Apenas Uma Noite Tranquila 04

Percebeu que estava há muitos minutos com o garfo parado enquanto olhava para aquele porta retrato, em seu devaneio havia elogiado a menina na foto, uma garota bonita realmente, se surpreendeu quando se lembrou de que a menina na foto era ela mesma. Era engraçado, foto não tinha nem um ano que havia sido tirada, ela já havia esquecido essas coisas, parecia que a vida toda foi daquele jeito, sentia como se já tivesse passado muitos anos e o mais engraçado e que achou a menina da foto linda, enquanto nessa época se achava a mais feia e desengonçada de todas. Tudo havia mudado tão rápido, não saberia dizer se havia amadurecido ou se havia aprendido a sobreviver, tinha certeza de que quando pusesse os pés lá fora não irá durar muito tempo, não tinha mais medo de morrer, todos que conheciam já haviam morrido ou estavam na situação de seus pais, preferia acreditar que a alma deles havia encontrado a paz também, por fim, a morte até seria bem vinda, mas não conseguiria suicidar e não vai deixar ser devorada, enquanto puder vai se segurar na única coisa que lhe pertence, vai se segurar na sua vida até o ultimo instante. Terminou de comer, lavou os pratos, limpou a casa, afinal era sempre bom arrumar algo para passar o tempo, mesmo depois desse tempo todo, não havia se acostumado com todos os incessantes gemidos e batidas de seus pais, quando a bateria de seu Ipod acabou pensou que iria enlouquecer, talvez tenha enlouquecido de verdade, nessa altura das coisas nem importava mais, não conseguia dormir direito também, tinha apenas sono picado, sempre abria os olhos e olhava em volta, conferia todas as portas, todos os cômodos da casa, só assim conseguiria fechar os olhos novamente, para logo depois abri-los de novo e repetir sua paranóica rotina, às vezes queria apenas ter uma noite tranquila.

Estava se sentindo cada vez mais doente, estava desanimada e desmotivada, já não tinha muito apetite, o que não significava muito, sua comida já estava acabando novamente, comia cada vez menos e mesmo assim parecia que a comida sumia, ou talvez seja o tempo que estava passando mais rápido. Havia escutado tiros essa noite, não se importou muito, isso agitava as criaturas, mas nunca duravam muito tempo então já estava pronta para sair novamente. Com outra faca, a mesma mochila nas costas e lanterna na mão trancou seu apartamento e saiu, seus pais estavam terrivelmente agitados, podia ouvi-los mesmo com a porta fechada; passou a mão no cabelo e pensou no apartamento do sexto andar, teve que respirar fundo para dar o próximo passo. O corredor estava pouco iluminado, lá fora o tempo estava fechado, havia chovido e isso apenas deixava Carla desconfortável, teve que usar a lanterna assim que chegou nas escadas, talvez Carla estivesse desconcentrada ou segura de mais da sua situação e graças à penumbra que o corredor se encontrava ela não percebeu a sombra que lentamente surgia da escada que vinha do décimo segundo andar.

No quinto andar todas as portas estavam fechadas, no quarto, terceiro, segundo e primeiro também e isso foi um duro golpe em seu coração, abaixo estaria o hall de entrada e saída e nem imaginava o que poderia encontrar por lá, enquanto para cima poderia ter melhores oportunidades se não fosse o senhor Nicolau no meio do caminho, então pensou um pouco e decidiu descer para o hall e finalmente ver como estavam as coisas lá em baixo. Antes mesmo de terminar as escadas ela pode apagar a lanterna, mesmo com o tempo nublado a luz do dia entrava melhor pelas vidraças que cercavam quase todo o lugar, estava como ela se recordava, havia a grande bancada onde ficava o porteiro, os quadros e a televisão próxima as poltronas de espera, o grande tapete e os vários vasos de flores, o problema era que as flores estavam mortas, assim como todas aquelas pessoas que estavam em pé ou escoradas nos cantos, não teve tempo para conta-los, pois escondeu sua cabeça na mesma velocidade que a havia posto para fora da escada, subiu de costas o mais lento que pode, não podia fazer nenhum barulho, seu coração batia feito um tambor, sentiu a bile subir pela garganta, quando chegou na segunda parte da escada que levaria ao primeiro andar teve certeza que não foi seguida, então continuou a subir com mais velocidade, ainda com cuidado para não fazer nenhum barulho.  Um golpe terrível da sorte, as portas de baixo acabaram e o hall estava enfestado, agora teria que bolar um bom plano, ir lá para fora ainda parecia uma ideia absurda, talvez então conseguisse acessar as janelas dos apartamentos trancados, bem, pensaria em algo em breve, estava quase otimista quanto a isso, mas esse otimismo não duraria muito tempo.

Antes de terminar de subir a escada que levava para o sétimo andar Carla ouviu o gemido, a principio ignorou, afinal, em vários dos apartamentos haviam criaturas dentro, felizmente a maioria estava trancada lá dentro também, novamente o gemido chamou sua atenção, ele estava nítido, bem próximo na verdade, olhou para trás pensando que poderia ter sido seguida e percebeu que a lanterna estava desligada ainda, ligou a luz e viu que não havia ninguém atrás então se voltou para frente, e lá estava ele, exatamente como ela o havia visto da ultima vez, o uniforme dos correios, o rosto muito mais envelhecido, aqueles olhos vazios e famintos, ele estava muito próximo, ela pode sentir seu hálito podre enquanto as duas mãos cadavéricas tentaram lhe agarrar, suas pernas fraquejaram novamente e pela primeira vez para seu bem, Carla caiu e escorregou pela escada que levaria ao sexto andar e por sorte escapando do abraço mortal do senhor Nicolas que em resposta soltou um chiado horrível, era como se estivesse frustrado. Ele avançou novamente e Carla se recuperou da queda, não havia machucado e ganhou uma distancia que pode usar,  passou pelo sexto andar sem olhar para os lados, desceu as escadas para o quinto como nunca havia descido escadas antes, continuou até o quarto andar e se lembrou do hall, não poderia ir para lá, seria morte certa, então em um ato desesperado tentou abrir as portas do quarto andar e como resposta ouviu batidas e gemidos dos outros lados das portas, de todas elas, correu para a escada rumo ao terceiro andar e viu o vulto descendo as escadas de forma desengonçada , porém rápida o suficiente. Tentou novamente as portas do terceiro andar e novamente teve como resposta batidas e gemidos, parecia que todos os andares de baixo estavam infestados, não sabia se para sua sorte ou azar que todas as portas estavam trancadas, então correu novamente, no segundo andar todas as portas já estavam em um ritmo doentio de batidas, arranhões e gemidos, parecia que o prédio inteiro havia despertado, então não havia jeito, era tudo ou nada, ou saia do prédio ou morreria nele.

Estava sem folego quando chegou na metade das escadas, segurou o ar quando se voltou para o resto do caminho, um homem de rosto deformado e que vestia o que um dia foi um lindo terno de linho a estava aguardando, Carla recuou enquanto ele gemia e avançava em sua direção e  também pode ouvir os gemidos e passos do senhor Nicolas logo acima, pensou em sua mãe quando ainda viva, seu olhos cheio de lagrimas não derramaram nenhuma gota dessa vez, agora era sua vez e não tinha muito o que fazer e mesmo assim veio aquele sentimento, um sentimento forte e selvagem, queria viver, independente de qualquer coisa, ela queria viver e se agarraria a sua vida com todas as forças que tinha, tomou um impulso e ganhou uma força que não conhecia, encarou o homem de terno e se jogou em sua direção, ele mesmo parecia não esperar por esse movimento e de forma desengonçada também avançou na direção da garota, a agarrou com força com suas duas mão e cravou seus dentes com toda voracidade que tinha, nesse instante que Carla aproveitou a oportunidade para soltar sua mochila das costas enquanto a criatura tentava inutilmente se alimentar do náilon cordura que compunha sua mochila, infelizmente teve que largar sua faca e lanterna, um preço pequeno a se pagar pela vida que tentava com todas as forças manter. Agora vinha a parte arriscada, estava no hall, uma olhada rápida pelos cantos e viu que já estava cercada, eram muitos, mais de dez com certeza, alguns rostos conhecidos e outros não, todos eles incitados pela sua presença avançaram gemendo e sedentos por um pedaço dela, então Carla nunca foi tão feliz em ser magra, fintou a porta de entrada e saída do prédio e correu em sua direção com toda convicção que pode, conseguiu desviar dos três que estavam em seu caminho e em apenas alguns passos sentiu o vento que vinha fresco do lado de fora. Foi menos que um segundo de felicidade, se dentro do prédio estava ruim, o lado de fora estava bem pior e agora podia confirmar com os próprios olhos o porque dos barulhos de tiro e os gritos nunca durarem muito tempo, havia centenas ali, parecia muito mais do que quando ela os olhava de seu apartamento, eles estavam dentro de carros, dentro de outros prédios e espalhados por todas as ruas e todos eles começaram a prestar a atenção nela, um a um eles foram gemendo e gritando e a atenção de todos os outros ia sendo chamada, logo uma onda de gemidos e corpos vinham em direção da pequena garota, então ela correu.

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