Um dia de trabalho

Sargento Thales gostava de chegar cedo no batalhão, subia ao alojamento para deixar sua mochila e arrumar seus equipamentos, já vinha fardado de casa e estava sempre alinhado e impecável, gostava muito disso. Acompanhava os soldados a receberem os materiais e as viaturas e estava sempre atento a sua equipe, acreditava que o corpo de bombeiros tinha esse nome porque deve trabalhar unido, realmente como um corpo trabalha. Hoje estava sendo como qualquer outro dia, apenas um dia de trabalho comum, sua equipe de hoje estava composta por dois soldados, Hugo e Estevão que eram bons soldados jovens e bem empolgados, gostavam de trabalhar e o motorista é um Cabo chamado Hector, os dois já haviam sido grandes amigos no passado, mas problemas sempre acontecem e amizades acabam. Hoje estariam na primeira guarnição de salvamento, ou seja, o que acontecesse seria deles e eles estariam prontos para lidar com qualquer tipo de ocorrência, seja ela um incêndio, um acidentes com veículos, suicidas, desabamento ou até mesmo uma enchente, para seu infortúnio e o de sua guarnição, jamais haviam sido treinados para o que viria acontecer.

O dia foi tranquilo no período matinal e diurno, para um dia de domingo isso era bem comum na verdade, houve dois capotamentos na marginal e juntos fizeram um ótimo trabalho de desencarceramento, mesmo tendo vitimas graves não ouve óbito no local, com a ajuda da equipe do resgate todos as vitimas foram enviadas rapidamente para um hospital e o dia parecia que já estava ganho, depois disso era apenas voltar para o quartel e aguardar serem chamados novamente, afinal, mesmo sendo um dia tranquilo, em vinte quatro horas de trabalho em um minuto tudo pode vir acontecer, todos eles sabiam disso, todos estavam preparados para isso. Enquanto descansavam no alojamento Hugo ouvia seu rádio, obviamente o alojamento dos sargentos não era junto ao dos cabos e soldados, mas Thales fazia questão de ficar ali com sua equipe pelo menos enquanto nenhum deles fossem realmente dormir. Ele mesmo não dormia nas suas vinte quatro horas de trabalho, os vários anos de serviço lhe fizeram acostumar com isso.

– tá acontecendo alguma confusão no centro. – Hugo comentou tranquilamente. – algum protesto aposto.

– então deixa de ser egoísta e tira esse fone, todo mundo quer ouvir. – Hector parecia mal humorado hoje, não era de seu feitio, mas Thales preferiu não dizer nada.

Na radio a noticia parecia preocupante, aparentemente estava acontecendo alguma rebelião, mas ninguém sabia dizer direito, tudo que sabiam era que a policia estava perdendo o controle da multidão. Veio aquele arrepio na espinha, Thales era supersticioso, muitos brincavam com ele por conta disso, mas com o tempo trabalhando do seu lado todos já haviam aprendido a respeitar suas manias, alguma coisa estava errada, algo ruim estava para acontecer, ele sabia disso, podia sentir, Hector percebeu isso, mesmo sem Thales falar nada ele conhecia aquele olhar e teve medo quando todas as luzes acenderam, era o primeiro sinal, em seguida veio o barulho da cigarra, uma vez para o socorro, mais duas vezes para o salvamento, mais três vezes para o resgate e mais quatro para o tenente encarregado do dia, era todo mundo, todas as viaturas. Dois segundos e estavam todos de pé, cinco segundos e estavam correndo pelo corredor, um a um escorregando pelo cano de ferro, menos de um minuto e as quatro viaturas gritavam com suas sirenes para a mesma direção, os dois soldados estavam empolgados, era a primeira ocorrência de grande vulto que eles pegavam, Thales rezava silencioso e Hector tentava se concentrar na direção, sua mente pensava em sua mulher e filhos.

Não demorou muito para chegar no local, estava realmente um inferno, outras equipes de bombeiro de outro batalhão havia chegado e já estavam fazendo algumas funções, havia focos de incêndio em toda parte, em prédios, carros, lixeiras e até em pessoas, a policia tentava organizar uma multidão em pânico enquanto outro grupo tentava deter uma outra multidão furiosa, e havia tiros, tiros que só eram abafados pelo barulho de gritos e assim a empolgação nos olhos dos soldados foi substituída pelo medo, Hector também tremia, sua mão soava, ele não sabia o que fazer, Thales também não sabia o que fazer, mas sabia que tinha que fazer algo.

– VAMOS – ele gritou, e os soldados olharam para ele como se não tivessem entendido. –PESSOAS ESTÃO MORRENDO, VAMOS.

Ele saltou da viatura e o movimento fez os soldados acordarem, logo estavam os três do lado de fora correndo em direção ao fogo, correndo em direção aos tiros, correndo para a direção contraria da qual todos aquelas pessoas corriam, estavam correndo em direção à morte, sentiam medo, queriam estar em outro lugar, um lugar seguro e com as pessoas que eles amam, mas acima de tudo isso eles queriam salvar vidas. Outros de seus companheiros se juntaram a eles, até mesmo o tenente estava lá, era um tenente novo, recém-formado, isso não importava, nenhum deles tinha o treinamento para lidar com aquilo, eles eram movidos apenas pela mesma vontade e estavam unidos pelo espirito de corpo. Os primeiros que chegaram havia montado um posto de comando, lá estavam outros bombeiros, alguns policiais e a mídia, havia outro oficial à frente e ele tentava coordenar a situação, o comando era o de conter a multidão e ajudar os feridos, isso não estava acontecendo, o próprio inferno caminhavam na direção deles na forma de diversas pessoas feridas e enfurecidas, uma verdadeira horda de mortos saída dos filmes de terror que Thales jamais havia gostado, eles atacavam e mordiam outras pessoas e as que caiam e não eram completamente devoradas se juntava a eles como mais uma marionete insaciável provinda dos pesadelos mais sombrios. O pânico tomou conta de tudo, a ordem se tornou recuar, oque foi tarde de mais para a maioria dos que estavam ali, os mortos já os haviam cercado. Thales sacou sua arma, sabia que era proibido portar uma no serviço, mas a experiência lhe dizia o contrario, hesitou dispará-la contra pessoas, elas pareciam doentes e mortas, mas de alguma forma também pareciam vivas, o grito de Hugo o fez mudar de ideia, o rapaz havia sido pego por cinco daqueles seres e em menos de um segundo ele viu o soldado ser feito em pedaços, então disparou, era tarde de mais para o soldado, mas ainda não era tarde de mais para os outros que estavam vivos de verdade, e esse pensamento era compartilhado pelo outro soldado, Estevão havia seguido em frente, em direção ao caos e Thales quase o perdeu de vista, o soldado parecia que havia enlouquecido e talvez realmente tivesse, Thales viu seu soldado desviar feito um esportista das criaturas, o viu subir num carro com um único salto e num segundo salto subir numa árvore que estava cercada de criaturas, na árvore estavam duas crianças, então Thales correu nessa direção. Não era tão ágil feito o soldado, não tinha a idade, mas tinha uma arma e a usou para abri caminho, não foi tão difícil chegar até ali, sair seria um problema que ele apenas pensou quando conseguiu finalmente escalar a árvore e encontrar o soldado tentando acalmar as duas crianças, eles estavam cercados e Thales estava praticamente sem munição.

Thales estava muito assustado, nunca imaginou nada como aquilo em toda sua vida, e ali estava Estevão, um soldado com menos de um ano de profissão, que nunca combateu um grande incêndio, nunca entrou em um prédio que havia desabado, nunca mergulhou para resgatar um corpo em um lago e esse soldado estava tranquilo, ou parecia estar, e tentava acalmar aquelas duas crianças. Thales respirou fundo e pegou seu telefone, ligou para um numero que há anos não ligava e a pessoa atendeu.

– Alo? Hector? Preciso de você.

– Onde vocês estão?

– Perto da rua principal, naquela árvore que o gato quase rasgou seu olho.

– aguenta ai.

Três minutos que pareciam uma eternidade até ouvir o barulho da sirene, Hector foi o melhor motorista que Thales já conheceu e de longe o mais imprudente, subia no passeio, mesmo com a sirene ligada buzinava e gritava pela janela, dirigia na contramão duas vezes a velocidade da via e pela primeira vez na vida Thales sentiu gratidão por ele ser assim, a viatura abriu caminho por onde podia e Hector mostrou uma habilidade sobrenatural para achar espaço onde não se podia ver, por duas vezes parecia que o caminhão iria tombar e quase que por mágica ele se equilibrava e ele se aproximava, parou quase em baixo da árvore, o máximo que podia ter chegado perto e sua voz saiu chiando pelo alto-falante da viatura.

– PULEM.

Thales olhou para Estevão, o jovem segurava as duas crianças em um galho mais alto, teria que ser ele a saltar primeiro, não tinha tempo para pensar, as criaturas já estavam se amontoando em volta da viatura, olhou em volta e respirou fundo, a cidade esta um caos, gritos, sague, pedaços de pessoas por todos os lados, tinha que ignorar tudo isso se quisesse sobreviver, então saltou. Caiu com muita força em cima do caminhão, muita da sua antiga destreza havia ficado com a idade jovem e isso lhe causou uma dor muito forte nas costas e nas pernas, principalmente na esquerda que havia colidido com a escada que ficava deitada em cima da viatura; não havia tempo para reclamar da dor, olhou para Estevão que já tinha uma das crianças no colo, apenas com os olhos que eles se comunicavam, os de Estevão diziam “segure” e os de Thales responderam “não erre”, foi como se tivessem ensaiado isso durante toda a vida, Estevão lançou a criança por entre os galhos com uma precisão maravilhosa, o garoto nem mesmo teve uma reação antes de ser agarrado por Thales que já o soltava por entre as pernas e se preparava para pegar a menina que veio do mesmo modo, em um piscar de olhos Estevão estava com eles, saltou da árvore como um gato, Thales invejou a juventude do rapaz e teve orgulho daquele ser um de seus soldados. Duas batidas no teto da viatura e eles estavam em movimento, mas ainda muito longe de estarem a salvo. Thales agora olhava para as ruas, ainda havia muitos sobreviventes, muitas pessoas gritavam por ajuda, os incêndios aumentaram e parecia que todos os seus companheiros bombeiros haviam fugido ou sido mortos, todas as viaturas ainda estavam lá paradas e ligadas, podia ouvir entre os gritos de dor e pânico os gritos de luta e resistência, queria ajudar, queria ajudar a todos, olhou para as duas crianças no colo do soldado, teria que salvar aqueles primeiro.

– Estevão, aqui não é seguro, vamos para a cabine. – o soldado assentiu com a cabeça e começou a engatinhar junto com as duas crianças em direção ao teto da cabine, Thales já estava indo para lá também, Hector continuava esquivando e desviando, mas as coisas estavam ficando difíceis, muitos dos mortos estavam amontoados nas laterais do caminhão e era maior o numero que aparecia na frente, passava por cima de um ou outro, mas não podia dar o luxo de realmente atropelar algum, o choque da batida poderia fazer perder o controle da viatura e faze-la tombar, não seria seguro fazer isso, não enquanto tivesse pessoas em cima do caminhão, foi quando a cabeça de Estevão apareceu na janela dele e fez sinal para que ele abrisse a janela do outro lado, ele abriu tentando não desviar muito a atenção do caminho, já estava difícil de mais, antes de abrir a janela completamente uma criança foi colocada ali dentro, era pequena, da idade de seus filhos, no máximo sete anos e choramingava bem baixo, sentiu um aperto no coração, em seguida uma menina, mais nova ainda do que o menino, Hector sentiu muito orgulho de Thales e de Estevão, eram sua guarnição e faziam o que tinham que fazer.

Quando Thales foi se virar para Estevão que ele viu o vulto, como ele poderia ter chegado ali? Outros já estavam subindo pela parte de trás da viatura, eram horríveis, aqueles olhos doentes, um jeito repugnante e doentio de olhar e os barulhos que faziam lhe deram arrepio, Estevão não o tinha visto ainda e a criatura lhe agarrou por trás, isso foi tudo muito rápido, os olhos assustados do soldado, o aperto no coração de Thales, sua cabeça parecia um sino, a boca da criatura vinha na direção do pescoço frágil do soldado, isso estava errado, Estevão era novo assim como Hugo, era errado eles terminarem daquele jeito, Thales já havia salvado centenas de pessoas, sua vez já havia passado, era a vez dos jovens. Com um impulso Thales se jogou na direção da criatura, sentiu sua perna latejar, com certeza havia quebrado algum osso no pulo da árvore, isso não importava, entes da criatura cravar os dentes no pescoço do soldado o antebraço de Thales chegou primeiro, a mordida foi forte, rasgou sua farda e sua carne, era impossível que uma pessoa tivesse uma mordida tão forte, mas não havia tempo para pensar nisso, a dor inundou sua cabeça e como resposta Thales sacou sua arma e deu um tiro certeiro no crânio da criatura, o sangue e os pedaços de massa cefálica cobriram o seu corpo, não era a primeira vez que ele esteve coberto desses desejos, mas era a primeira vez que foi por causa de um disparo de sua própria arma. Outras das criaturas subiram na viatura e muitas se juntaram na frente dela, Hector teria que fechar a janela se eles não fossem rápidos, olhou para Estevão que entendeu a mensagem e logo os dois se puseram a entrar na viatura, primeiro o soldado, depois o sargento.

Foi tudo muito rápido, parecia um sonho, sua cabeça ainda tocava feito um sino de igreja, na parte de trás da viatura estava Estevão e as duas crianças, elas caíram num sono automático, devia ser algum mecanismo de defesa do cérebro juvenil, algum psicólogo saberia responder, Hector se concentrava na estrada, conseguiu pegar a via principal e agora eles estavam fora de perigo, ou quase isso, ainda ouviam criaturas rastejando em cima da viatura, mas não sabiam quantas eram e nem como elas estavam. Helicópteros e carros do exercito passavam por eles, talvez a coisa toda pudesse ser controlada agora. A primeira coisa que faria era deixar as crianças no quartel, depois voltariam para ajudar, tem muita coisa para ser feita, muitas pessoas para serem salvas, mas não agora, apenas daqui a pouco, sua cabeça pesava ainda, conferiu sua arma, havia apenas mais uma munição, teria que pegar mais, colocou a arma em cima do porta-luvas, queria ter ela à vista; seu braço latejava muito, não foi um ferimento grande, mas doía como se fosse, pelo menos havia parado de sangrar. Encostou a cabeça no vidro da viatura e começou uma pequena oração que era dividida entre pensar na sua família e pensar nas pessoas que ainda estavam naquele inferno, sentia seu braço formigando e o arrepio na coluna não mentia, algo estava errado, não sabia o que era então tentou ignorar, quando descobrisse daria um jeito de resolver, o que importa era que eles estavam a salvo agora.

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Seguro de vida

Seus dedos entraram secos na boca, teria achando anti-higiênico o gosto salgado e as unhas sujas, ele nem se lembrava de qual foi a ultima vez que as havia cortado, sua mão estava violando a própria boca, mas apenas há muito tempo isso o teria incomodado. A unha do indicador raspou em um dos dentes, ele estava ficando mole como os outros três, a ponta da unha penetrou em sua gengiva e usando o polegar começou a mover o dente e puxa-lo, não doía, mas incomodava, podia sentir a raiz solta escorregando lentamente, seu corpo arrepiou quando o dente saiu completamente e o gosto metálico do sangue inundou sua boca. Observou o dente entre seu polegar e o indicador como se fosse algo valioso e intrigante, de súbito apenas perdeu o interesse e o jogou em qualquer direção enquanto cuspiu saliva e sangue no chão imundo do quarto. Seu sonho esteve tão perto que ainda podia senti-lo escorregando de seus dedos pegajosos, o único consolo que teria é o fato de nem mesmo se lembrar de o que perdeu, sabia que faltava algo apenas e tentava achar o que fosse isso naquele quarto. Sentiu um estalo na boca, os dedos voltaram novamente para dentro, mais um dente amolecido.

       Não havia sido um rapaz feliz, não poderia dizer que foi um rapaz triste tão pouco. Vivia, existia, fazia coisas que muitos faziam e até mesmo algumas coisas que poucos faziam. Tem um apartamento pequeno em um bairro industrial, longe das pessoas durante a noite e próximo a elas durante o dia, era quase como viver em um parque de diversões que é aberto todos os dias, infelizmente sem a parte da diversão. Morava sozinho, trabalhava em uma fabrica de biscoitos, um trabalho que a principio o deixou animado, mas que mostrou ser repugnante com o passar do tempo, há anos que não come biscoitos, qualquer tipo, nem mesmo importa se é salgado ou doce, biscoitos fazem ele se lembrar do quão medíocre se sente todos os dias no trabalho, não que ficar sem comer biscoitos ajude, ele tem que culpar alguém, então que a culpa seja dos biscoitos. Pelo menos o apartamento é limpo, tinha que ser, afinal ele tem que ter algum hobby, limpar a casa parecia ser um bom, seria seu esporte, seu entretenimento particular, gosta de pensar que é uma forma de vida, um dom, quem sabe algum dia seria reconhecido por isso? Talvez merecesse um prêmio, porque não? Afinal ele era bom nisso, talvez o melhor do mundo, pelo menos era a melhor coisa que sabia fazer, afinal, não sabia fazer muitas coisas diferentes.

       Um dia um homem bateu na sua porta, nunca saberia se era outro morador ou apenas um visitante no prédio, era um homem maduro, calvo pela idade e com um porte de executivo, era um homem impecavelmente limpo e parecia ser bem requintado, estava vendendo seguro de vida. Queria dispensa-lo de alguma forma, mas aquele sorriso simpático e a atenção que o homem lhe dava era uma coisa surpreendente, era a primeira vez em toda sua vida que alguém lhe dava esse tipo de simpatia, uma coisa dolorosa de se pensar ele achava, foi uma criança criada por um pai bêbado e ausente e uma mãe tão ausente que havia fugido do marido apenas dois dias após trazer o bebê para casa. Quando deu por si o homem já estava sentado no seu sofá e tomando um café de segunda categoria.

       Ele vendia seguro de vida e foi isso que ele disse quando falou o que estava vendendo, não era algo interessante de se ter, para que serviria? Não tinha parentes e nem mesmo amigos, ninguém para ser beneficiário ou que se importasse com sua vida, ele próprio não se importava muito, viver era bom, não viver não parecia ser muito diferente, então não entendia quais seriam os benefícios de ter 60% de desconto numa farmácia que ficava do outro lado do centro industrial, ou ter descontos em hotéis que ele nunca irá repousar em países que ele nunca irá visitar, para ter um seguro de vida ele precisava primeiro ter uma vida, uma vida social ao menos. Quando disse isso ao homem se surpreendeu com a satisfação do mesmo, era como se ele estivesse esperando essa resposta. O homem retirou diversos documentos de sua pasta, haviam fotos, gráficos e cartas de recomendações, agora ele não estava vendendo seguro de vida, estava vendendo exatamente uma vida, haviam kits completos que garantiam dinheiro, fama, mulheres, e sonhos, todos os sonhos que alguém pudesse formular, era quase cômico, e seria completamente cômico se o homem não falasse com a mesma verossimilhança de que falava dos seguros de vida, a convicção do vendedor era tamanha que seria impossível para a pequena e atrofiada mente daquele simples homem desacreditar, a persuasão avia chegado ao ponto em que se estivessem na Sibéria e o vendedor estivesse vendendo gelo, ele teria vendido todo estoque, encomendado mais dois e recebido um bônus apenas pela felicidade do comprador. O trabalhador da fabrica de biscoitos teria tido muita sorte se o caso fosse esse.

     Agora estava sentado no sofá tentando entender o que havia acontecido. Sentia-se satisfeito e ao mesmo tempo sentia-se um pouco vazio. Havia assinado alguns papeis e era lógico que ele pegou o que havia de melhor para ser oferecido, muito dinheiro, muitas mulheres, muita fama, garantias de cumprimento do contrato e de acordo com o vendedor tudo em um prazo mínimo, em pouco tempo teria todos os seus sonhos realizados durante dez anos de sua vida e após esse tempo ele teria que pagar pelo serviço prestado, como não era um homem religioso, muito menos espiritualista, penhorar a alma não parecia ser algo muito problemático, o que ele faria com a própria alma afinal?

     No dia seguinte ouve o acidente, havia caído em um caldeirão de obra-prima da fabrica, teve o corpo quase todo deformado, o que seria a menor das consequências. Graças à quantidade de substancias toxicas e as diversas lesões na cabeça a sua mente havia sofrido severos danos que foram sendo desenvolvidos como “problemas psiquiátricos irreversíveis”, a indenização foi monstruosa, da noite para o dia sua conta no banco estava transbordando de dinheiro que foi muito bem utilizado para pagar os dez anos de tratamento médico que necessitava, ficou muito famoso na internet, a principio como vitima, em seguida como homem de sorte e por fim como chacota, “o milionário demente da fabrica de biscoito”. Mas havia as mulheres, enfermeiras que vinham todos os dias para limpar sua bunda quando necessário, o que era muito constante.

    Dez anos se passaram sua conta simplesmente secou, mas ninguém se importou. O banco simplesmente engoliu o que pode e fechou a conta como se nunca houvesse existido, as enfermeiras não o visitavam há semanas, então na casa já estava tudo sujo de dejetos humanos, principalmente ele próprio, a internet havia sido a primeira ao abandonar, não que ele estivesse ciente disso é claro. A sensação de vazio continuava como esteve presente no primeiro dia, então ele continuava procurando enquanto rastejava pela casa pelo o que havia perdido. Em algum lugar, há vários quarteirões dali um homem calvo com uma mala nas mãos caminhava tranquilamente e sorria, estava indo quitar uma divida.

Ilusões

Ilusão.

Um mundo de ilusões.

Todas as ilusões que nos cercam.

Ilusões que nos conduzem.

Ilusões que não existem.

Ilusões como aquela daquele único beijo que nunca aconteceu em meus sonhos.

Uma muralha de ilusões dentro da mente, que confortam o corpo, que transforma a alma, conduz o coração para o inexistente vazio.

Uma ilusão doce e amarga, cruel e bondosa que se certifica de manter viva a esperança.

Uma ilusão que não te deixa.

Uma ilusão que monta e constrói, desmonta e te destrói.

Artificial.

Ilusões que te fazem viver e sorrir, que te fazem levantar e sonhar e se desfazem para que você cair e chorar até murchar.

Uma ilusão desforme e sedenta em existir, te mantem e te consome, se alimenta de você e alimenta o seu vazio.

Agradecida e generosa, uma ilusão que não vai deixar nada restar.