O prisioneiro

Ele olhava estático, pouco podia ver além daquilo que já estava a sua frente e mesmo isso ele mal via. Sentado em sua cadeira pouco confortável, o seu corpo não estava direito, mas não havia posição na qual ele se acomodasse, e também isso não lhe importava muito, continuava estático olhando para a direção da porta, via apenas o corredor e a metade de um quadro e do quarto que estava via pouco mais que a borda da cama, o resto é apenas parede e nada mais. Não como se isso lhe importasse, ficava apenas ali parado, não falava muito mais do que alguns gemidos, não se movia muito mais do que alguns tiques de uma das mãos, seu movimento mais complexo estão nos olhos, vez ou outra piscava, às vezes até os dois olhos ao mesmo tempo, não que isso lhe fosse de alguma serventia. Seu mundo é composto disso, e apenas disso e com frequência as pessoas viam, o carregavam ou empurravam, às vezes ate o levavam para outro lugar, via coisas, sentia coisas e às vezes até tentava algo, mas não muito, não havia um porque, então deixava, simplesmente existia e ate esse momento não se importava. Nasceu assim, não era sua culpa, e é claro que ele nem mesmo compreendia exatamente isso, ele era um prisioneiro em seu próprio corpo, em seu primeiro momento de vida já estava assim e os médicos o haviam até considerado morto, sua mãe que insistiu e não quis abandona-lo, era seu filho e seria o único que teria tido, menos de um ano ele viveria, foi o que disseram e hoje tem mais de vinte e nunca chegaria saber de tudo isso.

O cheiro irritou suas narinas, era forte e sufocava seus pulmões, seus olhos começaram a lacrimejar, seu corpo suava com o calor, era intenso e foi muito rápido, as chamas espalhavam pelas paredes deslizando e dançando, subindo ate o teto se espalhando a sua volta, essa visão não duraria muito tempo, a fumaça se ocupava de preencher rapidamente todo o lugar, inclusive seu pulmão que já começava a falhar, segundos apenas ele tinha, segundos apenas para tentar entender, as chamas vindas do chão ainda eram visíveis e alcançaram as rodas de sua cadeira que começava a falhar, sentiu algumas partes do seu corpo arder intensamente, soava e ardia e seus lábios tremiam em um reflexo natural, seu peito parecia que iria explodir e os olhos irritados mal enxergavam, piscavam freneticamente expelindo lagrimas que não o iriam ajudar, a cadeira cedeu e a queda pareceu durar uma eternidade, sentiu seu crânio se chocar com o chão e um calor liquido cobriu essa parte do seu rosto, não respirava, seus olhos começavam a apagar, o ardor no corpo diminuía e a fumaça o cobriu num manto fúnebre junto às chamas queimando e desidratando sua carne, sufocando seus pulmões, retirando-lhe sua vida, que ate esse momento ele nunca havia percebido que a tinha.

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