Apenas Uma Noite Tranquila 03

Foi o suficiente para alguns dias, não muitos infelizmente, antes do que havia imaginado ela estaria se aventurando novamente com uma faca e mochila para fora do seu apartamento, teve sorte pela segunda vez, a outra porta que não havia testado em seu andar também estava aberta e o apartamento vazio, muito dos mantimentos haviam sido pegos pelo tempo, e quem saiu de lá havia levado o que pode também, conseguiu pouca coisa, com um pouco de coragem revistou toda o apartamento e também o resto do apartamento do cadáver da banheira, conseguiu uma boa lanterna e algumas pilhas, achou uma caixa de remédios, não sabia nada sobre eles, nem mesmo identificar algo além de aspirina, mesmo assim achou que seria bom levar com ela e os deixou sempre na mochila para caso de emergência, se sentiu bem madura quando ignorou roupas e joias, um pequeno anel ninguém sentiria falta pelo menos e pegou também shampoos e sabonetes.  Depois suas necessidades a levaram para cima, tinha que subir ou morreria de fome cedo ou tarde, agora com uma lanterna se sentia bem mais segura, não teve sucesso com o décimo segundo e décimo terceiro andar, todas as portas estava fechadas, no décimo quarto havia uma porta aberta e mesmo assim não conseguiu alimento para mais do que três dias ou quatro se racionasse muito, o que ela já vinha fazendo há algum tempo, perdeu peso, estava mais magra do que já havia sido e também estava pálida, se sentia quase doente e esse era um de seus maiores medos e por esse instante onde ela estava perdida em seus pensamentos que o tempo parou, Carla prendeu a respiração e seus pensamentos se dispersaram, um golpe trágico do destino, o décimo quinto andar, pelo menos duas portas abertas a vista e no meio do corredor havia uma daquelas coisas, ela reconheceu pelas roupas e pelos cabelos, era o senhor Nicolau que morava naquele andar, era um senhor quase aposentado que ainda trabalhava nos correios do bairro, ele estava lá parado, morto e ao mesmo tempo vivo, não a tinha percebido, lagrimas preencheram seus olhos e prendeu a respiração, lentamente ela foi descendo as escadas, décimo quarto, décimo terceiro, décimo segundo e entrou em casa, trancou a porta da sala e se sentou no sofá. Chorou baixinho, não tinha certeza exatamente do porque começou a chorar, talvez por que não poderia subir e pegar suprimentos? Não, não era por isso, essa era a segunda vez que ela havia encarado um deles de frente, a primeira vez que viu um que não era seu pai e foi isso que a fez chorar, mesmo tendo seus pais ali todo esse tempo, gemendo e batendo sem quase nunca parar, ela havia se esquecido de como ele era, como ele estava quando ela o viu, esperou dois dias para sair de casa novamente.

Os andares de baixo aliviaram um pouco, do décimo ate o sétimo andar ela conseguiu seis apartamentos abertos, que lhe deram alimento por um bom tempo, tempo o suficiente para conseguir se recuperar do susto de dois dias atrás, mesmo assim ela começava a pensar que logo não poderia ficar nesse prédio por muito mais do que já havia ficado, logo não vai ter lugares para pegar comida, então começava a imaginar sua rota de fuga, teria que sair pela cidade e achar outro lugar para ficar, ou talvez ela pudesse pegar a estrada para algum outro lugar que fosse seguro e tivesse pessoal, mas onde? Ela nem sabia andar pelo bairro direito, ainda mais sair pelo mundo cheio de monstros. Olhava para fora pela janela e via que nada havia melhorado, às vezes tinha até a impressão de que os números deles aumentavam e isso era muito perturbador, em momentos assim seus pensamentos se voltavam para outro canto, o de se outras pessoas haviam sobrevivido como ela, sabia que o cadáver da banheira havia e que ele escolheu largar isso, ela mesma pensou em fazer o mesmo, não teve coragem, nunca teria coragem o suficiente para isso, pensava então nos colegas de escola, estava com raiva deles por algum motivo, não conseguia lembrar qual motivo era, e assim essa raiva sem sentido sumiu como se nunca tivesse existido, talvez estivessem todos mortos, talvez não, poderiam estar como ela está agora ou até melhor. Pensou em seus parentes também, uma vez achou um telefone celular, já havia tentado ligar para alguém usando o telefone fixo, mas ele estava sem linha, com o celular teve esperança de ligar para algum parente, para a policia ou qualquer pessoa, ouvir a voz de alguém. Nem ficou muito decepcionada quando o telefone não deu sinal. Quando ouvia gritos vindo do lado de fora, corria para a janela, nunca via ninguém, aquelas coisas ficavam agitadas e seguiam para a direção dos gritos, as vezes eram de varias pessoas, as vezes de uma única, poucas vezes vinham acompanhados de barulhos de tiro que logo cessavam, imaginava se eram pessoas que apenas estavam passando por ali ou se eram pessoas como ela, que ficaram presas em sua casa e por algum motivo tiveram que arriscar sair de lá, um dia seria ela a ter que tentar a sorte do lado de fora, quanto tempo será que iria durar? Não muito provavelmente, Carla não era pessimista, mas entendia bem sua situação, já havia se conformado com isso há algum tempo e mesmo assim uma força a compelia a continuar vivendo.

No sexto andar tudo mudou. Começou como todos os outros dias de espreita nos andares de baixo, apenas um apartamento estava aberto, um apartamento comum, não muito diferente de todos os outros, não parecia que alguma família havia morado ali, talvez um homem solteiro apenas. Com tranquilidade fez o que vinha fazendo sempre, assaltou a cozinha, colocou o máximo de coisas que pode na mochila e ia sair, depois voltaria para procurar qualquer outra coisa que poderia ser de valor, se virou em direção à saída da cozinha e ele estava lá, uma figura desumana, sobrenatural, um homem que deveria ser de meia idade, seu rosto cadavérico, os lábios haviam sido arrancados, estava sem camisa vestindo apenas uma bermuda jeans e um único chinelo em seu pé direito, ele olhava para ela, aquele mesmo olhar vazio e ao mesmo tempo sedento, saia um som de sua boca, um grunhido baixo e rítmico, não parecia estar respirando, mesmo assim fazia esse barulho aterrador, ele abriu a boca e o barulho que fazia ficou maior e mais agressivo, de forma desajeitada avançou na direção de Carla, ela soltou um grito curto automático e correu para o outro canto da cozinha, seus olhos não desgrudaram dele e os dele a seguiram para onde quer que ela fosse. Mais uma vez ele avançou ferozmente gemendo cada vez mais alto e Carla tentava controlar seu pânico, a única coisa que impedia ele de pegar a garota era uma pequena mesa com quatro cadeira que estava no meio da cozinha, aquela criatura não parecia ser capaz de pensar, mas reagia de forma rápida, mesmo que ela tentasse dar a volta da mesa ele ia pelo outro lado, era um mórbido jogo de gato e rato, Carla jogou nele sua faca e tudo mais que achou no alcance de suas mãos, ele não parecia se importar, era como se não sentisse dor alguma, coisas começaram a passar por sua cabeça feito raio, pensamentos de todos os tipos, até então nenhum que fosse de grande ajuda, a garota simplesmente correu para um lado da cozinha e ele veio, ela deixou ele se aproximar bastante e tomou impulso para o outro lado, em sua mente ela apenas se imaginava caindo ou encontrando outro deles logo a frente, se imaginou sendo agarrada, sendo devorada e nem percebeu que havia conseguido sair da cozinha, correu pelo hall e abriu a porta, viu o corredor vazio e se sentiu aliviada, pegou a chave da porta e saiu, agora estava salva, estava livre e assim a dor veio rasgando sua cabeça.  Ele havia agarrado seu cabelo e agora eles disputavam força, ela do lado de fora, ele do lado de dentro e a porta ainda estava aberta, ela viu a outra mão cadavérica segurar a porta, ele teria mais força que ela, ele a puxaria para dentro ou abriria a porta, então Carla fez a única coisa que poderia, fechou os olhos, largou a chave, segurou a maçaneta da porta com as duas mãos e puxou com toda a força que tinha, não funcionou, então ela soltou um grito abafado, apoiou um pé na porta e usou todo o pouco peso que tinha, a porta bateu com força e ecoou por todo o prédio, Carla sentiu a maior dor que já havia sentido na vida, um grande tufo de seu cabelo havia sido arrancado e agora estava preso na porta, linhas de sangue escorriam pelo seu rosto, os dedos da criatura estavam no chão e a criatura batia na porta e gemia, talvez de fúria ou frustração. Respirou um pouco, pegou a chave e trancou a porta, não acreditava que a criatura conseguiria abri-la, mas preferia não arriscar, ela deu a volta e começou a subir para sua casa, suas pernas tremiam, seu corpo parecia leve e pesado ao mesmo tempo, quando chegou ao apartamento ela foi direto para o chuveiro, ficou sentada chorando por mais tempo do que pode contar, chorou até suas lagrimas acabarem, o sangue foi lavado junto as lagrimas. Tempo depois se sentiu melhor, se sentiu mais viva, se alimentou e depois de pensar muito pegou uma tesoura e foi para o seu quarto, ainda era dia e estava bem iluminado, do lado de fora se ouviam gemidos baixos e distantes, no seu prédio se ouviam muitos gemidos, os do andar de cima, talvez o do andar de baixo e com absoluta certeza os de seus pais presos no quarto; Carla cortou seu cabelo o máximo que pode, deixou bem baixo, bem curto, o corte ficou feio, mas há muito tempo ela não se importava com aparência, nunca havia se achado bonita antes, não que fosse feia, mas para a maioria das adolescentes a autoestima variava com o dia, essas coisas não importavam mais, ninguém a iria ver mesmo, seu cabelo agora estava bem masculino e cheio de falhas, seu rosto magro com olheiras de noites ruins a davam uma aparência horrível, viu os ferimentos da grande falha que havia ficado em seu couro cabeludo, pensou se nasceria cabelo ali novamente e deu de ombros, não importava mesmo, pouca coisa importava agora. Seus pais estavam agitados essa noite, não conseguiu dormir.

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