Underground: Parte Final – O Homem que Costura

– ABRA A PORTA. – Nada veio em resposta, nem mesmo um piscar de olhos. Philip não desistiria. – ABRA A PORTA AGORA SUA PRAGA. – Silencio absoluto. Philip deu um grito enquanto corria com o punho esquerdo cerrado em direção a cabeça de seu alvo e parando apenas alguns centímetros das grades. Nada, nem um movimento, nem mesmo a respiração do garoto havia se alterado enquanto Philip estava ofegante, transpirava com o calor gerado pelo seu ódio, sua cabeça estava quente e os pensamentos vinham rápidos e confusos, isso o deixava mais irritado ainda, pensou em socar as grades, as paredes, o chão e gritar com todas suas forças quando pensou no momento que segurou a mão de Cintia e seu coração foi tomado por uma dor fria como de uma facada.

– não vai adiantar não é? – O garoto o encarava ainda inexpressivo. – Gritar e fingir que irei te socar, não vai adiantar não é? – Philip respirou fundo, fechou os olhos e os abriu lentamente, sua respiração foi diminuindo se tornando quase imperceptível, estava sincronizada com a respiração do garoto a sua frente. Olhou lentamente ao redor, parecia haver apenas os dois naquele lugar e apenas uma lanterna de óleo iluminando todo o corredor e as celas, Philip sorriu, sua mão passou lentamente pela grade enquanto o garoto olhava fixamente em seus olhos, seus dedos se tocaram e pela primeira vez os olhos do garoto se desviaram, porém já era tarde, Philip havia segurado a lanterna e usou toda sua força para trazê-la para dentro da cela, a lanterna bateu com força na grade e seu vidro rachou com o golpe, porem continuou acesa pertencendo agora a Philip. O garoto estava com os olhos esbugalhados, uma expressão finalmente vinha daquelas cascas vazias, ele esticou o braço na direção da parede que logo surgiu com uma chave grande e cinza na mão, andou até a porta da cela, destrancou e abriu a porta andando na direção de Philip com as mãos vazias e esticadas na direção da lanterna. Philip deu dois passos para trás e o garoto avançou, deu três passos para o lado e o garoto o acompanhou.

– estupido! – foi o que Philip falou, não sabia ao certo se estava se referindo ao garoto ou a ele próprio por ter sido enganado por alguém tão lerdo. No mesmo instante o garoto avançou e Philip apenas jogou seu corpo para o lado deixando o garoto passar direto por ele, em menos de três passos largos Philip estava do lado de fora da cela e no momento que o garoto se virou Philip apenas fechou a porta e a trancou com a chave. O garoto avançou até as grandes e deixou que suas mãos esticassem para fora numa tentativa inútil de conquistar a lanterna de volta, Philip fechou o punho que segurava a chave, pensou em soca-lo, mas os olhos do garoto não desviaram da lanterna, era tal como uma mariposa que buscava a luz, sentiu pena dele, mas agora tinha algo mais importante para pensar. Virou as costas tentando localizar de onde veio o grito de Cintia.

– luz. – A voz saiu baixa e tremida, Philip voltou-se assustado para o garoto na cela e viu sua boca tremer enquanto pronunciava palavras quase inaudíveis. – luz… me dá… luz… luz… – Uma lagrima saiu dos olhos do garoto. – por… favor… luz…

As mãos de Philip começaram a tremer, como alguém poderia fazer algo assim com um garoto, um garoto da mesma idade que a dele, pensou em milhares de coisas que poderia fazer ou deixar de fazer e não sabia se alguma delas era certa ou errada e teve ódio novamente, dessa vez de sua própria consciência e fez algo que sabia que logo poderia se arrepender, jogou a chave para dentro da cela e correu sem nem querer saber se o garoto a pegou o a ignorou.

A principio correu sem destino querendo apenas se distanciar do garoto o mais rápido possível, mas logo percebeu que o corredor que ele seguia não tinha portas ou entradas, então seria apenas um único caminho a se seguir de qualquer forma, andou por algum tempo e o silencio junto à escuridão que se via a frente e atrás de onde estava trabalhavam junto a sua imaginação, logo ouvia passos, choros e via imagens de pessoas e sombras passando a sua frente apenas para desaparecerem em seguida o deixando completamente sozinho, quando finalmente viu uma luz adiante manteve distancia até se certificar que era real desta vez, para seu bem ou mal ela era real e era para lá que ele teve que seguir, aproximou-se o mais rente da parede possível alcançando a luz que vinha do que seria uma curva no corredor que seguia, seu coração estava quase saltando pelo peito, tomou mais um gole de coragem e olhou, sua surpresa não poderia ser maior, não era mais um corredor e sim uma gigantesca galeria, não parecia uma caverna e sim algum tipo de palácio subterrâneo com mesas e cadeiras que pareciam feitas de pedras, as paredes se misturavam como se fossem rocha pura que ia se transformando em uma parede de tijolos de pedra irregulares, porém, quando mais fundo os olhos de Philip caminhavam, mais regulares e perfeitas se tornavam a formação das paredes e também do chão, já o teto ele não enxergava. Andou lentamente pelos cantos seguindo na direção que a luz, percebeu que era de um ponto mais alto e que havia uma escada que ele poderia subir, subiu espreitando todos os cantos, já no final da escada a iluminação vinha com tanta força que fazia sua lanterna ser inútil e de lá ele podia ouvir barulhos como se alguém estivesse usando ferramentas, decidiu deitar-se no chão e se arrastar para a abertura para que assim ninguém pudesse vê-lo, dessa forma acabou demorando mais do que pensou que demoraria, não desistiu, logo estava onde queria e pode lentamente levar a cabeça até a abertura e assim ver o que o aguardava.

Era uma sala grande e circular, muito bem iluminada e com varias aberturas como portas assim como essa que ele se encontrava, o local que ele estava e os das outras portas eram em um ponto mais alto, sendo que são seguidas de uma escada de pedra de mais ou menos um metro e meio até o chão, na sala havia sete gaiolas bem grandes e num ponto bem alto no teto, todas elas estavam cheias, dezenas de crianças nuas amontoadas umas nas outras, silenciosas e inexpressivas. Havia também espalhados por todos os cantos do chão, pedaços de carne e ossos e o que poderiam ser órgãos, tudo junto ao mar de sangue, fezes e urina que cobria quase todo o chão como um fino lago, o cheiro era insuportável e Philip não conseguia se mover, estava paralisado de terror, não era o cheiro que fizeram seus olhos lacrimejarem, não eram os pedaços no chão e nem as crianças nas gaiolas, havia uma grande mesa no meio da sala e nessa mesa havia alguém amarrado e diante da mesa um homem ou o que parecia ser um, era alto, mais alto do que qualquer pessoa que Philip já havia visto, seu manto negro cobria quase todo o corpo e se misturava aos dejetos espalhados no chão, a pele era clara, quase albina e seu rosto era esticado e deformado num formato reptiliano com um nariz fino e uma boca que era pouco mais que um risco, porém os olhos eram grandes e esbugalhados e brilhavam com as chamas das lanternas ao redor da sala, seus braços eram longos e terminavam nas mãos com dedos longos que se esticavam muito além do que deveriam, cada dedo era uma grande agulha e ia afinando até chegar nas pontas de onde gotas de sangue escorriam, com esses dedos ele furava e cortava a carne de sua vitima, passava as pontas de suas agulhas em uma jarra que estava ao seu lado, o liquido escorria e se transformava numa fina linha, quase transparente e assim ele cortava e costurava a menina que mais parecia uma pequena boneca diante daquele ser. Em sua coluna um arrepio e em sua memoria as palavras de sua mãe ressoavam, ele não conseguia se lembrar do que ela falava.

O homem segurou a cabeça da menina delicadamente e com a ponta de um de seus dedos cortou algo que mantinha a boca da menina fechada, o grito que Cintia soltou foi tão alto e repentino que tirou Philip de seu transe, pode perceber o prazer doentio que o homem tinha vendo seu sorriso seco e seus olhos que gozavam de plena felicidade, ele estava se lambuzando com a dor e o sofrimento de Cintia, o ódio veio como uma chama no peito de Philip e pela primeira vez na vida o garoto de apenas doze anos teve a vontade de matar.

– PARE! – O homem olhou para ele surpreso e com um gesto rápido tocou o pescoço de Cintia e sua voz sumiu, porem os olhos e sua boca continuaram abertos demonstrando seu sofrimento. – SOLTE ELA, SOLTE ELA JÁ OU…

– Ou? – a voz do homem cortou a frase de Philip, ela soava surpreendentemente como uma voz normal e até mesmo bela. – Ou oque?  – Philip não conseguiu responder, havia algo errado, algo errado com os olhos daquele homem, não a aparência, algo dentro dos olhos e algo dentro da voz e em sua mente Philip ouvia sua mãe lhe falando algo, não entendia o que. – Venha aqui. – As coisas ficaram confusas, quando percebeu já estava descendo as escadas seguindo na direção da mesa.

– PARA TRÁS – Gritou levantando o punho para o homem que se aproximava.

– Curioso, muito curioso. Você não é um menino muito obediente, mas vai ser. Acalme-se. – A voz dele soava tranquilamente e Philip se acalmou. Pareceu um sonho por um momento, novamente a sensação de confusão, Philip se viu em pé ao lado de Cintia enquanto o homem pegava outro jarro que estava no canto, nas portas da sala surgiram vários garotos e garotas nus, um deles segurava uma chave na mão. Philip limpou a cabeça e voltou para Cintia, ela não estava amarrada, estava apenas deitada e seminua, sua camisa foi aberta e seus seios juvenis saiam para fora, Philip não pensou sobre isso, a segurou delicadamente e a fez se sentar.

– Pare. – A voz do homem soou novamente. – Você se deite e você venha aqui. – Novamente se sentiu naquele sonho estranho, a voz de sua mãe soava em sua mente, ela estava lhe falando algo, um aviso. Piscou os olhos e se viu diante do homem, ele segurava seu braço analisando suas suturas. Philip puxou o braço com força e correu para o outro canto da sala, o homem pareceu extremamente surpreso. – Curioso. – ele repetiu. – Você é diferente, mas logo isso não vai importar. Venha aqui.

Mais uma vez a sensação de sonho, sua mãe lhe falava em alerta. Abriu os olhos no meio da sala e parou. O homem mudou de face, estava ficando nervoso com aquela situação, olhou com seus olhos monstruosos para Philip e gritou: – ESCUTE MINHA VOZ.  – A sensação do sonho junto de uma sensação de urgência, sua mãe gritava para ele, lhe dava um aviso, um aviso que ela já havia lhe dado varias vezes e ele nunca escutava, nunca havia dado importância, ela gritou para ele e ele escutou sua mãe pela primeira vez: – Não escute o que vem do subterrâneo, não olhe para lá e não escute sua voz ou você será um de seus bonecos. E Philip se viu diante do homem, tão próximo que podia sentir seu hálito podre, Philip olhou ele nos olhos e ele percebeu que o encanto novamente havia sido quebrado, mas antes que pudesse proferir mais alguma palavra Philip o respondeu:

– Não. – E sabendo que ainda segurava a lanterna de óleo ele a segurou com as duas mãos e girou o corpo usando toda sua força para bater na face do homem, a força foi tanta que o vidro terminou de quebrar espalhando óleo e fogo pelo corpo do homem, o grito que ele soltou foi alto e doentio enquanto o fogo se espalhava pelo corpo e ele lutava para apaga-lo. Philip correu até Cintia e no momento que ele a tocou ela saiu do transe novamente, a garota estava pálida e teve e tentou vestir a parte de cima de sua roupa, ela acordava como alguém que acordava de um sonho, estava confusa de mais para agir direito então Philip segurou sua mão e olhou para o grupo de criança a volta, todas silenciosas observando seu mestre gritar e queimar, uma das crianças se moveu, olhava fixamente para Philip e usando a mão que segurava uma chave ele apontou para uma das portas, Philip não pensou, apenas correu, abriu espaço entre as crianças e correu mais e mais, puxava Cintia sem olhar para trás, subiu escadas e mais escadas até as escadas se tornarem um caminho te terra e guiado por luz alguma Philip foi seguindo apenas para onde sentia que um ar gelado vinha.

O ar puro foi um choque, percebeu que estava na floresta e que era noite, estava escuro, mas não o suficiente para ficar cego, havia estrelas e uma lua brilhando no céu, olhou para trás e não viu nenhuma caverna, não havia nada por onde eles pudessem ter saído, existia apenas eles e a floresta, não era hora para pensar, andaram em silencio, Cintia parecia não estar em condições de conversar de qualquer forma e assim logo eles chegaram na cidade, não estavam muito longe dela no fim das contas e com muito pesar no coração Philip resolveu deixar Cintia no posto policial, ela não conversava e só andava se ele a puxasse, ele não sabia como ajuda-la, a deixou lá e saiu antes que os policiais o vissem, pensou em procurar por Cintia quando amanhecesse na esperança dela estar melhor. E assim Philip finalmente correu para sua casa, a janela de seu quarto ainda estava aberta, pensou se de alguma forma o tempo não havia passado, mas estava cansado e dolorido de mais para pensar sobre isso também, entrou pela janela de seu quarto em silencio e a fechou conferindo que há havia trancado, cambaleou até sua cama e adormeceu um sonho profundo e sem imagens ou som, acordou muito tempo após o sol nascer, podia ouvir sua mãe cantando enquanto cozinhava como de costume e seu corpo relaxou, foi tudo um sonho ruim no fim das contas, um pesadelo e nada mais, não faria mal dormir mais um pouco então. A janela aberta deixava entrar um vento suave e confortável, Philip dormia sem perceber que segurava firmemente uma chave que durante a noite lhe havia sido deixada.

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