Underground: Parte 3 – As Crianças Remendadas

Eles correram. Estavam completamente cegos, trombavam e tropeçavam, tentavam achar uma direção e varias vezes batiam bem forte em uma parede. Quando olhavam para trás viam uma luz que se aproximava rapidamente, e depois outra e mais outra, logo eram cinco lanternas buscando por eles como olhos flamejantes e famintos, a adrenalina preenchia a suas veias e o pânico a suas mentes, então instintivamente eles seguiam em alguma direção rezando para encontrar uma saída enquanto ouviam a canção feita pelas batidas de seus corações, o som ofegante de suas respirações e os tapas rítmicos de seus pés desgovernados.

Philip estava começando a sentir uma falta de ar junto a uma dor no lado inferior de seu abdômen quando chocaram com mais uma parede, tatearam ela de um lado ao outro, a garota com as duas mãos e Philip com uma e logo suas mãos se encontraram novamente, Philip encostou as costas na parede e deixou escorregar até sentar no chão, a garota fez o mesmo ao seu lado, observavam a dança luminosa que se aproximava deles.

– Fim da trilha – a garota finalmente falou.

– qual… –Philip respirava fundo para recuperar o folego, seu braço doía muito. – qual é o seu nome?

– Cintia, mas acho que isso não importa mais.

– importa sim. Nós vamos sair dessa.

Cintia ficou em silencio e apertou à mão de Philip que segurava, as luzes se aproximaram o suficiente, podiam ver as silhuetas dos corpos que seguravam as lanternas. Pela primeira vez podiam ver um ao outro, ambos estavam bem sujos, Philip tinha machucados por todo o rosto, um roxo bem grande embaixo de seu olho esquerdo, ainda havia pedaços de galhos em seus cabelos cacheados era apenas um garotinho, pensou Cintia. Para Philip Cintia era a garota mais linda que já havia visto, tinha pele negra e olhos verdes, seu cabelo crespo que estava bem alto poderia ter sido cômico em alguma situação, mas não seriam nessa.

Os cinco perseguidores se aproximaram em silencio, a principio os dois se ofuscaram pela luz intensa das chamas nas lanternas, quando seus olhos se acostumaram puderam ver que os portadores das lanternas eram crianças, talvez até mais novas do que eles, todas eram bem parecidas, não tinham se quer um fio de cabelo no corpo e estavam completamente nuas, eram três meninas e dois meninos, isso era visualmente obvio e todos eles estavam repletos de cicatrizes pelo corpo, era como se tivessem sido costuradas e remendadas dezenas ou centenas de vezes, da cabeça aos pés, podiam se ver os desenhos das cicatrizes serpenteando por todas as partes de seus corpos. Philip e Cintia se entreolharam e os olhos de Cintia estavam cheios de lagrimas prontas para sair, o coração de Philip se apertou e nesse momento ele soube que tinha que lutar, era viver ou morrer, queria proteger Cintia a qualquer custo e sentiu seu sangue fervendo, deu um salto e se levantou.

– VÃO EMBORA. – ele gritou, porem as crianças não esboçaram nenhuma reação. – VÃO EMBORA OU EU VOU MACHUCAR MUITO VOCÊS.

Um garoto entre as crianças abaixou e colocou a lanterna no chão, andou até ficar frente a frente de Philip, a adrenalina fazia Philip suar e suas pernas tremerem, não tremia de medo, pelo contrario, sentia raiva, muita raiva, sentia que poderia socar e acabar com todas aquelas crianças mesmo com um único braço, com certeza conseguiria, acabaria com elas e sairia daquele pesadelo de mãos dadas com Cintia. O garoto nu deu mais um passo, estava tão próximo que Philip podia sentir sua fraca respiração, se olhavam olho a olho, os de Philip brilhando com a raiva assim como as chamas que alimentavam a lanterna, os do garoto eram opacos e quase mortos, não havia expressão alguma em seu olhar. Era agora, essa é a hora, o coração de Philip batia tão forte que parecia que era do tamanho de todo o seu corpo, levantou seu punho fechado na altura da cabeça, o braço inteiro tremia. Um único soco – pensava Philip. – Um soco, eu derrubo ele com um soco.

Com um leve movimento o garoto nu segurou o braço quebrado de Philip, o olhar do garoto não desviou do de Philip nem por um segundo, os músculos de Philip se contraíram, mirou no nariz do garoto e disparou o soco, mas antes que pudesse acerta-lo o garoto girou o braço de Philip com uma força e firmeza, a dor foi intensa, os olhos de Philip encheram de lagrimas e sua boca se abriu em um grito mudo enquanto a dor preenchia seu cérebro e o osso que já estava quebrado rasgava e lacerava sua carne e saia como um lápis que se usa para perfurar uma folha de papel. O sangue inundou chão e o garoto nu soltou Philip. A dor era tão intensa que Philip não ouvia os gritos de Cintia e nem teve consciência de que duas crianças a carregavam para longe dele, ele ouvia apenas um zumbido forte e alto enquanto sua cabeça parecia que iria dilatar até explodir, não sentiu nem mesmo a dor do impacto quanto caiu no chão, via apenas luzes embaçadas e corpos translúcidos dançando a sua frente, em seguida via apenas branco, vermelho e preto apenas e depois, apenas o preto existia.

Não me leia!

Não lhe trarei nada relevante
sou muito menos que um livro velho em uma estante
não posso lhe contar nem mesmo uma historia
em mim não existe nenhuma aventura que se possa apreciar

não haverá piratas em alto mar, saqueando navios ou contra a marinha a lutar

nem mesmo monstros marinhos ou ilhas de tesouros

eu te garanto que você não vai gostar.

Não sou um artigo repleto de informações

não existe nada que eu possa lhe ensinar

qualquer professor que se preze iria rapidamente perceber e imediatamente me descartar

não tenho valor algum em qualquer lugar.

Você não irá se emocionar ao me ler

jamais terei lagrimas de alguém caídas em minhas paginas

e nem mesmo medo ou horror a alguém eu traria

talvez no máximo o desprezo ou a indiferença do leitor

e isso já seria muito e bem mais do que eu esperaria.

Não entendo porque você chegou tão longe

e continuou a me ler sem parar

não entendo a razão, pois nada posso lhe oferecer

mas não escondo que fiquei feliz e emocionado ao saber

que você se importou e minhas palavras veio colher.

Obrigado amigo leitor

gostaria de melhor poder te agradecer

mas eu sempre tive muito pouco

e menos ainda eu tenho para devolver

porem agora consegui algo importante

pois hoje eu consegui você.

Underground: Parte 2 – A Garota na Gaiola

Seu corpo inteiro doía, braços, pernas, barriga, cabeça, tudo doía e a dor era tão intensa que mal podia pensar, tentava não fazer barulho, não queria demonstrar fraquezas, era impossível. Philip foi arrastado pelo que pareciam ser horas até que perdeu a consciência, acordou em um lugar húmido, frio e completamente escuro, a primeira dor que sentiu foi no braço esquerdo e ao toca-lo não pode conter o grito, a surpresa da dor aguda e pulsante que se espalhou pelo braço até alcançar sua mente, seu corpo contraiu de forma involuntária e ele rolou no chão de agonia, o que fez a dor aumentar cada vez mais até seu estomago embrulhar e faze-lo vomitar e chorar descontroladamente. Phillip tentou respirar fundo tentando tomar controle de seu corpo, ainda segurava o braço esquerdo que não se movia, podia sentir algo pontiagudo saindo de sua carne enquanto sentia o calor do liquido que dele escorria, não conseguia mover nem ao menos um único dedo daquele braço porem a dor que dele irradiava alcançava a todo o corpo, estava quebrado e Phillip tentava não imaginar o quão horrível estava.
Havia desmaiado novamente, levantou com dificuldade tentando achar algum lugar para se apoiar, encontrou uma parede tão húmida e grudenta quanto o chão, não podia ver nem um centímetro a sua frente, seguindo a parede que havia achado começou a se arrastar para algum lugar, estava mancando do pé esquerdo, havia torcido o tornozelo em algum momento. A cada passo ele respirava fundo, cada vez que o ar saia de seus pulmões vinha com um gemido de dor, foi uma escolha bem difícil a de andar pelo desconhecido e na situação que estava, mas achou mais difícil ainda a escolha de ficar deitado esperando algo acontecer.
Não conseguiu imaginar quanto tempo andou e nem por onde andou, a parede apenas seguia e seguia, não havia nenhuma luz para lhe servir de direção, imaginava se estaria subindo ou descendo? Talvez estivesse andando em círculos numa mesma sala o tempo inteiro, a dor estava ficando cada vez maior, seu corpo latejava e seu braço inutilizado estava pesado e incomodo, seus lábios e garganta ressecados pediam por água e depois de algum tempo a sede era tanta que ele se pegou imaginando qual seria o gosto do chão ou das paredes, afinam eram húmidas e grudentas, ela poderia ter musgos cheios de água, porém o cheiro que delas exalavam era podre e doentio, afastou essa ideia da cabeça desejando não precisar de uma medida tão desesperada e de súbito uma surpresa desagradável lhe golpeou na testa fazendo o perder o equilíbrio e cair no chão bem em cima de seu braço, seu grito foi tão intenso quanto à dor que sentiu e ecoou de forma estranha, estava tonto de dor, mas pode perceber que seu grito não poderia ter ecoado daquela maneira, a menos que…
– QUEM ESTÁ AÍ? RESPONDE. – e sua suspeita foi confirmada, ele não estava sozinho, era a voz de uma garota. – QUEM ESTÁ AÍ?

Phillip teve que respirar fundo para falar, a voz não saiu da primeira vez que tentou, sentia muita dor ainda, mordeu os lábios para se concentrar e falou – Sou Phillip, não consigo te ver.

– Você é uma pessoa? – a voz dela parecia surpresa. – onde está?
– sou um garoto e estou caído no chão, pode me ajudar?

Ela demorou alguns segundos para falar. – sinto muito, não posso. Estou presa. – Phillip se arrastou com os pés até as costas encostarem-se a uma superfície, apoiando com o braço direito fez força contra a parede para se levantar, foi mais fácil do que esperava, deslizou suavemente para cima e logo se pós em pé, andou na direção de onde ouviu a voz com sua mão direita erguida na altura da cabeça, foram quatro passos até esbarrar em algo gelado e metálico, rodeou sentido com a mão e tocou o objeto de varias formas, era uma espécie de gaiola com grades entrelaçadas tão próximas uma das outras que apenas seus dedos passavam, continuou tateando a gaiola em silencio, ouvia apenas a própria respiração e a respiração da garota, sua mão deslizava para cima e para baixo, de um lado para o outro até que finalmente achou algo, era como uma alavanca, porém hesitou.

– como posso saber se você é mesmo uma garota e não um… – não encontrou uma palavra para usar – uma coisa?

– como eu posso saber que você não é uma coisa e sim um garoto?

– não pode. – e puxou a alavanca, a gaiola rangeu alto enquanto parecia que uma porta se abria, Phillip ouvia a respiração da garota e o barulho de seu corpo lutando para sair de sua prisão, assustou quando ela o tocou.
– posso segurar sua mão?
Seu coração palpitou, nunca havia segurado a mão de uma garota antes, deu a ela sua mão direita. – acho que meu braço esquerdo está quebrado, eu… – antes de completar a frase ambos foram surpreendidos com uma luz que surgiu a uma boa distancia de ambos como uma pequena estrela.
– são eles. – a garota falou com uma voz alarmada e suas mãos se apertaram com força. – ninguém nunca voltou quando eles buscaram.