Primeira missão (fanfic Aliens: Colonial Marines)

     “Nada no mundo poderia ter me preparado para isso, oh Deus, eles não ensinam isso no treinamento básico, nem em nenhum outro, não existe treinamento para sobreviver no inferno. Engraçado como quando estamos perto do fim, se consegue ficar tranquila.”

 

      “No espaço ninguém escutará você gritar”, essa é sempre a primeira coisa que eles nos falam de manhã, não é exatamente uma verdade graças às comunicações que podem ser interceptadas por qualquer nave que tenha o equipamento básico de comunicação em boas condições. Todos os dias se pode detectar um pedido de S.O.S, normalmente são cargueiros que foram vitimas de uma péssima ou irregular manutenção, outras vezes são cruzadores que sofreram danos durante exploração ou são pedidos de apoio em alguma colônia em algum planetoide frio e distante, raramente é um sinal desconhecido de alguma nave não identificada, hoje é um dia desses.

       A nave não tem nenhum registro, pela aparência é uma das grandes industriais, com seus equipamentos para escavação e mineração, mas sua origem é obviamente alienígena, em nenhum manual de reconhecimento atualizado pode-se encontrar uma nave desse formato, é quase como se fosse um grande ovo cinza, sua base é a única parte que quebra a simetria, a única parte plana na nave, provavelmente é onde fica o trem de pouso e a escotilha, as milhares de janelas são espelhadas e o sinal de S.O.S vem sendo transmitido a cada trinta e nove minutos e doze segundos.

      Nossa nave é um cargueiro adaptado para treinamento, sendo assim, dos trinte e três tripulantes dessa banheira, apenas três são oficiais superiores, o resto de nós somos apenas cadetes em treinamento. De acordo com o novo cronograma, ficaríamos a deriva no espaço por cerca de cinco meses fazendo o treinamento de adaptação espacial e sobrevivência para depois retornar a base, por isso que nossa nave não possui equipamento de salvamento e resgate básico e não tem nada mais avançado do que um pequeno modulo de suporte de vida básico para no máximo dez sobreviventes, resumindo, não temos condição nenhuma de fazer uma intervenção numa nave desse porte, ainda mais sendo uma nave possivelmente alienígena, não que isso importasse, afinal, de acordo com o regulamento oficial, não podemos deixar de investigar qualquer sinal de inteligência e após ser reconhecido como um pedido de socorro é contra o regulamento omitir ajuda, sendo que com o descumprimento a consequência seria uma punição gravíssima e até mesmo a exclusão. O segundo ponto é que já fazem quatro meses que estamos presos nessa banheira, metade dos cadetes aqui dariam um dedo para sair lá fora, a outra metade daria dois, o único problema e que somos apenas cadetes e não Marines.

 

     Fomos divididos em quatro grupos, três irão fazer a abordagem da nave e o quarto grupo ficará na nossa banheira para suporte, azar o deles, eles são o grupo dos reprovados e dos que tiveram punições por indisciplina. Enquanto revisávamos os equipamentos e recebíamos as ultimas instruções dava para sentir o desespero deles por terem que ficar enclausurados enquanto os outros sairiam, não os culpo por isso, eu fiaria louca se eu tivesse que ficar, sorte a minha ser uma cadete aplicada.

     A equipe Alpha ficou com as armas, são as mesmas que usamos para o treinamento básico de tiro a curta distancia, a pistola de 9mm M4A3, alcança aproximadamente 1500 metros, mas sua potencia máxima está limitada aos 50 metros antes de perder a total eficácia, semiautomática, baixa precisão, excelente poder de fogo, doze projetes por cartucho e tempo de recarga médio de 1.5 segundos, meu recorde é 0.9 segundos e é por isso que sou a segunda no comando da equipe Alpha, junto ao Capitão Carl, eu e mais sete companheiros que se forma a nossa equipe, também é a com maior numero de membros, depois vem a equipe Bravo, comandada pela Tenente Junny, essa é a equipe de resgate, composta no total por oito membros, sendo que sete deles não tem nada além do treinamento básico de primeiros socorros, não quero imaginar se encontrarmos vida alienígena necessitando de atendimentos pré-hospitalares e por fim a equipe Charles, comandada pelo Tenente Torres e mais sete cadentes serão os especialistas técnicos, realmente não sei o que eles poderiam tentar fazer em uma nave alienígena, minha equipe é a única com um proposito real, se for perigoso, eliminaremos, simples desse jeito. A equipe Delta são os azarados, cinco cadetes com as piores notas e três que receberam punições durante o curso, tenho pena deles.

      Nossa nave acoplou com facilidade, foi uma surpresa para todos quando as escotilhas se conectaram pelo modo automático, talvez não seja uma nave alienígena no fim das contas, nossa equipe entra primeiro sendo seguida pelas outras duas, existe apenas escuridão, o equipamento de respiração indica ar respirável, mas não vamos arriscar, então começamos pelos procedimentos de abordagem em terreno desconhecido, conectar lanternas nas armas, armas em punho, formação para abordagem em O, observar cada canto, ficar atento a cada movimento, meu coração está acelerado, minha primeira missão de campo, não sei se estou preparada, mas quero acreditar que sim.

       Muito escuro, mesmo com todas as lanternas. Realmente é muito desconfortável a situação, as paredes parecem húmidas e o silencio é tanto que podemos ouvir a respiração dos membros das outras equipes, todos tentam também andar em silencio, mas cada passo que foi um pouco mais forte é como um estrondo, não parece existir vida nesse lugar há décadas, eu diria que os fantasmas daqui viraram fantasmas. Andamos por quase quarenta minutos e encontramos o primeiro obstáculo, uma bifurcação, não existem placas ou nada que informasse o que estivesse no caminho, os três oficiais superiores discutiram por muito tempo para qual lado deveríamos seguir, a discursão durou mais tempo do que deveria, o Tenente Torres insistia que deveríamos dividir cada equipe em duas e abordar os dois lados, a Tenente Junny insistiu que era uma ideia estupida, por fim o capitão decidiu apoiar a Tenente Junny por ser um plano mais viável e seguro, é isso que ele disse, todos sabem que é na cama que eles irão discutir mais tarde se foi ou não uma boa ideia. Então seguimos pela esquerda.

        Continuamos escolhendo caminhos que pareciam ser mais importantes, estávamos procurando a cabine principal e como a energia não estava funcionando tivemos que brincar de subir escadas, muitas delas, tudo estava durando uma eternidade, o equipamento era pesado e desconfortável, já estávamos cansados, não estava sendo como nos treinamentos, os treinos eram dinâmicos e divertidos e depois de horas subindo escadas, vasculhando corredores vazios e conferindo equipamento e pessoal a cada trinta minutos que veio a surpresa, o cadete Altir da equipe Bravo havia desaparecido. Havíamos conferido o pessoal e começamos a subir para o trigésimo sétimo andar, foram quinze minutos para subir, e dez minutos para conferir mais um corredor vazio, já que descobrimos no primeiro andar que subimos que era impossível arrombar as portas extremamente reforçadas com nosso equipamento inexistente para o oficio, voltando às escadas e preparando para o trigésimo oitavo que se deu falta do cadete, nenhum maldito companheiro percebeu sua falta, nenhum maldito sentiu falta do colega e agora não sabemos se ele está perdido ou tirando sarro com nossa cara, por fim perdemos mais tempo em uma discursão acalorada dos nossos tenentes, e finalmente o plano de Torres foi aceito, o grupo se dividiu em dois, Três membros do grupo Alfa, Bravo e Charles junto ao Capitão iriam voltar e procurar o imbecil na equipe Bravo que havia sumido, Tenente Junny comanda agora a equipe Alfa e Beta, então seguimos por mais escadas, nunca pensei que iria sentir saudade da banheira.

        Quadragésimo andar e mais dois desaparecidos, dessa vez da equipe Charles, estamos todos em alerta agora, esse andar é diferente dos outros, ele é como um grande hall, não tem mais escadas, mas a única porta adiante parece ser um elevador, não importa, não tem energia, temos apenas a escuridão de dentro da nave e a escuridão do lado de fora do espaço, não é nada reconfortante ver as estrelas agora, de uma das milhares de janelas posso ver nossa banheira lá fora, pequena se comparada com esse ovo espacial que estamos. A Tenente Junny deu ordem para o Tenente Torres pegar uma pequena equipe, levou mais dois da equipe Alfa e mais dois da equipe charles, os cinco desceram as escadas, ouvimos seus passos por vinte minutos e depois silencio, quanto tempo estamos aqui? Parece que faz dias, então sentamos e esperamos cansados e famintos, equipe Charles não está mais com a gente, Bravo está com Três cadetes, nós da Alfa somos dois apenas e a Tenente Junny está mais tensa do que nunca, parece que a comunicação com o primeiro grupo e com nossa banheira está com problemas.

       Descobri da pior maneira que realmente as paredes estavam húmidas, havia uma gosma translucida em algumas partes, não era muita, mas era nojenta, não sei como não a percebemos antes, talvez por conta da tensão, não sei, deve ser algum efeito do ambiente, biologia não é minha área. Olho para meus cinco companheiros, isso não está mais divertido, nem um pouco, a Tenente não para de andar em círculos, ela está enlouquecendo e nos enlouquecendo junto, a fome e o cansaço não ajuda, não apenas eu, mas acredito que todos meus colegas estávamos entrando em um tipo de transe que foi interrompido pelo grito sufocado da Tenente, parecia um sonho, ou melhor, um pesadelo, aquele gancho negro havia saído do teto e agora a estava empalando, foi tudo muito rápido, antes que pudéssemos reagir a criatura surgiu, negra como o espaço, asquerosa, surreal, estava no teto como um inseto e seu rabo era o gancho que empacava a tenente pelo peito. Foi puro reflexo, arma sempre empunhada, mirar e atirar, cinco tiros perfeitos, o barulho do disparo foi ensurdecedor, mas não maior do que o grito dos meus colegas, meus tiros aceitaram a criatura em cheio e dela saiu seu sangue amarelado, acido puro, não havia como eu saber, meus amigos gritavam de dor, dois deles foram atingidos pelo liquido, eu os havia matado, não era minha culpa, a criatura também gritou, mas continuava viva e antes que eu pudesse dar o sexto disparo a tenente foi jogada contra mim. Apenas escuridão e dor, a principio eu ouvi tiros, depois gritos tanto dos meus colegas quanto do monstro e sem seguida silencio, havia um cheiro azedo no ar, o corpo pesado e morto da tenente me pressionava contra o chão, com certeza fraturei algumas costelas. Levei algum tempo para me concentrar, demorei até mesmo muito tempo para perceber que estava sem minha mascara, não importava mais, se o ar era respirável ou não a essa altura eu já deveria ter certeza, só havia eu e a tenente na sala e um terrível buraco no chão, olho para baixo e vejo apenas escuridão, a luz da lanterna não é boa o suficiente. Me resta apenas uma opção, voltar para minha nave.

       Descer as escadas foi muito mais rápido do que subir, principalmente quando se escuta coisas rastejando nos andares de cima, não sei se são reais ou se é o pânico tomando conta do meu corpo e mente, não importa, não vou ficar aqui para descobrir. Minha cabeça já está a mil, tudo parece surreal novamente, nem consigo pensar direito nos meus amigos, não sei se estão vivos ou mortos, não tenho tempo para consciência, tenho que fugir. Primeiro andar novamente parece que faz semanas dês de que discutimos nessa bifurcação, o caminho para a nave não está longe, corro cada vez mais rápido, ou o mais rápido que aguento, meu corpo já está totalmente dolorido, respirar está cada vez mais difícil, mas ao ver a escotilha da nave aberta o folego retorna, passar pelo tubo e entrar na banheira novamente foi a melhor sensação de todas, mesmo assim eu podia sentir que havia algo de errado, o silencio também estava ali, a escotilha estava aberta, não me lembro de termos fechado ela, um olhar rápido no monitor de entrada e reconheço o sinal de pedido de socorro, graças a Deus, o grupo Delta deve ter chamado suporte, posso respirar tranquila. Algo me agarra pelos braços, sinto uma pressão forte na nuca, sinto calor e frio, fico tonta, mas não caio no chão, tudo fica escuro.

     

       Estou presa, posso ouvir a respiração de outras pessoas, não sei quantas, meu corpo está húmido e o cheiro é acido, não consigo me mover de forma alguma, minha garganta arde, gosto azedo na boca, tento chamar meus companheiros, como resposta eu escuto apenas gemidos e barulhos desconhecidos, a escuridão é total, não consigo nem imaginar o terror que deve estar diante de mim, meu peito dói muito, está difícil respirar. Nada no mundo poderia ter me preparado para isso, oh Deus, eles não ensinam isso no treinamento básico, nem em nenhum outro, não existe treinamento para sobreviver no inferno. Engraçado como quando estamos perto do fim, se consegue ficar tranquila.

“cada um de nós é o que é, e isso não vai mudar, podemos fingir ser outra pessoa e até mesmo ser outra pessoa para cada lugar diferente que podemos estar, mas jamais vamos escapar do que somos para nós mesmos, então não me pergunte o que eu sou, descubra ou escolha o que você quer que eu seja, eu serei aquilo que você enxergar, mesmo que eu realmente não seja.”