Underground: Parte 4 – A Criança Sequestrada

A luz ia e vinha, vinha e ia. Não sabia dizer se era a luz que se movia ou se havia algo pendulando a frente dela, isso o deixou irritado, era como se a luz e a sombra zombassem dele, zombasse com uma dança incompreensível e irritante, sua raiva aumentava cada vez mais e o frio que sentia e que dava a sensação de dormência em seu corpo o deixava mais irritado ainda, com um esforço absurdo abriu os olhos, tudo estava tão claro. Levantou da cama e foi até a janela, o vidro estava trincado, não apenas de um lado, mas todos os vidros e não apenas os vidros, as rachaduras desenhavam teia além da janela e seguia por todo o seu quarto, era como se tudo fosse feito de vidro e uma sombra dançou duas vezes na sua frente como um pendulo novamente, primeiro para a esquerda e depois para a direita. Caminhou lentamente pela sala, estava tudo tão claro, tudo tão nítido que chegava a brilhar, viu sua mãe caminhando até o quarto, seguindo ela se deparou com um quarto vazio, não havia nada, nem um móvel, nem a cama de sua mãe que supostamente deveria estar ali, voltou para sala e se surpreendeu com a grande gaiola que estava no meio dela, a gaiola era grande de mais até para ele, porém havia um pequeno canário lá dentro, tão pequeno que poderia passar por entre as barras de aço da gaiola sem encostar-se a elas, mas ao invés disso ele apenas ficava pulando de um lado ao outro, primeiro para a esquerda e depois para a direita e repetia o movimento enquanto abria e fecha o bico com muita energia, no entanto a ave não soltava nenhum som. A sombra dançou em sua frente mais três vezes, isso o deixou bastante irritado, suas mãos ainda estavam dormentes, fazia muito frio.

Abriu os olhos com muito esforço, lutou bravamente contra seu corpo para se sentar e poder sair da cama, fazia muito frio. Andou até a sala, estava coberta de neve, tudo branco e tão claro que até o ofuscava, andou com dificuldade, seu corpo pesava toneladas, estava quase se arrastando para andar, seus braços estavam dormentes, nada sentia neles e no meio da sala havia algo minúsculo, um pequeno canário amarelo, estava congelado e morto. Abriu os olhos com muita dificuldade, a sombra passou por entre a luz duas vezes. Tentou fazer força para abrir os olhos, estavam muito pesados, seu corpo não se movia, tentava fazer um esforço absurdo, abriu os olhos com tanta força que sentiu dor, levantou de sua cama e andou até a floresta, andou até a caverna e deu a mão para um garoto que não tinha sequer um pelo no corpo e estava completamente nú. Tentou abrir os olhos com urgência, alguma coisa estava muito errada, a luz e o frio, a sombra e a dormência. Levantou-se da cama, mas ainda estava tudo errado, seus olhos estavam abertos e não estavam. A sombra dançava na luz, seus olhos estavam pesados, seu corpo estava dormente, fazia muito frio, pesado, tudo muito pesado, sentia dor, muita dor. A sombra dançava lentamente, agora havia tanta luz quanto havia sombra, a dor preenchia todo o seu corpo, seus olhos estavam pesados, ele tentou abri-los com toda a força que tinha. Queria gritar de dor, abria a boca e nada saia, nem um som, seus pensamentos estavam confusos, tentava gritar, tentava abrir os olhos, algo estava muito errado e a sombra estava parada bem na sua frente e ele sentia ela o furar, rasgar e sentia sua carne sendo cortada, sentiu seu osso quebrado sendo movido, seu estomago embrulhou e a luz foi apagada.

Estava frio e húmido, abriu os olhos sem esforço algum, seu corpo inteiro doía, sentia como se estivesse com febre. Apoiou com o braço esquerdo no chão para levantar e soltou um grito de dor, estava doendo muito, tudo estava doendo, porem o braço funcionava direito agora, ele passou a mão e não achou a ponta do osso que antes saia e nem a carne rasgada, ao invés disso ele sentia o que pareciam ser vários pontos no braço, ele foi costurado e o osso foi colocado no lugar de alguma forma. Andou até a luz fraca que vinha do lado de fora da cela que ele estava e com a luz ele pode ver os remendos cirúrgicos que constituía seu braço. Respirou fundo enquanto tentava relembrar todos os fatos que ocorreram anteriormente, olhou em volta para ver se encontrava Cintia, porém não havia ninguém em sua cela, respirou fundo novamente e então tentou formular um plano.

A luz que vinha do lado de fora de sua cela poderia ser uma tocha ou um lampião, poderia usar como arma talvez, então foi até o canto onde a parede e as grades se encontravam e grudou seu corpo rente à ela, seu braço direito passou pela fresta que se dava entre a parede e a primeira barra de aço, foi tateando a parede até chegar a algo macio, tateou aquela estranha superfície sentindo nela varias protuberâncias pequenas e finas, seu coração gelou quando ela se moveu, Philip retirou rapidamente o braço do lado de fora da cela. Estava agora frente a frente com um garoto de sua altura, completamente nu e sem um fio de cabelo, o garoto era inexpressivo e segurava firmemente uma lanterna de óleo com sua mão esquerda. Pela primeira vez ele podia olhar para seu captor, não tinha certeza se aquele garoto que estava na sua frente era o mesmo que o havia sequestrado, mas sentia que era o mesmo, aquele olhar era. Philip reparou em algo a mais, o garoto estava repleto de cicatrizes assim como as cinco crianças de antes, havia diversas nos braços e pernas, entre sua pelve e até em sua genital, subiam pelo abdômen e iam através do peito seguindo até o pescoço, todas eram cicatrizes cirúrgicas bem finas e traçadas como um desenho de uma tatuagem, Philip passou a mão em seu braço esquerdo sentindo os pontos em sua carne quente e pulsante graças ao inchaço, assim Philip deslumbrou de seu futuro, se viu nu e completamente sem pelo andando pela noite sequestrando crianças e sendo o escravo desalmado de alguma coisa, de algo que espreitava no fundo da caverna, esse pensamento gerou medo e repulsa, surgiu uma descrença sobre o que estava acontecendo e uma necessidade desesperada de acordar, porem antes que Philip pudesse cair em pânico e desespero um grito ecoou pelos corredores, uma voz feminina que urrava de dor e medo, uma voz que ele conheceu há pouco tempo e soava como a voz da pessoa mais importante do mundo, então Philip encarou o garoto nu que nem ao menos havia se movido e decidiu, ele irá salvar Cíntia ou morrerá tentando.

Pouco Tempo

Faz pouco tempo, mas realmente parece que foi a poucos minutos atrás, eu do seu lado e você do meu e era do jeito que a gente gostava.
Faz pouco tempo e as vezes parece que não faz tempo nenhum, teria sido apenas um sonho ruim e logo eu acordaria para saber como vai ser o seu dia.
Para onde vou nas curvas da cidade eu olho para o lado e ainda vejo você lá, nessas estradas eu me sinto sozinho, me desculpe, não posso evitar.
Uma vida inteira foi tão pouco tempo com você e também foi suficiente para te amar e por toda uma vida no coração te levar.
E se eu durmo pouco e nas noites eu levanto eu te vejo sorrindo por onde eu possa andar.
É triste dizer que em todos os meus sonhos eu só te vejo feliz e so te vejo brilhar?
Acredite em mim quando eu digo que estou feliz, por mais que eu chore,  por mais que eu me esconda, quero apenas que você acredite que eu estou feliz pois eu sei que você está.
E mesmo que eu fique triste, por favor, não fique por mim, a tristeza faz parte de quem fica e é necessária para nos lembrar de toda felicidade que podemos vivenciar.

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