Memorias Quebradas

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Este texto que escrevo agora é inspirado em um fato bastante inusitado que ocorreu hoje no meu trabalho. Fomos chamados para uma vistoria em um suposto enxame de insetos, por ventura não localizamos a casa do solicitante e tentávamos fazer contato via telefone com ele sem sucesso, eu estava do lado de fora da viatura quando o motorista da viatura me alertou da aproximação de uma senhora. Ela era parda, de cabelos enrolados um rosto sofrido, ela vinha segurando um pedaço de papel nas duas mãos e eu não saberia dizer qual era a sua idade, algo em torno dos quarenta ou cinquenta. Ela veio em nossa direção e como estamos acostumados a ter contato com todos os tipos de pessoas eu fui dar a ela toda minha atenção, eu já havia percebido algo diferente nela e como costumamos usar um termo pejorativo para esse tipo de pessoa, já estávamos em alerta assumindo que ela era “Afir”, letra A do alfabeto fonético Brasileiro que também usamos para nomear pessoas mentalmente instáveis. Ela se aproximou e leu em alto e bom tom o que estava escrito no papel “Há triunfos que só se compra com o sangue consciente e generosamente derramado. O da independência da Pátria Brasileira foi um deles.” Em seguida ela falou comigo:

– guardei esse pedaço de folha que foi o que eu guardei, agora entrego a você. – e me entregou o pedaço de papel surrado. E em seguida me contou uma historia. Eu não sei se é verdade ou imaginação da cabeça dela, já que ela mesma afirmou estar “doida”. Ela buscou uma jaqueta do corpo de bombeiros de São Paulo que caberia apenas em uma criança menor de dez anos de idade, muito surrada e um quepe branco sem distintivo ou marca, me contou que fugiu ainda muito pequena, que todos que estavam com ela foram pegos e sumiram e que ela só conseguiu fugir por que um homem o havia ajudado, e ela deu para ele de presente um livro que ela possuía e o qual ela tinha guardado apenas o pedaço de pagina que me deu, disse que tentaram matá-la com uma injeção, que ela vomitou e chorou sangue até quase morrer, mas seu salvador lhe deu cachaça e cuidou dela até ela melhorar e poder fugir, mas que depois disso ela havia ficado doida, que viajou por muito tempo até chegar em Belo Horizonte e lá entre Afonso Pena com Contorno que ela enterrou alguma coisa, acho que era algum brasão ou símbolo militar, e afirmou que ninguém nunca mais vai encontrar. Ela me contou tudo isso com lagrimas nos olhos e muito medo na voz, o motorista da minha guarnição é testemunha de tudo que ocorreu e no fim ela me pediu para entregar esse papel para alguém que eu não sei onde encontrar e nem sei se realmente existe afirmando que iria levar para algo que eu entendi como “mausoléu”, mas que como eu havia chegado lá, ela entregaria para mim e mesmo assim eu aceitei, já que acredito que assim ela ficará em paz com sigo mesma.

O texto a seguir é de minha autoria, os fatos nele ditos são obra de ficção criada por mim como inspiração ao conhecer a senhora de hoje e ouvir a sua historia, mesmo que alguns dos trechos a seguir tenham ocorrido na vida da pessoa a qual me inspirou a personagem eu não tenho como afirmar ou negar que tenham realmente ocorrido.

Fazia muito frio, sim, fazia muito frio sim, mas o frio não era maior que a fome, não, não era. Papai não voltava toda noite e quando voltava nem sempre trazia comida, mas ele trazia sorriso, sim, sorriso ele sempre trazia. Papai era um herói, ele salvava pessoas do fogo e da água, não tinha medo de nada e mamãe sempre fazia o possível para deixar a roupa de papai limpa e passada para que ele não fosse preso e pudesse voltar para casa. O dia que eu mais gostava era o dia que papai voltava para casa. Eu não lembro, não lembro de tudo, mas eu lembrava, agora eu sou doida, eu sei que sou doida, mas eu ainda lembro, lembro sim, lembro dele, lembro do que ele fez comigo, lembro sim, mas não lembro do que ele fez com papai e nem com mamãe.

Depois os homem vinha todo dia, eles vinham e procuravam papai, mas o papai não voltava a muito tempo, eles vinham e quebravam as coisa, mamãe chorava e eles levavam ela para o quarto, ela gritava e chorava no quarto e os homem entravam e saiam para sempre e só a noite que a mamãe saia do quarto, só depois que todos os homem foram embora, e ela chorava e sangrava e abraçava eu, mas aí um dia a mamãe não saiu do quarto mais e os homem levaram eu embora, eles me falaram que acharam o papai e que iam me levar até ele, peguei minha boneca, minha roupa de trabalho igual a de papai e o livro que o papai lia, eu sabia que papai ia querer ler o livro que ele sempre lia.

Mas eu não vi o papai, nunca mais eu vi papai e nem nunca mais eu vi mamãe, então eu chorava todo dia de saudade, e chorava todo dia de frio e de fome, mas dessa vez doía mais a saudade. Eu nunca mais vi as estrela e nem o sol e o céu, eu não podia brincar, então “robaram” minha boneca, mas eu não chorei mais, não na frente deles, não na frente dos homem. Um dia eles vieram e me pegaram, falaram que ia tudo melhorar e que eu ia encontrar mamãe e papai, eu só precisava tomar uma injeção e tudo ia melhorar, eles mentiram, mentiram sim, mentiram para mim criança e inocente, eu não tava doida e fiquei. Eles me deram injeção e meus olho sangrou, vomitei sangue e mais sangue saiu de mim, muito sangue, eu não respirava e tanto sangue e eles me deixaram para sangrar sozinha e tudo doía e tudo ardia e eu ficava abraçada ao livro do papai e eu queria morrer logo e acabar com tudo logo, mas daí ele veio, ele veio e me pegou e me legou embora, me deu cachaça pra tomar e a cachaça fez meu corpo esquentar e ele cuidou de mim na casa dele, me deu banho de tão suja que eu tava e me deu comida de tão magra que eu tava e me deu água de tão seca que eu tava e a noite ele me cobriu e eu dormi e acordei, eu tinha medo e pesadelo, eles me deixaram doida, sim, me deixaram doida para sempre, mas eu lembro dele, ele cuido de mim e não só a mim, ele ajudava os outros, muitos outros, crianças e gente grande também, todos tinham medo, menos ele.

Mas um dia os homem achou a gente e foi triste, todos correram e gritaram e choraram, tinha fogo e tinha luz e fumaça e ele me salvou de novo, me carregou para longe e correu junto de muitos outros, muitos que viraram poucos e depois quase nenhum até que ele parou, ele tava machucado, ele tava muito machucado e falou que depois ia me achar, ele me deu para uma moça me levar e me deu seu chapéu branco com medalhas e disse para eu jogar elas fora, mas que eu podia guardar o chapéu e eu guardei e eu dei para ele o livro do papai, mas eu rasguei uma pagina, a pagina que papai mais gostava e guardei ela, eu guardei para lembrar e guardei ela pra devolver depois. A gente viajou muito, muito mesmo, andamos muito e fomos no caminhão e depois andamos a noite e depois andamos de dia, a gente comia se dessem comida, então a gente pedia comida, e as vezes não tinha ninguém para pedir comida, então a gente dormia. Depois de muito tempo a gente chegou na cidade e ficamos na cidade, a gente ficava escondido, mas depois de não precisava esconder mais porque ninguém procurava a gente mais, nem os homem procurava a gente mais e as gente vivia na rua. Foi na rua que eu enterrei as medalha do chapéu, enterrei todas, enterrei tudo, eu lembro, lembro sim, e ninguém nunca vai achar, nunca vai porque  ninguém sabe onde eu enterrei, só eu sei e nem eu consigo achar mais, então eu andai por lá até todo mundo se esquecer de mim, acho que até mamãe e papai já se esqueceu de mim, mas eu não esqueci deles não, eu esqueci muita coisa, mas deles eu não esqueci, não vou esquecer, e não vou esquecer dele que me salvo, e eu guardei a pagina do papai para entregar, eu não vou esquecer, eu não esqueço mais.

Impulso Natural

Era aquela respiração rítmica, a sensação de estar escondido junto da esperança de não ser descoberto somada a certeza de que será encontrado. O silencio de uma respiração segurada e as batidas rápidas de um coração em taquicardia. Era isso que fazia valer a pena, ela isso que a fazia se sentir vida. As noites sem dormir e o arrependimento que sempre vinha, ela sabia disso, mas isso não importava, a única coisa que importava agora era fazê-lo acreditar que iria escapar, ela iria sair tranquilamente do quarto sem olhar para o armário marcado com sangue que ele havia deixado, só por dois minutos, dois minutos é o suficiente. Até lá ela iria gozar da sensação que logo irá sentir, já antecipando o orgasmo que tanto ansiava. Ela sai tranquilamente do quarto, seu sorriso é diabólico, seus olhos amendoados vidrados na faca afiada em suas mãos, segurava a faca como um padre segurava uma cruz em um ritual diabólico em honra de seus desejos sombrios. Dois minutos apenas! Ela pensava, e já sentia sua calcinha se encharcar de tanta vontade que até doía, apenas dois minutos e todos os seus desejos iriam se realizar.

Se perguntasse a ela talvez ela soubesse explicar, mas com certeza a resposta não iria agradar ao entrevistador. Tudo começou dês de pequena, a vida não era mais do que um playground para sua curiosidade; insetos eram vagarosamente esquartejados lentamente até que nenhuma parte de seus pequenos corpos pudesse se mover, assim como todos os animais que cruzavam seu caminho: coelhos, patos, cachorros e peixes, logo seus pais perceberam que ela não poderia ter nenhum. Em seu primeiro dia de aula que seus pais perceberam que aquilo não era um problema de curiosidade, sete coleguinhas foram feridos durante o recreio, um deles teve o olho perfurado por um lápis de colorir vermelho. Poderia muito bem ter sido um acidente, uma casualidade, mas se perguntasse para ela logo se via o sorriso, respondia como uma criança inocente que gostava de quebrar os coleguinhas, sangue era bonito ela dizia, era mais bonito do que a tinta e a massinha que a professora lhe dera.

Com muito tratamento psiquiátrico, anos de medicamentos, uma fortuna sendo gasta e o divorcio de seus pais que finalmente conseguiram colocar algo em sua mente “socialmente inapta”. Então agora ela só brincava escondida, sabia que ninguém podia ver o que fazia e que nem sempre podia fazer o que queria. Seu lindo vestido que sempre sonhou em tingir do mais precioso rubi não poderia ser pintado e agora, toda vez que se divertia, na hora de dormir se arrependia, chorava e se amaldiçoava, queria ser normal, queria não sentir aquilo nunca mais, mas quando se masturbava tinha delírios com facas e arpões em um mar vermelho que ela criava.

Logo as pessoas esqueceram e seus pais tapavam os olhos e ouvidos com narcóticos e entorpecentes, sendo assim ninguém notaria por que uma menina tão bonita nunca havia tido um namorado e nem saberia que todos os meninos que a chamaram para sair nunca mais para suas casas voltavam. Ninguém suspeitaria de uma mulher que havia se tornado tão linda, inteligente e engraçada, frágil como uma flor todos pensavam, tão tranquila em sua salinha colorida e com gatinhos e sapinhos de porcelana, uma trabalhadora dedicada sempre com seus óculos junto à face enfiada nos livros de arquitetura francesa para criar mais um trabalho satisfatório para o dono da empresa. Uma mulher sem igual e ainda com bom gosto para perfumes e doces.

O pobre rapaz não tinha como evitar, ninguém o culparia se soubessem o que aconteceu. Ele mandou um sms com um “Smile” e ela respondeu com outro e mais um coração, todos os dias ele a via e ela sorria para ele ao tirar aquela rebelde mecha encaracolada dos olhos, ela era a arquiteta e ele um simplório office boy, mas corajoso o suficiente para chama-la para ir em um bar, ele já esperava o não quando o sim instantâneo já estava no ar. Seu coração palpitou e sem saber ele caiu como uma pluma em uma teia mortal. A noite foi maravilhosa, ela não se intimidava para comer, ria de suas piadas e tinha as suas próprias, seus olhos sempre se encontravam e nenhum silencio era constrangedor e na noite bem iluminada pelos postes ela dançava enquanto caminhavam e quando ele veio roubar um beijo ela perguntou se ele a levaria para sua casa. A barriga dele gelou e em sua calça a ereção marcou o seu destino. Nem uma única vez ela deixou ele a beijar, tímida talvez. Ele tinha um pequeno apartamento no subúrbio, não muito longe do restaurante, mas infelizmente do lado do metrô, morava sozinho, era perfeito para ela.

Assim que entraram na casa ela perguntou se ele tinha aparelho de som, ele tinha, então ela colocou um de seus CD’s de rock clássico em uma boa altura, ele sentou no sofá e a assistiu dançar enquanto tirava a roupa lentamente, ela andou por cada canto da casa fechando as janelas e as cortinas enquanto ele já nu e completamente ereto a observava já sonhando em penetra-la, por ultimo ela foi até a cozinha e pegou uma faca para desossar, um presente de um amigo chef, então ela dançou com o utensilio, já completamente nua ela mostrava seu corpo quase escultural, talvez já tenha feito ballet ele pensou, ou dança do ventre e pensar nisso o deixava cada vez mais excitado, os caras da empresa nunca iriam imaginar, aquela belezinha toda CDF era uma dançarina sexual e ele iria chupar ela todinha.

A Faca entrou até a metade do ombro, ele olhava com horror e dor, seu grito saiu mudo, havia apenas a boca aberta face em puro choque, então a faca entrou mais vezes, varias vezes, no braço, na barriga, nas costas e nas pernas, ele a empurrou em pânico e ela caiu como uma garotinha frágil e coberta de sangue, ele levantou e correu para seu quarto, não conseguia pensar direito, tinha apenas o instinto de fuga, fechou a porta, mas não conseguia tranca-la, estava sem chave, onde estava a porra da chave? Então ele podia ouvi-la cantando Blood On My Hands do The Used, a música que estava tocando, porem ele jamais saberia da ironia, se escondeu no armário como uma criança faria se agarrando a uma esperança utópica, podia ouvir seus passos, e depois de algum tempo não a ouviu mais, será que foi embora? Quanto tempo se passou? Sentia-se um pouco tonto, será que perdeu muito sangue? O coitado nem percebeu que a música havia parado, quis acreditar que por um milagre ela havia ido embora, que ela havia desistido daquilo tudo, de toda aquela loucura, respirou fundo, sentia o melado quente escorrer por todo seu corpo, quanto tempo passou? Ela foi embora? Ela se arrependeu de seus crimes e fugiu? Às vezes ela só queria roubar meu dinheiro e minhas coisas, com certeza ela pegou o que queria e fugiu, aquela puta barata, a policia vai acha-la, se ela der sorte de eu não achar ela primeiro. Então ele abriu a porta do armário e assim encarou aqueles olhos amendoados e o sorriso inocente vestida com seu sangue, ele não gritou, seus olhos se encheram de lagrimas enquanto tocava gentilmente seu rosto enquanto a mão passeava pelos seus cabelos até chegar na nunca, seus lábios se moveram inutilmente até que por fim conseguiu sussurrar um rouco “por favor, não!” e ela assentiu com a cabeça positivamente enquanto a faca em seu punho demostrou vagarosamente a mentira que ela havia mostrado penetrando em sua garganta, o sufocando com dor e sague enquanto ela se afundava de orgasmo e prazer, era tanto tesão que ela até chorava enquanto sorria e se tocava.

Ela tomou um banho não muito demorado, pegou a carteira e alguns objetos que ele tinha que pareciam ser valiosos e colocou na mochila que ele tinha, pegou um ônibus para o centro da cidade e deixou a mochila no primeiro beco que viu, depois voltou para casa e pode finalmente deitar, estava cansada e preocupada, se sentiu arrependida e desejou que a policia investigasse, descobrisse suas digitais e fios de seus cabelos pela casa, chorou até dormir. Demoraram três dias para descobrirem que ele havia sido assassinado, não deu mais do que duas reportagens da TV local e nos jornais, a policia decretou latrocínio e nenhum suspeito. Ela seguiu até a sala de reuniões, todos iriam prestar condolências ao pobre office boy, fizeram uma oração, todos choraram e assim a vida continuava.

Frenesi

Ele me consome e assim eu já nem durmo.

Devorando a minha mente feito vermes na carne pútrida, ele invade os meus sonhos e me domina.

Rasgo um ventre em fúria, sangue quente em minhas mãos, mais um corpo violado sem alguma razão.

Ele me controla, faz seus passos com os meus, me faz vestir os seus olhos.

Ele me consome noite e dia, sem descanso e sem sentido, aguardando a próxima vítima.

Esperança Fiel

Praticamente cego. Além da escuridão enxergo apenas centímetros afrente do meu próprio nariz. A única luz é como uma estrela entrando por uma fresta na parede, longe de mais para se alcançar e próxima de mais para deixar minha esperança esvanecer. Essa é minha a minha desgraça, tijolos de concreto formam minha casa e minha mente se transforma em minha prisão. Abandonado e solitário, sem comida e já quase sem vida, mal sinto minhas pernas, minhas vestes além da própria pele são apenas minha barba e meu cabelo, estou tão velho, estou cansado, não quero poder aguentar mais.

Não sei ao certo, mas chama minha atenção, o cheiro, os ruídos, mal posso me conter, cavar desesperadamente para pode alcançar, não sei o que é, mas preciso saber.

Quando chove a água brota, ela é suja e pouco revigorante, onde estão os guardas? Há quantos dias eles se foram? A quantos dias aqui estou? Vi minha estrela se apagar e acender dezenas de vezes, centenas de dezenas de vezes. Quantas dessas vezes foram sonhos e quantas não foram?

Cavar, cavar, cavar. Não enxergo nada. Não tem problema, sinto o cheiro.

E assim se vai mais um dente, mais de uma dezena quando parei de contar, meu corpo dói ao respirar, por que ainda estou vivo? Este cativeiro que tortura minha alma e faz do meu corpo um flagelo, não desejo resistir mais. Imploro a Deus, Imploro para os guardas que assim como Deus eu não sei se aqui estão. Sinto o gosto das minhas lagrimas e a dor no meu peito, não há consolo para um pobre diabo como sou.

Consegui passar, está tão perto, o cheio está forte, mas ainda é pequeno, tenho que cavar mais, continuar cavando, não importa por quanto tempo, tenho que continuar.

Escuto algo, o que será? Minha imaginação me torturando com esperança e sonhos? Imagino que seja. A fome e a sede me carregam a passo lento em direção à liberdade. Sofrida e dolorida liberdade. Entrego-me a dama de negro completamente, me leve daqui com seu doce beijo, não me deixe sofre mais. Sinto seu toque gelado tocar minha mão.

Encontrei!

Ela é fria e quente, áspera e macia. Sinto ela lavar minhas mãos e minha face, seu cheiro é úmido e lamacento, suas vestes tão macias quanto seus cabelos, então eu a abraço e deixo que me carregue.

Consegui, consegui pega-lo, agora eu posso voltar, ele é tão leve, tão fácil de puxar, isso me anima muito, é só sair por onde entrei.

Sou arrastado por uma passagem, tudo tão escuro, úmido e macio, ela me puxa com força, e eu a deixo fazer o que quiser.

Agora só mais um pouco, estamos quase lá.

Estou delirando? Sinto o cheiro de ar fresco após um movimento brusco eu sinto o próprio vento me acariciar. Tenho medo de abrir os olhos e ver mais escuridão. Minha dama salvadora grita palavras que não compreendo e limpa minha face. A luz é tão forte, estou ofuscado, a vejo na minha frente, primeiro um borrão escuro, vejo seus cabelos negros surgirem lentamente na minha frente, seus olhos amarelos e sinceros, ela está tão imunda quanto eu e seu rabo abana de felicidade, um anjo negro coberto de pelos. Jamais vou entender o que a fez vir me resgatar, e jamais vou saber a natureza de todo esse amor que ela sentiu por mim dês desse dia até o ultimo dia de nossas vidas.