A dama carente

Negra e pálida, em forma de donzela.

De sombra cadente, escorrendo em terror.

Habitando quase solitária sua fortaleza nos sonhos.

Realizando sóbrios desejos em caos tortuoso.

Anseia cruelmente por vulgos prematuros.

Trocando sua parte, barganha de seu corpo.

Jamais satisfeita se lamenta e se distorce.

Cercada de infinitos fetos eternos a torturar.

Eles rastejam em sua volta clamando por amor.

Oh, sombria dama de imensurável carência.

Pedindo sempre insatisfeita por mais rejeitados da vida.

Substituindo-os por rejeitos de sua própria essência.

Deixando monstros qualquer em uma outra existência. 

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Éramos dois

      Éramos dois e eu pensei que assim sempre seria. Eu me lembro dele e sei que ele era real, eles me dizem que não e eu finjo que acredito neles. As agulhas ainda doem e todas as noites escuto os gritos. Os gritos sempre estiveram lá, por isso ele era importante, ele fazia os gritos pararem, eu podia segurar sua mão e sentir seu abraço, ele sorria e falava que ficaria tudo bem, e assim os gritos sumiam. Eu sei que éramos dois, eu sei, eu me lembro dele e eu o amava.

      Todos os dias o sangue escorre pelas paredes, ninguém mais vê? Existem rostos nele, rostos contorcidos de dor e desespero. Por que todos ignoram isso? Por quê? Se ele estivesse aqui ele não iria ignorar, tenho certeza, ele iria me libertar dessa camisa de força, me tiraria dessa cela, me levaria para a antiga casa. Os gritos ainda estariam lá, mas isso não importa, eu estaria com ele e não teria mais medo. Por que eles fingem que ele não existe? Por que ignoram os gritos e os rostos? Por quê? Por quê?

     Os sussurros vem de baixo da cama, mesmo quando as mulheres de branco estão do meu lado, elas ignoram ou são surdas? É um sussurro, mas elas estão em silencio e poderiam escutar, ao menos uma vez. Onde está você? Me salve por favor.

     As agulhas ainda doem, não importa onde eles a enfiem, elas doem como da primeira vez. Os rostos zombam de mim, gargalham e gemem, queria que eles parassem, mas eles nunca param, nem em meus sonhos, quando eu durmo, nem faz diferença se estou acordado ou não, é tudo real em todos os lugares, e em nenhum deles você está. Eu queria tanto ver seus olhos apenas mais uma vez.

    Estou suando, mas estou com frio, meu peito pesa e meus membros não se movem, todos os dias, quantos dias? É dia? Não me importo, nada importa, eu só quero estar com você novamente, mesmo eles dizendo que não é real.

Aqueles sonhos

Sonhos foram feitos para serem interrompidos.

Esquecidos no vazio e em um vórtice de loucura.

Abandonados na latrina de um velho pensamento.

Deixados em cacos pelos cantos quando a mente se desperta.

Sonhos são criados para serem apreciados.

Libertinos ou infantes, sobre amigos ou amantes.

Existem ontem para o amanhã, mas no presente nem sempre estão.

Eles nós traem e são traídos por sua própria intenção.

Sonhos doces e encantados cheios de amor e compaixão.

Sonhos rudes, desesperados, cheio de dor e escuridão.

Assim criados e semeados, bem cultivados ou envenenados.

Sonhos nem sempre compartilhados, sonhos nem sempre predestinados.

Vem e voltam, voltam e vem.

Buscam e largam, deixam e vão.

Sorrisos e lagrimas na terra e no ar.

Sonhos apenas e apenas sonhos.

Era uma vez…

A duvida, o sentimento, a loucura, o comportamento.

Era uma vez um menino que vivia a procurar.

Era uma vez um menino que sonhava um dia encontrar.

 

A solidão sufoca mais que ausência de ar.

Era uma vez um rapaz que cansou de se enganar.

Era uma vez um rapaz que parou de caminhar.

 

Ilusões constantes, sorrateiras e traiçoeiras.

Era uma vez um homem estancado no tempo, sem amor e sem razão.

Era uma vez um homem que se perdeu em aflição.

 

O alivio tão esperado se encontra no vazio.

Era uma vez um velho que não podia se levantar.

Era uma vez um velho que sonhava no tempo voltar.

 

Era uma vez, e não será novamente outra.

Era uma vez, e seria apenas mais uma que não seria.

A dor se desfaz, a cicatriz nem incomoda, mas a mente se recorda ate que um dia ela apaga.

Canção ao vento

Cantou mais uma nota, e essa se foi com o vento.

Seu olhar era alegre como a música que compunha.

Seu sorriso fazia o sol e a lua se invejar.

E sua canção matava a tristeza e despertava a mais bela sensação.

 

Sua voz ecoou pelos cantos mais longínquos.

E todos que ouviram se admiraram e se puseram a suspirar.

Toda felicidade vinha na música que já estava se espalhando pelo ar.

E todos que ouviram não resistiram e se puseram a dançar.

 

Continuou cantando aquela música sem letra alguma para se ler.

E mesmo assim todos que ouviam conseguiam compreender.

Fala de amor, alegria, vida e emoção.

Falava dele, falava de todos e de qualquer um com amor no coração.

O prisioneiro

Ele olhava estático, pouco podia ver além daquilo que já estava a sua frente e mesmo isso ele mal via. Sentado em sua cadeira pouco confortável, o seu corpo não estava direito, mas não havia posição na qual ele se acomodasse, e também isso não lhe importava muito, continuava estático olhando para a direção da porta, via apenas o corredor e a metade de um quadro e do quarto que estava via pouco mais que a borda da cama, o resto é apenas parede e nada mais. Não como se isso lhe importasse, ficava apenas ali parado, não falava muito mais do que alguns gemidos, não se movia muito mais do que alguns tiques de uma das mãos, seu movimento mais complexo estão nos olhos, vez ou outra piscava, às vezes até os dois olhos ao mesmo tempo, não que isso lhe fosse de alguma serventia. Seu mundo é composto disso, e apenas disso e com frequência as pessoas viam, o carregavam ou empurravam, às vezes ate o levavam para outro lugar, via coisas, sentia coisas e às vezes até tentava algo, mas não muito, não havia um porque, então deixava, simplesmente existia e ate esse momento não se importava. Nasceu assim, não era sua culpa, e é claro que ele nem mesmo compreendia exatamente isso, ele era um prisioneiro em seu próprio corpo, em seu primeiro momento de vida já estava assim e os médicos o haviam até considerado morto, sua mãe que insistiu e não quis abandona-lo, era seu filho e seria o único que teria tido, menos de um ano ele viveria, foi o que disseram e hoje tem mais de vinte e nunca chegaria saber de tudo isso.

O cheiro irritou suas narinas, era forte e sufocava seus pulmões, seus olhos começaram a lacrimejar, seu corpo suava com o calor, era intenso e foi muito rápido, as chamas espalhavam pelas paredes deslizando e dançando, subindo ate o teto se espalhando a sua volta, essa visão não duraria muito tempo, a fumaça se ocupava de preencher rapidamente todo o lugar, inclusive seu pulmão que já começava a falhar, segundos apenas ele tinha, segundos apenas para tentar entender, as chamas vindas do chão ainda eram visíveis e alcançaram as rodas de sua cadeira que começava a falhar, sentiu algumas partes do seu corpo arder intensamente, soava e ardia e seus lábios tremiam em um reflexo natural, seu peito parecia que iria explodir e os olhos irritados mal enxergavam, piscavam freneticamente expelindo lagrimas que não o iriam ajudar, a cadeira cedeu e a queda pareceu durar uma eternidade, sentiu seu crânio se chocar com o chão e um calor liquido cobriu essa parte do seu rosto, não respirava, seus olhos começavam a apagar, o ardor no corpo diminuía e a fumaça o cobriu num manto fúnebre junto às chamas queimando e desidratando sua carne, sufocando seus pulmões, retirando-lhe sua vida, que ate esse momento ele nunca havia percebido que a tinha.

O escritor e o desenhista

Um descreve a sua mente, o outro mostra o coração

Tem um que busca a compreensão querendo mostrar que vivo está

O outro é vivo como ninguém e em sua arte consegue mostrar

Aquele caminha bem despercebido, levando mundos inteiros em seu coração

Já o outro revela ao mundo, quem enxerga vê sua paixão

Os dois trilham no mesmo caminho, os dois são um e o outro também.

Os dois tem artes bem diferentes e que se mesclam com perfeição.