Underground: Parte 1 – O Garoto na Janela

As mães sempre beijam seus filhos antes deles irem dormir e sempre lhes dão um aviso – não escute o que vem do subterrâneo, não olhe para lá e não escute a sua voz ou você será um de seus bonecos. – Philip já tinha doze anos e como um garoto de tal idade já não queria mais os beijos de boa noite de sua mãe, já era um homem e já trabalhava, não precisava mais de suas historias para dormir ou conselhos sobre coisas que não existem. – histórias para crianças – ele dizia enquanto sorria – já não preciso delas para dormir. Mesmo assim, todas as noites antes de dormir ele lembrava e um arrepio vinha em sua coluna, imagens de uma sombra comprida com agulhas nas pontas dos dedos costurando algo minúsculo em suas mãos. E então ele dormia.

Um assobio fino que gradualmente foi crescendo, ele corria, mas corria para onde? Algo estava atrás dele, mas o que? Suas pernas não funcionavam direito, correr era como se arrastar, um sopro gelado penetrava em seus pulmões e o congelava por dentro, sentiu sua pele rasgando, tudo ficando escuro e vazio, tentou gritar, mas nenhum som saia, desesperado tentou novamente e mais uma vez, tentou com mais força, mas era como se sua voz estivesse congelada dentro do peito e agora ele sufocava e se sentia afogando lentamente nas trevas.

Philip acordou, estava suado, seu coração batia freneticamente, um vento frio fez seu corpo arrepiar e então ouviu o assobio, olhou com desespero para o lado e teve vergonha de si mesmo quando viu que vinha da janela entreaberta de seu quarto. – historias estupidas. – tentou se convencer de que não sentia nenhum medo. Hesitou para levantar e fechar a janela e teve uma sensação estranha de que algo estava errado, mas o que? Deu de ombros e seguiu vigorosamente até a janela, o vento soprava gelado e com suavidade, o assobio era tão baixo que quase era abafado pelo som da respiração de Philip, o garoto pôs a palma de sua mão rente o vido da janela com intenção de empurra-la e seu coração gelou, ficou estagnado ao olhar do lado de fora de sua casa, era como se por um segundo o mundo parasse completamente esticando esse um segundo por toda a eternidade, Philip estava estático até perceber que também havia parado de respirar, assim que deixou que o ar de seus pulmões saísse foi como se o mundo voltasse a girar novamente e o vento gelado e o assobio fino continuavam enquanto Philip tentava descobrir o que o havia assustado. Agora a janela estava fechada e ele finalmente poderia deitar e dormir, ele virou as costas para a janela e sentiu o vento frio tocar-lhe a nuca, voltou-se furioso para a janela maldita e novamente seu coração parou, ele tinha olhos grandes e verdes e o estava encarando silencioso pelo vidro, era um menino, talvez da mesma idade que Philip e tinha alguma coisa muito errada com ele, não havia nem um fio de cabelo, nem nas sobrancelhas, sua pele era pálida e ele estava completamente nu.
– Quem é você? – Philip falou em tom de reprovação, uma tentativa de esconder que havia se assustado. Porem o garoto não respondeu, ficou apenas encarando Philip nos olhos de forma que deixava Philip bastante desconfortável, a única movimentação do garoto era de suas narinas enquanto respirava rente ao vidro, porem ele respirava tão vagarosamente que mal conseguia embaçar a janela.
– O que você quer? – as pernas de Philip tremiam graças ao efeito da adrenalina que corria em seu corpo, Philip desviava os olhos do menino, porem esse continuava o encarando e nem ao menos piscava, então uma onda de raiva e desespero cresceu em sua mente, fechou seu punho esquerdo e fingiu dar um soco na direção do rosto do garoto parando seu punho a poucos centímetros da janela. O garoto não teve nenhuma reação, continuava parado encarando Philip.

– o que você quer? – apenas o silencio e junto à respiração vagarosa no garoto. – ME RESPONDE DESGRAÇA. – então deixando que a raiva possuísse todo seu corpo Philip levou as duas mãos até a janela e a abriu de uma vez, o movimento foi tão forte que a portas da janela escaparam de seus dedos e bateram com força na parede fazendo um dos vidros rachar de um canto a outro, o vento frio inundou o quarto, não nevava lá fora, mas a sensação era de que Philip estava no meio de uma nevasca. O garoto continuava parado feito uma estatua. Então veio na mente de Philip que o menino poderia estar congelado, isso explicaria o porquê ele não se movia, afinal, o coitado estava completamente pelado e o frio era intenso. Philip se aproximou vagarosamente do menino e esticou sua mão esquerda para toca-lo, os olhos do menino continuavam vidrados aos seus, mal se podia notar sua respiração sem o vidro da janela, enquanto Philip havia segurado o ar nos seus pulmões como se estivesse mergulhando e assim tocou suavemente a mão do menino, os olhos do menino moveram rapidamente em direção a mão que o havia tocado, Philip puxou seu braço de volta, mas não foi rápido o suficiente, com uma agilidade sobrenatural o garoto havia segurado o braço de Philip com as duas mãos, elas estavam mais frias do que o vento, eram como duas mãos feitas de gelo e também eram duras e firmes. Philip apoiou sua mão direita no parapeito da janela e começou a empurrar para tentar se soltar, mas o menino era mais forte do que parecia e com um único movimento puxou Philip como se fosse um boneco de pano, Philip bateu o peito contra o parapeito da janela e soltou o ar que estava preso em seus pulmões graças ao susto e a dor tudo ficou frio e confuso, demorou alguns segundos para perceber que estava do lado de fora de sua casa e que estava sendo arrastado para longe dela. Philip usou seu corpo, agitou as pernas, chutou e socou o garoto inutilmente, seus joelhos ficaram esfolados assim como suas costas e sua barriga, então gritou e chorou o mais alto que conseguiu, porem ninguém veio, logo ele ficou exausto e viu sua casa se afastando cada vez mais, depois toda a cidade estava distante e assim eles adentraram para a floresta.

Philip tentou se levantar varias vezes, mas não conseguia acompanhar o ritmo do sequestrador, suas pernas doíam muito e logo ele caia, por fim desistiu e deixou ser arrastado sentido suas roupas e sua carne serem rasgadas por galhos e pedras no caminho, a noite estava sem lua e a floresta era densa de mais para que ele pudesse enxergar algo, então se viu imaginando qual destino terrível o aguardaria e em sua mente surgiu à imagem de um espectro negro e alto com as mãos tendo os dedos em forma de agulha costurando algo minúsculo e frágil em suas mãos horrendas.

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