Uma História em Hogwarts – Irmandade 01

– A COOOOR DEEEM ME NI NOS. – ela cantou pausadamente. – Não vão querer perder o primeiro dia não é mesmo? – os dois garotos pularam de suas camas sorrindo e gritando, a ansiedade era tão grande que eles mal haviam conseguido dormir, passaram quase metade da noite conversando tudo sobre Hogwarts. A sincronia dos dois era perfeita, pijama, cueca, bermuda, camisa e chinelos, as coisas iam e viam pelas mãos um do outro de forma perfeita, não precisavam nem se olhar e muito menos conversar, um arrumava a cama enquanto o outro já guardava as cobertas que o primeiro havia acabado de arremessar, eram gêmeos é claro, em todos os aspectos e com todo o orgulho que bons gêmeos poderiam ter; rosto comum uns diriam de pele queimada de tanto brincar no sol, cabelos pretos e crespos sem nenhum cuidado vaidoso, para diferenciar com precisão seria necessário olhar as cicatrizes, eram varias e espalhadas nos joelhos, cotovelos e mãos.

Obviamente eles não eram tão idênticos assim, Charles veio primeiro, dois minutos e sete segundos a frente de Chaplin, o que já era motivo de se gabar, era mais velho e se considerava mais sábio e sempre tentava aprender algo para depois ensinar ao seu irmão, já Chaplin costumava viajar, sua mente ia para lugares onde ninguém mais o alcançava e era necessário gritar seu nome varias vezes para ele voltar. Quarto arrumado, banho tomado, dentes escovados e já competiam na corrida para chegar à mesa do café. A casa não era grande e nem pequena, tinha o tamanho ideal, todos os maiores detalhes, pequenos e grandes eram feitos em madeira, cadeiras, mesas, estaturas de animais e vários outros, não seria de espantar afinal o pai deles é marceneiro e escultor, um dos melhores que existe com certeza e o melhor de toda cidade com mais certeza ainda, ele é um trouxa, mas a mãe vive dizendo que o trabalho dele tem mais magia do que toda Londres junta. Hoje foi Chaplin que ganhou na corrida, estavam empatados novamente, como de costume os pratos já estavam prontos com torradas, geleia de morango, bolo de cenoura e suco de acerola, tudo feito à mão pela mãe, ela valorizava muito a vida dos trouxas e é por isso que decidiu morar numa cidadezinha pequena, a mesma onde o pai nasceu e morou a vida toda, ela sempre conversa com Charles e Chaplin sobre Hogwarts e contou varias historias sobre bruxas e bruxos famosos, mas a favorita dos dois era a historia de Harry Potter e do dia que os bruxos das trevas atacaram Hogwarts dois anos depois dela se formar. Eles ficavam ansiosos imaginando se algum dia eles teriam alguma aventura fantástica como aquelas para contar, poderiam ser os Lufanos mais famosos da historia um dia, Lufanos é claro, todos os bruxos da família foramLufa e com certeza dessa vez não vai ser diferente, ambos já sabiam tudo e mais um pouco sobre Lufa-Lufa e sempre mais queriam saber.
– Então meninos? Ansiosos? – disse a mãe enquanto pegava um pote de mel do armário. Ela era simpática, uma típica dona de casa na visão de alguns, cabelos pretos e lisos caídos até a altura dos ombros, rosto rechonchudo e sorridente, era pouco mais alta que seus filhos, eles iriam ficar mais altos que ela com certeza.

– Simmmmmmmmmmmmmmmmmmm. – os dois responderam ao mesmo tempo e com toda energia como de costume.

– espero que estejam preparados. – disse a voz grossa e firme do pai enquanto ele entrava pela porta da cozinha, era alto e musculoso, tinha cheiro de serragem e óleo, ele deixava o cabelo crespo sempre bem curto e tinham um bigode volumoso que se juntava a uma barba bem vistosa, quem olha pela primeira vez pode ficar cismado com sua cara fechada e intimidadora, a verdade era que ele tinha o maior coração de todos e derretia igual manteiga no sol quando se tratava de seus filhos. – conversamos antes e vou repetir meninos, vocês não precisam ir se não quiserem, sei que os dois são bruxos, mas podem escolher uma vida mais tranquila e sem risco.

– Peter! – a mãe disse em tom de reprovação. – já conversamos sobre isso.

– Eu sei Laura, eu sei. – ele tossiu de forma falsa, como faz de costume para disfarçar e continuou – mas são meus meninos, eu não quero que eles corram perigo, sejam comidos por dragões, ciclopes e Valmernorts.

– Voldemort! – os dois corrigiram em conjunto.
– MENINOS!!!! – a mãe disse quase caindo de costas de susto. – não falem esse nome. – os dois começaram a rir. – Aquele que não deve ser nomeado. – a mãe continuou falando enquanto dava um olhar de reprovação para seus filhos que fingiram ficar sérios. – Ele não existe mais Coração, você não precisa se preocupar, nossos filhos estão seguros, vão estar em boas mãos na Lufa-lufa.

O restante do dia passou feito um vento de inverno, tudo já estava pronto é claro, todo material e vestimenta, ambos com suas varinhas de castanheira e núcleo de pelo de unicórnio, até Ferristria, a gata malhada que eles resgataram de uma árvore ainda filhote e que nunca mais desgrudou dos dois estava pronta para a viagem. Assim foram se passando as horas, colocaram tudo na caminhonete de seu pai, a mãe os fez conferir tudo dezenas de vezes até ter certeza de que estava tudo pronto e assim partiram rumo à estação de trem.

– estação 9 ¾! – exclamou Chaplin.

– pela primeira vez, assim como Harry Potter. – Charles respondeu sorrindo.

O pai e a mãe estavam abraçados, as lagrimas do pai escorriam pelo rosto e eram absorvidas pelo bigode e barba enquanto a mãe tentava acalma-lo. – Logo eles estarão de volta querido, vai ter as férias e os feriados, vamos trocar cartas e mais cartas. Até logo meninos, já está na hora e lembrem-se, sejam orgulhosos lufanos.

– seremos mamãe. – responderam juntos e com firmeza, se olharam e deram as mãos usando aos outras para empurrar o carrinho e assim atravessaram direto para poder embarcar, mesmo conhecendo a magia eles não puderam evitar se impressionar, tantas pessoas, tantos bruxos reunidos e embarcando para o lugar mais magico do planeta, se olharam novamente e ouviram o trem chiar, alguém gritava que era hora de embarcar e assim eles se juntaram a muitos outros, rumo a Hogwarts.

A viagem de trem foi maravilhosa, a magia crescia a cada segundo e não parava mais, conheceram pessoas, varias outras crianças que também esperavam ansiosas pelo seu primeiro dia. Após desembarcarem foram rumo ao um campo onde foram guiados até um gigantesco lago e de lá puderam deslumbrar do castelo magnifico que os aguardava, foram de jangada pelo lago e não pararam de se maravilhar, Chaplin jurou ter visto uma sombra passar por de baixo deles e Charles riu. – Quem sabe é uma sereia para você se casar. – Entraram finalmente pelos corredores da escola e seguiram até um grande salão, em vez de teto eles viam o céu estrelado e milhares de velas flutuando, vários alunos estavam de pé aplaudindo a entrada deles, todo o salão estava dividido em quatro, representado as quatro casas enquanto dezenas de fantasmas dançavam entre as mesas e socializavam com os alunos. Com um sinal todos se calaram, uma mulher que aparentava ter uma idade bem avançada estava à frente de todos e se apresentou como Diretora Minerva Mcgonagall, ela sorria e seu rosto era uma mescla de gentileza e severidade, ela fez a saudação a todos e deu as primeiras instruções, aos novos e antigos alunos e então finalmente a cerimonia de seleção que eles tanto aguardavam.

O chapéu seletor estava diante de todos, um a um, cada aluno foi sendo chamado para sentar-se diante de todos para o chapéu anunciar qual casa eles iriam pertencer, a empolgação aumentava a cada segundo e toda vez que o nome Lufa-Lufa era dito a ansiedade e alegria aumentar mais e quando o nome Charles Woodgarden foi dito o coração dos dois quase pulou pela boca, Chaplin viu seu irmão seguindo em direção ao chapéu e sabia que ele estava tremulo, sabia que sua mão direita estava suando e se sentiu satisfeito ao ver seu irmão secar a mão em suas vestes antes de sentar na cadeira, seu rosto era um misto de felicidade e desespero, muito típico de Charles, não demorou muito para o chapéu gritar:
– LUFA-LUFA. – Todos da casa de Lufa-Lufa gritaram em comemoração e o olhar de Charles e Chaplin cruzou, Charles era a satisfação em pessoa.

– Chaplin Woodgarden. – foi o nome falado em seguida, era sua vez. Caminhou com tranquilidade até o chapéu e se sentou, pode olhar nos olhos de seu irmão que já estava sentado na mesa junto com outros Lufanos, “seu lugar está guardado” era o que seus olhos diziam.

– É isso mesmo? Estou vendo dobrado? – disse o chapéu fazendo Chaplin perder a concentração.  – Vejo em você muito de seu irmão e percebo agora que há muito de você nele também, você tem alguma duvida meu jovem?
– Não tenho, de forma alguma. – Chaplin estava tranquilo como sempre ficava em situações novas.

– Então eu posso te mandar para o lugar aonde você vai se encontra e vai descobrir mais de você do que você imagina que têm?

– sim… claro. – Foi estranho, não entendeu direito o que o chapéu quis dizer, mas isso não importava agora.

– Pois bem então, está decidido. – Chaplin sorriu com tranquilidade enquanto olhava para seu irmão e ouviu o chapéu gritar. – SONSERINA. – e o mundo parou de girar, o que aconteceu? Era isso mesmo? No meio de gritos e aplausos o chapéu foi retirado e Chaplin foi sendo empurrado até o meio dos outros da casa de Sonserina, mal conseguia respirar, tantos rostos, tantos gritos, apertos de mãos e sorrisos. Com um sinal os alunos se sentaram e outro nome foi chamado, a ansiedade dos outros alunos para ver quem seria o próximo a ir para uma das casas voltou e assim Chaplin foi esquecido, porém ele não se sentou, ainda estava de pé e em choque, teve medo, mas sabia que teria que fazer, respirou fundo virando a cabeça para o lado e assim olhou na direção da mesa da Lufa-Lufa, e lá estava ele como Chaplin já sabia; Charles também estava de pé, o único em pé de toda Lufa-Lufa, mas não havia o que falar, não havia o que pensar, alguém puxou Chaplin para que ele se sentasse e ao olhar de volta viu que Charles também havia sentado. Assim a cerimonia continuou até que o ultimo aluno novato fosse chamado e a diretora dava os últimos comprimentos antes da ceia começar, o coração de Charles estava acelerado e sua mente não conseguia se concentrar, o coração de Chaplin batia com pesar e sua mente procurava inutilmente por uma solução, pela primeira vez na vida havia uma barreira entre eles.

Apenas Uma Noite Tranquila 05

Cada esquina, cada canto, cada casa, todos os lugares estavam infestados e por cada lugar que ela passava mais deles vinham, estava sem folego, toda a força que havia ganhado antes já tinha desaparecido, suas articulações e músculos doíam, seus olhos ardiam, sentiu a boca seca e quando olhou para trás não queria acreditar, a morte caminhava em sua direção como uma onda De horror e o som que ela produzia lhe dava arrepios, um coro fúnebre de gemidos que lembravam a ódio, dor, desespero e lamentação, em outra situação sentiria pena delas, mas nesse momento sua cabeça não conseguia pensar em muita coisa, se concentrava apenas em continuar correndo, e estava correndo cada vez mais devagar, logo não corria mais, estava trotando apenas, a principio se manteve a uma boa distancia da maioria deles, mas por pouco tempo, sem conseguir seguir em frente virou em uma rua qualquer à esquerda, nem mesmo pensou que poderia estar entrando numa situação ainda pior, nem imaginou que a rua poderia estar infestada também ou que fosse uma rua sem saída, entrou na rua, deu alguns passos e caiu, seu corpo doía mais do que já havia doido antes, sentiu vontade de vomitar e sabia que estava vulnerável ali, caída e indefessa e a mercê do destino inevitável, podia os ouvir chegando, ouvir seus lamentos e desejos de sangue, nesse momento soube novamente que ainda não estava pronta para se entregar, iria contar com a sorte mais uma vez e usou as ultimas forças que lhe restaram para rolar para o lado, ela encaixou perfeitamente, nunca havia estado de baixo de um carro antes, e era como se estivesse sido cronometrado, a horda inumana avançou pela esquina, centenas deles vinham vagarosos e desajeitados, Carla tampou a boca e quis fechar os olhos, mas esses ficaram abertos e vidrados enquanto eles passavam e continuaram passando, mais uma vez a sensação de que o tempo havia parado, eles continuavam virando a esquina e passando direto por ela, nenhum deles havia pesando em olhar debaixo daquele carro, eles não pareciam capazes de pensar, apenas faziam coisas simples, eram menos que animais e mesmo assim eram terríveis, parecia interminável, eles vinham e continuavam vindo, estava cercada novamente, seu corpo parecia que estava prestes a desmoronar e não podia graças a toda tensão, então finalmente, após o que parecia ser uma eternidade a horda se foi, alguns ainda ficaram perambulando de um lado ao outro, outros simplesmente pararam ali e ficaram, Carla continuou esperando e esperando, por fim seu corpo e sua mente cederam e ela finalmente desmaiou de exaustão.

Acordou assustada, uma dor latejava em sua nuca, estava tudo escuro, demorou alguns segundos para se localizar, havia batido a cabeça com força em alguma peça do carro e sentiu o quente sangue escorrer pelo pescoço, parecia não ter chamado à atenção de nenhum deles, conseguiu ver apenas três sombras paradas próximas do carro, então continuou ali, estava sentido frio, sede e fome, seu corpo ainda estava todo dolorido e sua mente cansada implorava para que ela caísse no sono novamente, lutou contra isso o máximo que pode e todo o tempo que ficou embaixo do carro foi entre pequenos cochilos e a luta constante para se manter acordada. Sentindo o queixo batendo contra o chão acordou de novo, algum tempo havia passado, a luz do sol já alcançava o topo dos prédios e agora podia enxergar perfeitamente, estava sozinha, alguma coisa havia chamado à atenção das sentinelas que estavam ali antes, mesmo assim esperou alguns minutos para poder sair de seu esconderijo, tinha certeza de que se precisasse se esconder ali novamente provavelmente não teria a mesma sorte, mesmo assim precisava achar um lugar para fazer suas necessidades fisiológicas. Em um beco conseguiu se aliviar, se limpou como pode, mas não fazia muita diferença, estava completamente imunda, ela também não se importava muito nesse instante, um banho seria bem vindo, mas se pudesse escolher, uma boa refeição seria bem melhor. Depois de toda adrenalina e agora com o sangue mais frio ela sentia seus músculos latejando e mancava um pouco na perna esquerda, torceu um pouco o tornozelo em algum momento, jamais se lembraria de qual, andou por mais becos e constatou que sabia onde estava, pensou que tivesse atravessado a cidade de tanto que correu, a verdade era que ela estava apenas alguns quarteirões de seu prédio, então se escondeu em lixeiras e dentro de um ou outro carro, não encontrou nada além de restos podres de comida, tentou comer as que pareciam menos repugnantes e mesmo com a fome que tinha, ainda não era suficiente para comer fungos e outras coisas em decomposição, queria entrar em alguma loja, mas todas elas estavam enfestadas e se chamasse a atenção de um deles, acabaria chamando a atenção de todos novamente, assim passou por mais um dia, seu estomago se contraia e doía, se encolheu dentro de uma lixeira e assim ficou durante toda a noite, ouviu por umas três vezes os passos lentos e gemidos rítmicos das criaturas lá fora, sempre sentia um aperto no coração, um frio na barriga, a tenção era extrema e quando eles passavam e depois sumiam o alivio era bem vindo, mas nunca durava por muito tempo.

Não aguentou ficar mais um dia sem beber água e comer, teria que arriscar entrar em alguma loja ou casa, as casas pareciam mais seguras, ou seja, eram mais perigosas na verdade, não se podia ver se havia algum deles lá dentro, poderia ser uma armadilha mortal, o supermercado estava cheio deles, podia ver muitos deles andando de um lado para o outro então decidiu arriscar a padaria. Antigamente, ou seja, antes dessa loucura acontecer, sempre ia à padaria com seu pai, o dono era um senhor bonzinho que sempre lhe presenteava com elogios e doces, imaginou que agora ele também seria um deles. Andou espreitando pelas ruas, ela havia tido uma ideia estupida que mesmo imaginando que não funcionaria preferiu arriscar, com uma velha caixa de papelão mofado e quase seco que havia achado fez o que queria que fosse uma camuflagem, apenas abriu a caixa o máximo que pode e usou para tentar cobrir o máximo do corpo quando precisasse parar, andava lentamente encostada na parede e ao menor sinal de perigo colava o papelão no corpo e se encolhia o máximo que podia e se sentia estupida, muito estupida mesmo e quando seu plano funcionou no momento em que uma das criaturas passou por ela sem nem a notar ficou mais surpresa do que contente. O que antigamente seria uma caminhada de poucos minutos se tornou uma odisseia de varias horas, se escondendo e esperando e pela primeira vez podia observar aqueles seres de perto, se lembrou dos filmes de zumbis estúpidos que seus primos assistiam, não era como aquilo, eles não queriam comer cérebros e eles nem eram tão lentos, eram apenas desajeitados, e o mais terrível eram os olhos, aquele olhar vazio e ao mesmo tempo cheio de sentimentos ruins, junto aos gemidos então? Sempre iriam lhe dar arrepios. Quando finalmente chegou a padaria o dia já havia passado de sua metade e uma fina chuva caia do céu, antes de ter coragem para entrar na padaria ela olhou por todas as janelas que pode, parecia vazio lá dentro, mas não iria confiar tão fácil, não depois do apartamento do sexto andar, as janelas estavam sujas e todas trancadas, logo pensou que a porta também estaria e desanimada foi conferir, realmente a porta deveria estar trancada, isso até alguém arrombá-la, a porta estava entreaberta e ela podia ver claramente a  maçaneta quebrada, olhou em volta para ter certeza que nenhum observador indesejado tivesse percebido e então como uma gatuna ela entrou quase rastejando, lentamente e bem atenta foi olhando cada canto da padaria, começou pelo balcão, passou para as mesas, conferiu o banheiro, a porta dos fundos, a dispensa e todos os cantos que pode, estava fazia, assim também quase estava de mantimentos, alguém havia tido a mesma ideia que ela, era obvio, afinal alguém havia arrombado a porta, sabe-se lá quantos sobreviventes passaram por ali ao invés de tentar a sorte no mercado? Muitos provavelmente, mesmo assim não foi de muito infortúnio, achou duas embalagens fechadas de biscoito perdidas entre as prateleiras, uma lata de milho que lhe custou muito tempo até desisti de abri-la e um tesouro, uma barra de chocolate, comeu lentamente, se pudesse a faria durar por mais de um ano, infelizmente não durou mais do que algumas horas, estava com muita fome para pensar em racionamento. O segundo maior tesouro foi a água, ela não quis tomar banho, teve medo de ser surpreendida, mas bebeu o máximo que pode, se surpreendeu com a sede que estava, água nunca havia sido tão saborosa em toda sua vida, tentou achar alguma garrafa para levar, não teve sucesso, mesmo assim estava contente, apesar de não conseguir dormir direito, teve uma noite melhor do que a que passou de baixo do carro ou na lixeira, e o principal, lá dentro estava seco.

Acordou dolorida, já estava se habituando à sensação, não gostava é claro, apenas a estava incomodando menos do que antes. Queria dormir mais, queria ter uma cama gostosa e um cobertor quente, lá fora o barulho da chuva lhe trazia boas lembranças, estava escuro ainda então esperou o dia amanhecer. Ficou sentada e encolhida no próprio corpo quando os primeiros raios de sol iluminarem as ruas, olhando por cada janela, sempre espreitando para ter certeza que não havia nenhum visitante indesejado foi beber água e utilizar o banheiro, essas pequenas coisas que antes nem prestava a atenção agora eram sua maior felicidade, usar um banheiro e teve coragem de abrir a água e limpar um pouco seu corpo, foi bem rápido e se sujou novamente ao vestir as suas roupas, mas mesmo assim se sentiu mais leve que antes, não deu descarga para não chamar a atenção e em seus pensamentos desejava apenas uma roupa mais seca, limpa e principalmente que tivesse aguentado e não comido todo o chocolate. Estava pronta agora, logico que sua situação poderia ser bem melhor, também poderia ser bem pior, havia escapado da morte diversas vezes, pensando na desventura que teve no seu prédio, parecia que tinha acontecido há meses e não há pouco dias, olhou para o papelão que havia usado de camuflagem, estava praticamente em pedaços, também o tinha utilizado de cama e agora não poderia usar para camuflar novamente, também ele não aguentaria. Lá fora a chuva caia, não era das mais fortes que Carla já havia visto, mas também não era das mais fracas, então ela pensou que poderia ser uma vantagem, aqueles zumbis não era muito espertos no fim das contas e andar na chuva também não era a coisa mais fácil, se prestasse a atenção no caminho e se seu tênis não escorregasse talvez ela pudesse entrar e depois fugir do mercado com uma ou duas coisas, o plano era estupido, ela sabia, mas teria que arriscar, já tinha decidido, sairia da cidade em seguida, ficar ali seria sua morte certa e não poderia contar com a sorte sempre, pelo menos não ali, acreditava que uma hora a sorte se esgotaria e ela se veria cercada, seria devorada ou pior, seria transformada daquelas coisas horríveis, não, ela não deixaria isso acontecer, sairia da cidade e encontraria o lugar seguro que a televisão falou, andaria pela estrada e encontraria comida no caminho, inocentemente pensava que poderia caçar algum animal ou encontraria algo que a iria salvar, já havia perdido muito da sua mentalidade de criança, mas a esperança e fantasia nunca haviam desaparecido completamente, talvez fossem elas que a mantiveram viva, para seu bem ou para seu mal, mas ainda sim ela estava milagrosamente viva.

Não tinha mochila, nem faca ou lanterna, a fome era uma companhia tão constante que já nem lhe dava coragem, a coragem já estava mesclada em seu corpo e alma, ela fazia o que tinha que fazer, tinha medo é claro, medo de morrer e medo de viver, não perdia seu tempo pensando no dia de amanhã, pensava apenas no agora, e agora estava determinada a sair desse lugar amaldiçoado. Respirou fundo e deu o primeiro passo para fora da padaria, à chuva caia pesada em sua cabeça e corpo, já estava acostumada com o cabelo curto, mas ainda estranhava a leveza da cabeça, parecia menos protegida, ainda assim água da chuva dava mais alivio do que pesar, olhou para os lados, tudo parecia bem tranquilo, mas por quanto tempo ela não saberia. Correu por alguns quarteirões e ficou fadigada rápido, a chuva pesava suas roupas e não tinha muito folego então logo se limitou a andar rapidamente ou trotar por alguns pontos que se sentia vulnerável, começou a chamar a atenção de uma ou outra criatura e constatou que se a chuva a atrapalhava, realmente era pior para eles. O único problema? Ela se cansava e parecia que eles não, mas agora também já era muito tarde para voltar a trás, então continuou até chegar próxima ao mercado e vendo que um pequeno grupo já começava, mesmo que com dificuldade, a segui-la deu uma puxada nos seus passos, logo estava correndo, mesmo que não com tanto esforço, o ar parecia ter ficado pesado e por um breve momento pensou em cair no chão e desistir, não conseguiu, jamais conseguiria simplesmente desistir e quando viu o mercado adiante pareceu que sua força havia sido renovada, quatro deles estavam próximos ao mercado e ela passou por eles mais rápido do que eles podiam reagir, entrou no mercado fazendo um barulho estridente enquanto deslizava com seu tênis no escorregadio chão quase sem conseguir parar, estava completamente molhada, com respiração pesada e bufando, queria chorar nesse momento; eram muitos lá dentro, se arriscasse entra um pouco mais para pegar algo, com certeza não sairia dali e todos eles estavam olhando para ela, e começaram os gemidos, primeiro um, depois outro e logo todos eles estavam em seu lamento de fúria, o som estava cada vez mais alto, ecoando por todo o mercado e ao mesmo tempo eles avançaram. Retomando rapidamente o equilíbrio se voltou para a saída, os que estavam a seguindo do lado de fora já estavam bem próximos, ainda sim era uma pequena dezena se comparado a centena que estava avançando agora, ela passou pelos três que já havia passado antes, mesmo cansada ela ainda estava mais ágil que eles, o problema foi com o resto que estava do lado de fora, Carla olhava para um lado e lá estavam uns cinco, para o outro havia mais quatro, dos prédios e carros surgiam mais alguns e do mercado o verdadeiro inferno se aproximava, se lembrou da situação que estava quando saiu do seu prédio, teve que correr muito e teve sorte de achar um carro para se esconder, queria olhar e pensar no melhor caminho para seguir, infelizmente não dispunha de tempo então simplesmente correu para o lado que tinha menos deles, aproveitava a rua larga para ter uma distancia maior entre ela e eles, mas a cada passo que percorria maior era o numero deles que surgia, nem queria olhar para trás, podia ouvir seus gemidos, sabia que estavam perto, a chuva estava pesada, seu tornozelo ainda doía, assim como seus músculos, nem correu muito dessa vez, nem mesmo avançou um quarteirão direito e já estava cambaleando, não dava mais, estava esgotada, sua velocidade foi diminuindo até quase parar, seus pés mal saiam do chão, estava se arrastando em pé. A água da chuva caia forte em seu corpo e lhe dava tranquilidade, deixou que escorresse para seus lábios, sua respiração era profunda e era abafada  pelos gemidos de fúria, seu olhos estavam semicerrados, viu um deles se aproximando rapidamente pela frente, quis reagir mas não conseguiu nada além de dar um meio passo para o lado, ele a agarrou com seus braços fortes, estava molhado assim como ela, não se incomodou com isso, entregou seu corpo completamente para ele e imaginou se iria doer muito, imaginou se seria rápido ou se sofreria muito, pode sentir o hálito quente próximo de seu rosto, fechou as mãos pressionando os dedos antecipando a dor que iria sentir, um barulho feito um trovão ecoou do seu lado, sentiu seu corpo todo vibrando, o susto a despertou do seu transe, podia sentir um cheiro muito forte de algo queimado,  um segundo trovão veio e depois um terceiro, sentiu uma pressão forte no abdômen quando seu captor a levantou, ela estava no em cima de seu ombro agora e ele começou a correr.

Apenas Uma Noite Tranquila 04

Percebeu que estava há muitos minutos com o garfo parado enquanto olhava para aquele porta retrato, em seu devaneio havia elogiado a menina na foto, uma garota bonita realmente, se surpreendeu quando se lembrou de que a menina na foto era ela mesma. Era engraçado, foto não tinha nem um ano que havia sido tirada, ela já havia esquecido essas coisas, parecia que a vida toda foi daquele jeito, sentia como se já tivesse passado muitos anos e o mais engraçado e que achou a menina da foto linda, enquanto nessa época se achava a mais feia e desengonçada de todas. Tudo havia mudado tão rápido, não saberia dizer se havia amadurecido ou se havia aprendido a sobreviver, tinha certeza de que quando pusesse os pés lá fora não irá durar muito tempo, não tinha mais medo de morrer, todos que conheciam já haviam morrido ou estavam na situação de seus pais, preferia acreditar que a alma deles havia encontrado a paz também, por fim, a morte até seria bem vinda, mas não conseguiria suicidar e não vai deixar ser devorada, enquanto puder vai se segurar na única coisa que lhe pertence, vai se segurar na sua vida até o ultimo instante. Terminou de comer, lavou os pratos, limpou a casa, afinal era sempre bom arrumar algo para passar o tempo, mesmo depois desse tempo todo, não havia se acostumado com todos os incessantes gemidos e batidas de seus pais, quando a bateria de seu Ipod acabou pensou que iria enlouquecer, talvez tenha enlouquecido de verdade, nessa altura das coisas nem importava mais, não conseguia dormir direito também, tinha apenas sono picado, sempre abria os olhos e olhava em volta, conferia todas as portas, todos os cômodos da casa, só assim conseguiria fechar os olhos novamente, para logo depois abri-los de novo e repetir sua paranóica rotina, às vezes queria apenas ter uma noite tranquila.

Estava se sentindo cada vez mais doente, estava desanimada e desmotivada, já não tinha muito apetite, o que não significava muito, sua comida já estava acabando novamente, comia cada vez menos e mesmo assim parecia que a comida sumia, ou talvez seja o tempo que estava passando mais rápido. Havia escutado tiros essa noite, não se importou muito, isso agitava as criaturas, mas nunca duravam muito tempo então já estava pronta para sair novamente. Com outra faca, a mesma mochila nas costas e lanterna na mão trancou seu apartamento e saiu, seus pais estavam terrivelmente agitados, podia ouvi-los mesmo com a porta fechada; passou a mão no cabelo e pensou no apartamento do sexto andar, teve que respirar fundo para dar o próximo passo. O corredor estava pouco iluminado, lá fora o tempo estava fechado, havia chovido e isso apenas deixava Carla desconfortável, teve que usar a lanterna assim que chegou nas escadas, talvez Carla estivesse desconcentrada ou segura de mais da sua situação e graças à penumbra que o corredor se encontrava ela não percebeu a sombra que lentamente surgia da escada que vinha do décimo segundo andar.

No quinto andar todas as portas estavam fechadas, no quarto, terceiro, segundo e primeiro também e isso foi um duro golpe em seu coração, abaixo estaria o hall de entrada e saída e nem imaginava o que poderia encontrar por lá, enquanto para cima poderia ter melhores oportunidades se não fosse o senhor Nicolau no meio do caminho, então pensou um pouco e decidiu descer para o hall e finalmente ver como estavam as coisas lá em baixo. Antes mesmo de terminar as escadas ela pode apagar a lanterna, mesmo com o tempo nublado a luz do dia entrava melhor pelas vidraças que cercavam quase todo o lugar, estava como ela se recordava, havia a grande bancada onde ficava o porteiro, os quadros e a televisão próxima as poltronas de espera, o grande tapete e os vários vasos de flores, o problema era que as flores estavam mortas, assim como todas aquelas pessoas que estavam em pé ou escoradas nos cantos, não teve tempo para conta-los, pois escondeu sua cabeça na mesma velocidade que a havia posto para fora da escada, subiu de costas o mais lento que pode, não podia fazer nenhum barulho, seu coração batia feito um tambor, sentiu a bile subir pela garganta, quando chegou na segunda parte da escada que levaria ao primeiro andar teve certeza que não foi seguida, então continuou a subir com mais velocidade, ainda com cuidado para não fazer nenhum barulho.  Um golpe terrível da sorte, as portas de baixo acabaram e o hall estava enfestado, agora teria que bolar um bom plano, ir lá para fora ainda parecia uma ideia absurda, talvez então conseguisse acessar as janelas dos apartamentos trancados, bem, pensaria em algo em breve, estava quase otimista quanto a isso, mas esse otimismo não duraria muito tempo.

Antes de terminar de subir a escada que levava para o sétimo andar Carla ouviu o gemido, a principio ignorou, afinal, em vários dos apartamentos haviam criaturas dentro, felizmente a maioria estava trancada lá dentro também, novamente o gemido chamou sua atenção, ele estava nítido, bem próximo na verdade, olhou para trás pensando que poderia ter sido seguida e percebeu que a lanterna estava desligada ainda, ligou a luz e viu que não havia ninguém atrás então se voltou para frente, e lá estava ele, exatamente como ela o havia visto da ultima vez, o uniforme dos correios, o rosto muito mais envelhecido, aqueles olhos vazios e famintos, ele estava muito próximo, ela pode sentir seu hálito podre enquanto as duas mãos cadavéricas tentaram lhe agarrar, suas pernas fraquejaram novamente e pela primeira vez para seu bem, Carla caiu e escorregou pela escada que levaria ao sexto andar e por sorte escapando do abraço mortal do senhor Nicolas que em resposta soltou um chiado horrível, era como se estivesse frustrado. Ele avançou novamente e Carla se recuperou da queda, não havia machucado e ganhou uma distancia que pode usar,  passou pelo sexto andar sem olhar para os lados, desceu as escadas para o quinto como nunca havia descido escadas antes, continuou até o quarto andar e se lembrou do hall, não poderia ir para lá, seria morte certa, então em um ato desesperado tentou abrir as portas do quarto andar e como resposta ouviu batidas e gemidos dos outros lados das portas, de todas elas, correu para a escada rumo ao terceiro andar e viu o vulto descendo as escadas de forma desengonçada , porém rápida o suficiente. Tentou novamente as portas do terceiro andar e novamente teve como resposta batidas e gemidos, parecia que todos os andares de baixo estavam infestados, não sabia se para sua sorte ou azar que todas as portas estavam trancadas, então correu novamente, no segundo andar todas as portas já estavam em um ritmo doentio de batidas, arranhões e gemidos, parecia que o prédio inteiro havia despertado, então não havia jeito, era tudo ou nada, ou saia do prédio ou morreria nele.

Estava sem folego quando chegou na metade das escadas, segurou o ar quando se voltou para o resto do caminho, um homem de rosto deformado e que vestia o que um dia foi um lindo terno de linho a estava aguardando, Carla recuou enquanto ele gemia e avançava em sua direção e  também pode ouvir os gemidos e passos do senhor Nicolas logo acima, pensou em sua mãe quando ainda viva, seu olhos cheio de lagrimas não derramaram nenhuma gota dessa vez, agora era sua vez e não tinha muito o que fazer e mesmo assim veio aquele sentimento, um sentimento forte e selvagem, queria viver, independente de qualquer coisa, ela queria viver e se agarraria a sua vida com todas as forças que tinha, tomou um impulso e ganhou uma força que não conhecia, encarou o homem de terno e se jogou em sua direção, ele mesmo parecia não esperar por esse movimento e de forma desengonçada também avançou na direção da garota, a agarrou com força com suas duas mão e cravou seus dentes com toda voracidade que tinha, nesse instante que Carla aproveitou a oportunidade para soltar sua mochila das costas enquanto a criatura tentava inutilmente se alimentar do náilon cordura que compunha sua mochila, infelizmente teve que largar sua faca e lanterna, um preço pequeno a se pagar pela vida que tentava com todas as forças manter. Agora vinha a parte arriscada, estava no hall, uma olhada rápida pelos cantos e viu que já estava cercada, eram muitos, mais de dez com certeza, alguns rostos conhecidos e outros não, todos eles incitados pela sua presença avançaram gemendo e sedentos por um pedaço dela, então Carla nunca foi tão feliz em ser magra, fintou a porta de entrada e saída do prédio e correu em sua direção com toda convicção que pode, conseguiu desviar dos três que estavam em seu caminho e em apenas alguns passos sentiu o vento que vinha fresco do lado de fora. Foi menos que um segundo de felicidade, se dentro do prédio estava ruim, o lado de fora estava bem pior e agora podia confirmar com os próprios olhos o porque dos barulhos de tiro e os gritos nunca durarem muito tempo, havia centenas ali, parecia muito mais do que quando ela os olhava de seu apartamento, eles estavam dentro de carros, dentro de outros prédios e espalhados por todas as ruas e todos eles começaram a prestar a atenção nela, um a um eles foram gemendo e gritando e a atenção de todos os outros ia sendo chamada, logo uma onda de gemidos e corpos vinham em direção da pequena garota, então ela correu.