Seguro de vida

Seus dedos entraram secos na boca, teria achando anti-higiênico o gosto salgado e as unhas sujas, ele nem se lembrava de qual foi a ultima vez que as havia cortado, sua mão estava violando a própria boca, mas apenas há muito tempo isso o teria incomodado. A unha do indicador raspou em um dos dentes, ele estava ficando mole como os outros três, a ponta da unha penetrou em sua gengiva e usando o polegar começou a mover o dente e puxa-lo, não doía, mas incomodava, podia sentir a raiz solta escorregando lentamente, seu corpo arrepiou quando o dente saiu completamente e o gosto metálico do sangue inundou sua boca. Observou o dente entre seu polegar e o indicador como se fosse algo valioso e intrigante, de súbito apenas perdeu o interesse e o jogou em qualquer direção enquanto cuspiu saliva e sangue no chão imundo do quarto. Seu sonho esteve tão perto que ainda podia senti-lo escorregando de seus dedos pegajosos, o único consolo que teria é o fato de nem mesmo se lembrar de o que perdeu, sabia que faltava algo apenas e tentava achar o que fosse isso naquele quarto. Sentiu um estalo na boca, os dedos voltaram novamente para dentro, mais um dente amolecido.

       Não havia sido um rapaz feliz, não poderia dizer que foi um rapaz triste tão pouco. Vivia, existia, fazia coisas que muitos faziam e até mesmo algumas coisas que poucos faziam. Tem um apartamento pequeno em um bairro industrial, longe das pessoas durante a noite e próximo a elas durante o dia, era quase como viver em um parque de diversões que é aberto todos os dias, infelizmente sem a parte da diversão. Morava sozinho, trabalhava em uma fabrica de biscoitos, um trabalho que a principio o deixou animado, mas que mostrou ser repugnante com o passar do tempo, há anos que não come biscoitos, qualquer tipo, nem mesmo importa se é salgado ou doce, biscoitos fazem ele se lembrar do quão medíocre se sente todos os dias no trabalho, não que ficar sem comer biscoitos ajude, ele tem que culpar alguém, então que a culpa seja dos biscoitos. Pelo menos o apartamento é limpo, tinha que ser, afinal ele tem que ter algum hobby, limpar a casa parecia ser um bom, seria seu esporte, seu entretenimento particular, gosta de pensar que é uma forma de vida, um dom, quem sabe algum dia seria reconhecido por isso? Talvez merecesse um prêmio, porque não? Afinal ele era bom nisso, talvez o melhor do mundo, pelo menos era a melhor coisa que sabia fazer, afinal, não sabia fazer muitas coisas diferentes.

       Um dia um homem bateu na sua porta, nunca saberia se era outro morador ou apenas um visitante no prédio, era um homem maduro, calvo pela idade e com um porte de executivo, era um homem impecavelmente limpo e parecia ser bem requintado, estava vendendo seguro de vida. Queria dispensa-lo de alguma forma, mas aquele sorriso simpático e a atenção que o homem lhe dava era uma coisa surpreendente, era a primeira vez em toda sua vida que alguém lhe dava esse tipo de simpatia, uma coisa dolorosa de se pensar ele achava, foi uma criança criada por um pai bêbado e ausente e uma mãe tão ausente que havia fugido do marido apenas dois dias após trazer o bebê para casa. Quando deu por si o homem já estava sentado no seu sofá e tomando um café de segunda categoria.

       Ele vendia seguro de vida e foi isso que ele disse quando falou o que estava vendendo, não era algo interessante de se ter, para que serviria? Não tinha parentes e nem mesmo amigos, ninguém para ser beneficiário ou que se importasse com sua vida, ele próprio não se importava muito, viver era bom, não viver não parecia ser muito diferente, então não entendia quais seriam os benefícios de ter 60% de desconto numa farmácia que ficava do outro lado do centro industrial, ou ter descontos em hotéis que ele nunca irá repousar em países que ele nunca irá visitar, para ter um seguro de vida ele precisava primeiro ter uma vida, uma vida social ao menos. Quando disse isso ao homem se surpreendeu com a satisfação do mesmo, era como se ele estivesse esperando essa resposta. O homem retirou diversos documentos de sua pasta, haviam fotos, gráficos e cartas de recomendações, agora ele não estava vendendo seguro de vida, estava vendendo exatamente uma vida, haviam kits completos que garantiam dinheiro, fama, mulheres, e sonhos, todos os sonhos que alguém pudesse formular, era quase cômico, e seria completamente cômico se o homem não falasse com a mesma verossimilhança de que falava dos seguros de vida, a convicção do vendedor era tamanha que seria impossível para a pequena e atrofiada mente daquele simples homem desacreditar, a persuasão avia chegado ao ponto em que se estivessem na Sibéria e o vendedor estivesse vendendo gelo, ele teria vendido todo estoque, encomendado mais dois e recebido um bônus apenas pela felicidade do comprador. O trabalhador da fabrica de biscoitos teria tido muita sorte se o caso fosse esse.

     Agora estava sentado no sofá tentando entender o que havia acontecido. Sentia-se satisfeito e ao mesmo tempo sentia-se um pouco vazio. Havia assinado alguns papeis e era lógico que ele pegou o que havia de melhor para ser oferecido, muito dinheiro, muitas mulheres, muita fama, garantias de cumprimento do contrato e de acordo com o vendedor tudo em um prazo mínimo, em pouco tempo teria todos os seus sonhos realizados durante dez anos de sua vida e após esse tempo ele teria que pagar pelo serviço prestado, como não era um homem religioso, muito menos espiritualista, penhorar a alma não parecia ser algo muito problemático, o que ele faria com a própria alma afinal?

     No dia seguinte ouve o acidente, havia caído em um caldeirão de obra-prima da fabrica, teve o corpo quase todo deformado, o que seria a menor das consequências. Graças à quantidade de substancias toxicas e as diversas lesões na cabeça a sua mente havia sofrido severos danos que foram sendo desenvolvidos como “problemas psiquiátricos irreversíveis”, a indenização foi monstruosa, da noite para o dia sua conta no banco estava transbordando de dinheiro que foi muito bem utilizado para pagar os dez anos de tratamento médico que necessitava, ficou muito famoso na internet, a principio como vitima, em seguida como homem de sorte e por fim como chacota, “o milionário demente da fabrica de biscoito”. Mas havia as mulheres, enfermeiras que vinham todos os dias para limpar sua bunda quando necessário, o que era muito constante.

    Dez anos se passaram sua conta simplesmente secou, mas ninguém se importou. O banco simplesmente engoliu o que pode e fechou a conta como se nunca houvesse existido, as enfermeiras não o visitavam há semanas, então na casa já estava tudo sujo de dejetos humanos, principalmente ele próprio, a internet havia sido a primeira ao abandonar, não que ele estivesse ciente disso é claro. A sensação de vazio continuava como esteve presente no primeiro dia, então ele continuava procurando enquanto rastejava pela casa pelo o que havia perdido. Em algum lugar, há vários quarteirões dali um homem calvo com uma mala nas mãos caminhava tranquilamente e sorria, estava indo quitar uma divida.

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One thought on “Seguro de vida

  1. Outro conto lindo, que me fez pensar bastante. Porque é bem que as coisas são, e se a esmola é demais, o santo desconfia. Ou ao menos deveria desconfiar. Genial, dan. Muito bom mesmo. Parabéns!

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