Impulso Natural

Era aquela respiração rítmica, a sensação de estar escondido junto da esperança de não ser descoberto somada a certeza de que será encontrado. O silencio de uma respiração segurada e as batidas rápidas de um coração em taquicardia. Era isso que fazia valer a pena, ela isso que a fazia se sentir vida. As noites sem dormir e o arrependimento que sempre vinha, ela sabia disso, mas isso não importava, a única coisa que importava agora era fazê-lo acreditar que iria escapar, ela iria sair tranquilamente do quarto sem olhar para o armário marcado com sangue que ele havia deixado, só por dois minutos, dois minutos é o suficiente. Até lá ela iria gozar da sensação que logo irá sentir, já antecipando o orgasmo que tanto ansiava. Ela sai tranquilamente do quarto, seu sorriso é diabólico, seus olhos amendoados vidrados na faca afiada em suas mãos, segurava a faca como um padre segurava uma cruz em um ritual diabólico em honra de seus desejos sombrios. Dois minutos apenas! Ela pensava, e já sentia sua calcinha se encharcar de tanta vontade que até doía, apenas dois minutos e todos os seus desejos iriam se realizar.

Se perguntasse a ela talvez ela soubesse explicar, mas com certeza a resposta não iria agradar ao entrevistador. Tudo começou dês de pequena, a vida não era mais do que um playground para sua curiosidade; insetos eram vagarosamente esquartejados lentamente até que nenhuma parte de seus pequenos corpos pudesse se mover, assim como todos os animais que cruzavam seu caminho: coelhos, patos, cachorros e peixes, logo seus pais perceberam que ela não poderia ter nenhum. Em seu primeiro dia de aula que seus pais perceberam que aquilo não era um problema de curiosidade, sete coleguinhas foram feridos durante o recreio, um deles teve o olho perfurado por um lápis de colorir vermelho. Poderia muito bem ter sido um acidente, uma casualidade, mas se perguntasse para ela logo se via o sorriso, respondia como uma criança inocente que gostava de quebrar os coleguinhas, sangue era bonito ela dizia, era mais bonito do que a tinta e a massinha que a professora lhe dera.

Com muito tratamento psiquiátrico, anos de medicamentos, uma fortuna sendo gasta e o divorcio de seus pais que finalmente conseguiram colocar algo em sua mente “socialmente inapta”. Então agora ela só brincava escondida, sabia que ninguém podia ver o que fazia e que nem sempre podia fazer o que queria. Seu lindo vestido que sempre sonhou em tingir do mais precioso rubi não poderia ser pintado e agora, toda vez que se divertia, na hora de dormir se arrependia, chorava e se amaldiçoava, queria ser normal, queria não sentir aquilo nunca mais, mas quando se masturbava tinha delírios com facas e arpões em um mar vermelho que ela criava.

Logo as pessoas esqueceram e seus pais tapavam os olhos e ouvidos com narcóticos e entorpecentes, sendo assim ninguém notaria por que uma menina tão bonita nunca havia tido um namorado e nem saberia que todos os meninos que a chamaram para sair nunca mais para suas casas voltavam. Ninguém suspeitaria de uma mulher que havia se tornado tão linda, inteligente e engraçada, frágil como uma flor todos pensavam, tão tranquila em sua salinha colorida e com gatinhos e sapinhos de porcelana, uma trabalhadora dedicada sempre com seus óculos junto à face enfiada nos livros de arquitetura francesa para criar mais um trabalho satisfatório para o dono da empresa. Uma mulher sem igual e ainda com bom gosto para perfumes e doces.

O pobre rapaz não tinha como evitar, ninguém o culparia se soubessem o que aconteceu. Ele mandou um sms com um “Smile” e ela respondeu com outro e mais um coração, todos os dias ele a via e ela sorria para ele ao tirar aquela rebelde mecha encaracolada dos olhos, ela era a arquiteta e ele um simplório office boy, mas corajoso o suficiente para chama-la para ir em um bar, ele já esperava o não quando o sim instantâneo já estava no ar. Seu coração palpitou e sem saber ele caiu como uma pluma em uma teia mortal. A noite foi maravilhosa, ela não se intimidava para comer, ria de suas piadas e tinha as suas próprias, seus olhos sempre se encontravam e nenhum silencio era constrangedor e na noite bem iluminada pelos postes ela dançava enquanto caminhavam e quando ele veio roubar um beijo ela perguntou se ele a levaria para sua casa. A barriga dele gelou e em sua calça a ereção marcou o seu destino. Nem uma única vez ela deixou ele a beijar, tímida talvez. Ele tinha um pequeno apartamento no subúrbio, não muito longe do restaurante, mas infelizmente do lado do metrô, morava sozinho, era perfeito para ela.

Assim que entraram na casa ela perguntou se ele tinha aparelho de som, ele tinha, então ela colocou um de seus CD’s de rock clássico em uma boa altura, ele sentou no sofá e a assistiu dançar enquanto tirava a roupa lentamente, ela andou por cada canto da casa fechando as janelas e as cortinas enquanto ele já nu e completamente ereto a observava já sonhando em penetra-la, por ultimo ela foi até a cozinha e pegou uma faca para desossar, um presente de um amigo chef, então ela dançou com o utensilio, já completamente nua ela mostrava seu corpo quase escultural, talvez já tenha feito ballet ele pensou, ou dança do ventre e pensar nisso o deixava cada vez mais excitado, os caras da empresa nunca iriam imaginar, aquela belezinha toda CDF era uma dançarina sexual e ele iria chupar ela todinha.

A Faca entrou até a metade do ombro, ele olhava com horror e dor, seu grito saiu mudo, havia apenas a boca aberta face em puro choque, então a faca entrou mais vezes, varias vezes, no braço, na barriga, nas costas e nas pernas, ele a empurrou em pânico e ela caiu como uma garotinha frágil e coberta de sangue, ele levantou e correu para seu quarto, não conseguia pensar direito, tinha apenas o instinto de fuga, fechou a porta, mas não conseguia tranca-la, estava sem chave, onde estava a porra da chave? Então ele podia ouvi-la cantando Blood On My Hands do The Used, a música que estava tocando, porem ele jamais saberia da ironia, se escondeu no armário como uma criança faria se agarrando a uma esperança utópica, podia ouvir seus passos, e depois de algum tempo não a ouviu mais, será que foi embora? Quanto tempo se passou? Sentia-se um pouco tonto, será que perdeu muito sangue? O coitado nem percebeu que a música havia parado, quis acreditar que por um milagre ela havia ido embora, que ela havia desistido daquilo tudo, de toda aquela loucura, respirou fundo, sentia o melado quente escorrer por todo seu corpo, quanto tempo passou? Ela foi embora? Ela se arrependeu de seus crimes e fugiu? Às vezes ela só queria roubar meu dinheiro e minhas coisas, com certeza ela pegou o que queria e fugiu, aquela puta barata, a policia vai acha-la, se ela der sorte de eu não achar ela primeiro. Então ele abriu a porta do armário e assim encarou aqueles olhos amendoados e o sorriso inocente vestida com seu sangue, ele não gritou, seus olhos se encheram de lagrimas enquanto tocava gentilmente seu rosto enquanto a mão passeava pelos seus cabelos até chegar na nunca, seus lábios se moveram inutilmente até que por fim conseguiu sussurrar um rouco “por favor, não!” e ela assentiu com a cabeça positivamente enquanto a faca em seu punho demostrou vagarosamente a mentira que ela havia mostrado penetrando em sua garganta, o sufocando com dor e sague enquanto ela se afundava de orgasmo e prazer, era tanto tesão que ela até chorava enquanto sorria e se tocava.

Ela tomou um banho não muito demorado, pegou a carteira e alguns objetos que ele tinha que pareciam ser valiosos e colocou na mochila que ele tinha, pegou um ônibus para o centro da cidade e deixou a mochila no primeiro beco que viu, depois voltou para casa e pode finalmente deitar, estava cansada e preocupada, se sentiu arrependida e desejou que a policia investigasse, descobrisse suas digitais e fios de seus cabelos pela casa, chorou até dormir. Demoraram três dias para descobrirem que ele havia sido assassinado, não deu mais do que duas reportagens da TV local e nos jornais, a policia decretou latrocínio e nenhum suspeito. Ela seguiu até a sala de reuniões, todos iriam prestar condolências ao pobre office boy, fizeram uma oração, todos choraram e assim a vida continuava.

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