Apenas Uma Noite Tranquila 02

Na primeira noite ela apenas chorou até cair no sono e horas depois acordou desesperada imaginando que seus pais de alguma forma haviam escapado do quarto, estava ficando um pouco histérica, chegou a gritar com eles pela porta, queria gritar com o mundo, não entendida e não queria aceitar o que estava acontecendo. Olhar pela janela e ver no que o mundo lá fora havia se transformado não ajudava, na televisão só havia caos, os canais nacionais não funcionavam e os estrangeiros um a um foram perdendo o sinal, alguns deles falaram de lugares seguros, algo como se fossem campos de concentração, mas Carla não se imaginou indo até lá sozinha, não sabia dirigir e não tinha armas, muito menos tinha coragem para fazer algo tão perigoso, olhou pelo olho magico da porta, parecia tudo deserto, mas ela não abriria a porta também, nunca se sabe o que pode haver, se uma coisa daquelas entrasse seria seu fim com certeza, então ela decidiu ficar ali e esperar por algum tipo de resgate.
Por volta pela terceira semana ela já havia parado de contar os dias, já havia perdido o interesse nisso, também havia parado de rezar, sua mãe havia acreditado que era algo como o apocalipse que estava acontecendo, se fosse ela não tinha certeza se rezar ajudaria. A energia também havia acabado então teve de dar preferencia para as comidas congeladas, infelizmente havia muitas então foi inevitável à perda de algumas coisas. Quando seus pais ficavam calados parecia que o mundo parava, às vezes ouvia um ou outro gemido vindo do prédio, o que lhe dava certeza de que sair lá fora era na melhor das hipóteses suicídio, e foi em suicídio que ela havia pensando depois do que seriam uns dois meses, prostrou seu corpo na janela ate a linha da cintura, o vento balançava seus cabelos castanhos e enchia seus olhos de lagrimas, teve uma leve vertigem, voltou para dentro sentindo vergonha, não havia conseguido, era fraca de mais para isso, teria que viver ali presa sabe-se lá ate quando. Acreditava que a água e o gás do prédio apenas ela utilizava, comeu migalhas e restos não deixando sobrar nada, nem mesmo migalhas e assim ainda ficou dois dias sem comer nada antes de começar a cogitar a possibilidade de sair dali, seria melhor pular do prédio. Esse era seu pensamento, um suicídio mais rápido pelo menos, mas ainda não tinha coragem, mesmo depois de tanto tempo, morrer ali? Morrer lá fora? O que seria pior? Seu prédio tinha vinte andares mais o hall de entrada e a cobertura, cada andar tinha quatro apartamentos, com certeza havia comida em alguns deles, se estiverem abertos seria fácil e se estiverem com pessoas dentro? Se as pessoas estiverem vivas ela teria companhia, afinal, não podia ser a única sobrevivente no prédio. E se estivem mortas, ou pior, e se forem um deles? Seu corpo arrepiava só de pensar, sabia que havia algumas daquelas coisas pelo prédio, podia ouvi-los, mas onde estariam? Estariam presos ou perambulando pelos corredores? No principio havia desistido da ideia, morrer de fome parecia ser uma morte mais tranquila, isso ate começar a sentir fome de verdade, nunca havia ficado tanto tempo sem comer, quase delirava, três dias de estomago vazio foram suficientes para ela abrir a porta pela primeira vez.

Armada com uma faca de cozinha, mochila vazia nas costas, tênis nos pés e a coragem que a fome lhe dava Carla deu o primeiro passo para o corredor do prédio, a luz vinha fraca da pequena janela e pelas janelas das escadas, olhou para a porta do elevador e imaginou ele se abrindo, depois ignorou, estava com muita fome para ser paranoica, mais três portas de apartamentos restavam, andou lentamente na direção da mais próxima, girou a maçaneta como se essa fosse feita de vidro, estava trancada, foi até a próxima e não conseguiu evitar pensamento de que todas estariam trancadas, mas a segunda não estava, na verdade a porta estava entreaberta, o que fez seu coração parar por um segundo, respirou fundo e entrou; a casa estava arrumada, mas parecia abandonada, havia poeira em todos os moveis, uma fina camada apenas, mas suficiente para saber que ninguém estivera por ali, fechou a porta lentamente e seguiu para a cozinha com as pontas dos pés; havia um cheiro ruim no ar, algo adocicado e pesado, a cozinha estava segura, então avançou ferozmente na direção da geladeira e quando a abriu se arrependeu amargamente, o cheiro era insuportável, sentiu seu estomago embrulhar, se não estivesse vazio ela teria vomitado, fechou a porta rapidamente e tentou recuperar o folego. Já recuperada ela voltou à atenção para os armários, ficou contente de achar algo, devorou oito barras de cereal, ela odiava barras de cereal. Essas foram as coisas mais gostosa que ela já havia comido na vida, revistando o resto do armário encontrou biscoitos, algumas massas e um punhado de enlatados, ela conseguiria se virar com isso por mais alguns dias com certeza. Juntou tudo que achou na sua mochila e seguiu para a saída, porém algo chamou sua atenção, a porta do banheiro estava entreaberta e de lá ela ouviu o que pareciam ser pingos, pensou que se alguma torneira estivesse aberta isso seria um problema, afinal caçar comida e uma coisa, caçar água é totalmente diferente. Deixou a mochila na porta para o caso de emergência e em seguida, apenas com a faca ela caminhou até o banheiro, o cheiro que havia sentido quando entrou na casa estava mais forte dessa vez e ela ignorou, colocou o ouvido na porta e constatou que havia sim barulho de gotas caindo, então lentamente empurrou a porta para ela se abrir por completo. O cheiro que sentiu a acertou como um soco, o cheiro doce e podre de uma decomposição, Carla não conseguiu segurar um pequeno grito de susto ao ver que dentro da banheira havia um homem nu, mas que de humano havia perdido muito da aparência, estava com o corpo todo inchado, sua pele estava amarelada em sua maioria, as extremidades e o rosto estavam brancos com algumas partes começando a ficar pretas estava cheio de rugas por ter ficado tempo de mais na água, os olhos pareciam que iam pular para fora de suas orbitas e a água que ele estava era de uma tonalidade esquisita, um amarelo podre, difícil de decifrar, pode ver que pelo menos um dos pulsos haviam sido cortados, o braço esquerdo pendia do lado de fora da banheira e um rastro de sangue ficou nítido da borda da banheira e espalhava por todo chão, mosquitos e suas larvas se serviam a vontade.

Novamente sentada diante de uma porta, havia decidido que tinha que fechar o chuveiro direito ou a água continuaria pingando, o cheio era muito insuportável, pior do que o da geladeira e ficou grata por ter força o suficiente para não ter vomitado, se vomitasse desmaiaria com certeza, tinha medo de ficar doente também. Contou até cem e prendeu a respiração, entrou rápido no banheiro evitando olhar para o cadáver, sentiu que havia pisado em algo macio e fechou um olho na tentativa de ignorar, apertou o registro do chuveiro o máximo que pode e correu de lá, se imaginou caindo na banheira ou no chão, e a imagem do cadáver levantando e a atacando apareceu em sua mente, mas nada disso aconteceu, saiu do banheiro  fechando a porta, correu para pegar a mochila, abriu a porta do apartamento e voltou para o corredor, andou de passos rápidos voltando para sua casa, entrou e trancou a porta e então percebeu que ainda segurava a respiração; se sentiu aliviada, se sentiu salva, tomou um banho gelado e demorado, separou a comida de forma que pudesse racionar melhor dessa vez e na hora que foi dormir conseguiu  que a imagem do cadáver da banheira saísse de sua cabeça, o cheiro continuou em seu nariz por algum tempo.

Apenas Uma Noite Tranquila – 01

Os gemidos continuavam, parecia que sempre estiveram lá, dia e noite, noite e dia. Às vezes eles paravam e se podia ouvir o silencio, mas esses eram momentos raros e hoje não era um desses, então os gemidos continuavam. Dessa vez eram baixos e lentos como uma lamentação, outras vezes eles eram furiosos e vinham acompanhados de murros, estalos e barulhos de arranhões e tinha vezes que ela não conseguia identificar quais tipos de gemidos eles eram, porém sempre eram perturbadores, quase hipnotizantes. Às vezes ela apenas se sentava diante da porta do quarto e ficava os ouvindo, certa vez até mesmo pensou que eles poderiam estar tentando conversar com ela, alguma forma de comunicação primitiva talvez? Desistiu dessa ideia rapidamente, não havia tentativa de comunicação, se tivessem algum sentimento, esse seria fúria, lamentação, frustração ou fome, com certeza uma insaciável fome, talvez até todos esses sentimentos de uma vez. Ela sempre pensava nisso, mas pensar nessas coisas a fazia pensar que eles ainda eram pessoas, que ainda podiam ter alguma lembrança do que eles eram antes, então ela odiava pensar nisso e odiava mais ainda todos esses gemidos.

“Viver em apartamento era o máximo”, esses eram seus pensamentos algum tempo atrás, meses na realidade. Apartamentos eram seguros, cômodos e muitas vezes mais tranquilos que casas, décimo primeiro andar era perfeito, não tão alto quando o vigésimo e nem tão baixo quanto o terceiro, podia ficar horas olhando pela janela e vendo a vida lá de baixo, carros buzinando, pessoas correndo de um lado para o outro, mas isso também havia sido antes, se olhasse para a janela agora estariam vários carros abandonados e varias pessoas andando lentamente para lá e para cá como se estivessem perdidas e outras até mesmo paradas como se esperassem algo, às vezes ouvia um grito e outras vezes eram barulhos de tiro, centenas de vezes ela se imaginou pegando uma arma e saindo pelas ruas como uma personagem de filme de ação faz, ou então sonhava com um esquadrão mal encarado arrebentando a porta de sua casa e a salvando, na maioria das vezes ela apenas tinha pesadelos onde ela estava sendo devorada e nada conseguia fazer para impedir, noites assim ela acordava suando e percebia que os gemidos do quarto ao lado estavam mais ferozes. Há muito tempo tinha se acostumado com o cheiro, talvez tenha sido a primeira coisa com a qual ela havia se acostumado.

Tudo tinha acontecido muito rápido, era um dia como outro qualquer, pessoas falavam de ataques e de alguma doença, mas Carla não tinha tempo para ouvir essas bobagens, havia tantas coisas mais importantes para se pensar. Esse ano não estava indo bem na escola e tinha menstruado pela primeira vez hoje, bem no meio da aula, queria morrer, sumir do mapa, quem sabe voltar daqui uns cinco anos quando seu corpo estiver mais bem desenvolvido, afinal, nenhum garoto vai querer namorar uma menina tão magra e torta. Estava andando perdida em seus pensamentos, a escola nem era muito longe de sua casa, o bairro estava um pouco agitado, viaturas de policia e bombeiros passavam, ambulâncias iam e vinham, algumas pessoas gritavam e brigavam nas ruas, isso não era problema dela, entrou no seu prédio, pegou o elevador, ainda buscava soluções para seu vexame na escola. Antes de terminar de abrir a porta de casa sua mãe a puxou para dentro, estava com cara de assustada suava muito.

– Carla você está bem? Graças a Deus, Graças ao bom Deus.

– Que foi mãe?

– As pessoas estão loucas, você não viu? Lá fora? – Carla tentou se lembrar de ter visto algo em especial, mas nada lhe veio a memoria. Apenas balançou a cabeça negando. – seu pai foi atacado hoje, um homem louco o mordeu, arrancou carne dele Carla, carne viva, eu fiz um curativo, ele está no quarto esperando resgate, no telefone eles disseram que todas as viaturas estavam ocupadas, oh Meu Deus, nos ajude senhor. – sua mãe sempre foi muito dramática, ir tanto à igreja não lhe fazia muito bem, era uma mulher muito impressionável. Abriu a porta do quarto de seus pais, havia um cheiro estranho nele, seu pai estava deitado na cama tranquilamente, seu braço direito repousava sobre o corpo e ela pode ver o grande curativo que a mãe fez, nada mais do que um pano enrolado em volta do braço com marcas de sangue. Fechou a porta e foi para seu quarto, não queria mais ouvir os lamentos da mãe pelo telefone, ela brigava com alguma atendente da emergência, ora, seu pai foi atacado, mas não parece ser nada muito serio, amanhã já vai estar tudo bem com certeza. Entrou em seu quarto, fechou a janela, pegou seu ipod e se perdeu no mundo da música. Estava segura agora, longe da escola, longe do vexame, nada podia alcança-la ali, pelo menos até amanhã.

– Acorda, ACORDA CARLA. – a menina olhou assustada para a mãe, estava escuro, graças aos fones de ouvido ela não conseguia entender direito o que sua mãe falava.

– O que foi mãe? Que horas são? – Disse tirando os fones.

– Você não ouviu? – agora estava ficando preocupada, já estava acostumada com o gênio da mãe, mas dessa vez estava desesperada de mais até para ela.

– Ouviu o que?

– Tiros. Está acontecendo uma guerra lá fora, a televisão diz que algum tipo de doença, eles estão matando pessoas filha, é o fim do mundo. – aquelas palavras soaram meio como absurdo, mas mesmo assim Carla sentiu seu corpo tremer, esticou seu corpo até a janela, sua mãe a puxou de volta e a abraçou, ela estava chorando. Pode ouvir agora os barulhos de tiro, eram abafados e pareciam estar bem longe, os gritos não, os gritos vinham de todo lugar, do andar de cima, do andar de baixo, dentro e fora do prédio e também nos prédios vizinhos, mesmo não entendendo o que estava acontecendo, teve medo.

– Vamos arrumar as coisas e sair daqui, falaram na TV que tem um lugar seguro, vamos pegar o carro e sair, arrume suas coisas, eu vou arrumar as minhas e pegar seu pai. – parecia errado fazer aquilo, sair naquela bagunça, mas também não queria ficar ali, começou a juntar coisas na sua mochila, não conseguia pensar direito no que deveria levar, com certeza roupas, sapatos, cosméticos? Seria estúpido pegar essas coisas? A gritaria estava atrapalhando a pensar, juntou varias coisas e pegou a mochila, depois pensaria no que esqueceu, andou até a sala e viu uma mochila de viagem no chão, parecia que a mãe ainda não tinha arrumado tudo, foi até a cozinha, os armários estavam revirados, mas ainda tinha muita coisa neles, bem, também não da para levar muita coisa. Pegou um pacote de biscoito, deixou a mochila de lado e se sentou para comer. Já havia terminado e nada de sua mãe aparecer, será que ela estaria no banheiro? Foi conferir e descobriu que não, então restava apenas um lugar.  Andou até o quarto de seus pais, mas no momento em que colocou a mão na maçaneta sentiu um calafrio, alguma coisa estava errada, abriu a porta com cuidado, o quarto estava na penumbra e a única luz que se tinha vinha do abajur que ficava ao lado da cama, demorou alguns segundos para entender a cena que havia encontrado; a primeira coisa que se lembra de ter visto foi a mãe, ela estava olhando para a porta, seus olhos estavam arregalados e sua face contorcida, estava deitada no chão de barriga para cima e seu rosto voltado para porta estava de cabeça para baixo, seu pai estava em cima dela, a segurava com força enquanto ferozmente cravava seus dentes em sua barriga e rasgando sua carne, o sangue já estava espalhado pelo corpo de ambos. Ao perceber a porta aberta a atenção de seu pai foi para sua direção, ele olhava para ela com olhos vazios e ao mesmo tempo furiosos, pode sentir o desejo animalesco nos olhos dele e quando ele se levantou lento e desajeitado ela viu que ele ainda segurava o intestino de sua mãe; o cheiro era de sangue, fezes e doença, ele deu o primeiro passo em direção a porta soltando um gemido terrível que fez Carla acordar de seu pesadelo e ver que ele era real. O segundo passo foi desajeitado, mas foi largo o suficiente para quase atravessar o quarto todo, no próximo passo ele estaria em cima dela. Sem nem mesmo pensar passou a mão pelo lado de dentro da porta, o que antigamente era uma brincadeira que fazia com seus primos iria salvar sua vida, pegou a chave do quarto e bateu a porta com força trancando seu pai lá dentro no momento certo em que ele iria a ter alcançado, ele arranhou e esmurrou a porta, gemeu e gritou. Suas pernas haviam fraquejado, estava caída diante da porta, chorava, sua boca estava aberta e nenhum som saia, as suas lagrimas desciam e ela soluçava em silêncio, sua bexiga a havia traído, mas ela ainda não conseguia pensar em algo concreto, sua mente divagava e buscava alguma escapatória daquela realidade, a imagem ainda era muito viva e se repetia varias e varias vezes no mesmo segundo, o cheiro ainda impregnava seu nariz, então ficou ali sentada com a chave na mão e com lagrimas escorrendo dos olhos, não entendia, não acreditava, não podia, não conseguia acreditar ainda  e foi então que um segundo gemido se juntou ao primeiro, o som de duas vozes, os murros de quatro braços batendo na porta em que estava apoiada; sua única reação foi por a mão na boca e ter seus olhos arregalados, seu pesadelo acabou de piorar.