia. Ele não queria essa guerra, nem sabe quais os motivos.

Espera, aguarda, logo será sua vez, lagrimas escorrem dos olhos e a terra treme levemente.

Aqueles homens armados entram, já eram esperados. Seus gritos já são conhecidos e o cheiro de pólvora que traziam era terrivelmente nostálgico.

Ele sorri, lagrimas escorrem. Eles gritam, ele continua sentado.

Eles são anjos, e também são inocentes, eles não queriam essa guerra, então que ela acabe para pelo menos um lado. Fechou os olhos. Ouviu um grito. Ouve um disparo, uma dor em seu peito traz paz em seu coração.

Já consegue ver os seus filhos e sentir o calor dos seus abraços. Não há mais nenhum barulho, nenhum cheiro, nenhuma dor. A guerra terminou, pelo menos de um lado.

O mendigo e o cão

Um sem teto andando na calçada imunda, mas mesmo assim, não mais do que ele próprio.

– Vô morre. Só pão, pão e pão. Eu queria um cigarro.

ele senta em um canto que está forrado de papelão.

– Não “guento” mais essa vida.

chega um cão abanando o rabo, está bem sujo e mal cuidado, o sem teto o acaricia e lhe da um pedaço de pão.

– Desse jeito agente tá ferrado amigo.

o cão late e abana o rabo e pega o pão com sua boca. (ebaaa, adoro isso.)

– se eu ganhasse muito “dinhero” eu “pudia” se rico.

o cão já alimentado começa a pular em volta do sem teto feliz como nunca. (depois de comer o melhor brincar.)

– eu sei amigo, eu também “num” quero “cumé’ mais pão.

o cão late e começa a puxar a barra da calça imunda. (como eu adoro ele, adoro o cheiro dele.)

o sem teto  se levanta.

– “vamo” amigo, “vamo” lá “consegui” “dinhero”.

Caminham entre varias pessoas que os ignoram.

– Me dá um troco ai moço?

–  Depois.

–  Ô dona, to “cum” fome.

E a mulher gorda passa sem nem olhar.

– Dá um real “dotor”?

O cão abana o rabo e late feliz. (olá moço)

– Sai cachorro, passa…

– Um real ai?

– Tenho só isso.

– Deus te pague.

pegou o dinheiro e o dia passou, logo estava de volta a caixa de papelão.

– Só deu “pra” “compra” uma cachaça. Vô morre…

começou a chover, o sem teto  se deita e o cão se aconchega nele.

– Droga. Vida ruim. Desculpa amigo, queria cuidar “meinhô” de você. Um dia “vô” “cê” rico.

o cão lambe seu dono no rosto. (você é meu melhor amigo, adoro essa vida… obrigado)

No escuro

Me agarro a essa loucura.

Me escondo nesse desejo.

Onde você quer se esconder? Nos seus próprios braços?

Através da escuridão a busca é impossível.

Sem luz, sem vida, já não posso escutar o vento.

Me prendo e quero me soltar.

Seus cabelos contra o vento cheiram a brisa e mel.

Desço bem fundo, o poço é infinito.

Onde está meu coração?

através do poço, alem da escuridão eu encontro.

ele ainda bate? ele ainda vive? ele ainda ama?

o agarro e espremo, o enforco e dilacero, ele resiste, resiste fortemente.

ele quer, ele vive, agora eu posso ouvir o vento.

a luz toca minha pele, olho para o céu.

seu sorriso me lembra a felicidade, seus olhos trazem o meu sorriso.

quero apenas deixar acontecer, então viro o poço de cabeça para baixo.

e se eu sentir saudade do escuro?

Sorriso

Acordei sorrindo, olho para o lado procurando, minhas mãos tocam o lençol, o colchão e o vazio, foi apenas uma ilusão.

Queria fechar os olhos e poder voltar, mas o relógio grita pelo meu nome.

Está na hora, está na hora.

Sorrindo eu meu levanto, perambulando como um sonambulo eu procuro você em todo canto, vejo seu rosto e sinto seu cheio, meu coração está apertado, está desistindo, não quer mais bater.

A água cai gelada, como facas afiadas elas cortam a minha alma e me despertam do desejo, posso senti-la sangrar.

No reflexo do espelho eu te vejo do meu lado, já não sou mais o mesmo, estou fraco. Sou como uma marionete de cordas arrebentadas que um titeriteiro abandonou, estou sorrindo, mas por quê? Por quem? Por mim ou por você?

Grito por Deus, e peço clemencia, imploro a Deus para me mostrar, então vejo um gato em minha janela, pelos cinzas, rabo a serpentear.

Quem é Deus? Quem é Deus? Quem além de você que é o seu Deus? Não existe outro Deus além de você, mas existem demônios que você cultivou.

Estou sorrindo, estou sorrindo.

Abro meu guarda-roupa, quantas máscaras eu tenho para usar? Já nem me lembro com qual eu nasci, estão todas sorrindo, sorrindo por mim.

Meu peito explode, tentáculos escapam e começam e me enredar, meus braços e pernas sendo engolidos, sendo auto-absorvido, dor e silencio, lagrimas e escuridão.

Então abro os olhos e acordo, estou sorrindo, o relógio grita meu nome.

Não é a hora, não é a hora.

Um gato sentado na janela me observa; sorriso sádico e olhar cruel.

Não há escolha, já não posso voltar.