Apenas Uma Noite Tranquila 05

Cada esquina, cada canto, cada casa, todos os lugares estavam infestados e por cada lugar que ela passava mais deles vinham, estava sem folego, toda a força que havia ganhado antes já tinha desaparecido, suas articulações e músculos doíam, seus olhos ardiam, sentiu a boca seca e quando olhou para trás não queria acreditar, a morte caminhava em sua direção como uma onda De horror e o som que ela produzia lhe dava arrepios, um coro fúnebre de gemidos que lembravam a ódio, dor, desespero e lamentação, em outra situação sentiria pena delas, mas nesse momento sua cabeça não conseguia pensar em muita coisa, se concentrava apenas em continuar correndo, e estava correndo cada vez mais devagar, logo não corria mais, estava trotando apenas, a principio se manteve a uma boa distancia da maioria deles, mas por pouco tempo, sem conseguir seguir em frente virou em uma rua qualquer à esquerda, nem mesmo pensou que poderia estar entrando numa situação ainda pior, nem imaginou que a rua poderia estar infestada também ou que fosse uma rua sem saída, entrou na rua, deu alguns passos e caiu, seu corpo doía mais do que já havia doido antes, sentiu vontade de vomitar e sabia que estava vulnerável ali, caída e indefessa e a mercê do destino inevitável, podia os ouvir chegando, ouvir seus lamentos e desejos de sangue, nesse momento soube novamente que ainda não estava pronta para se entregar, iria contar com a sorte mais uma vez e usou as ultimas forças que lhe restaram para rolar para o lado, ela encaixou perfeitamente, nunca havia estado de baixo de um carro antes, e era como se estivesse sido cronometrado, a horda inumana avançou pela esquina, centenas deles vinham vagarosos e desajeitados, Carla tampou a boca e quis fechar os olhos, mas esses ficaram abertos e vidrados enquanto eles passavam e continuaram passando, mais uma vez a sensação de que o tempo havia parado, eles continuavam virando a esquina e passando direto por ela, nenhum deles havia pesando em olhar debaixo daquele carro, eles não pareciam capazes de pensar, apenas faziam coisas simples, eram menos que animais e mesmo assim eram terríveis, parecia interminável, eles vinham e continuavam vindo, estava cercada novamente, seu corpo parecia que estava prestes a desmoronar e não podia graças a toda tensão, então finalmente, após o que parecia ser uma eternidade a horda se foi, alguns ainda ficaram perambulando de um lado ao outro, outros simplesmente pararam ali e ficaram, Carla continuou esperando e esperando, por fim seu corpo e sua mente cederam e ela finalmente desmaiou de exaustão.

Acordou assustada, uma dor latejava em sua nuca, estava tudo escuro, demorou alguns segundos para se localizar, havia batido a cabeça com força em alguma peça do carro e sentiu o quente sangue escorrer pelo pescoço, parecia não ter chamado à atenção de nenhum deles, conseguiu ver apenas três sombras paradas próximas do carro, então continuou ali, estava sentido frio, sede e fome, seu corpo ainda estava todo dolorido e sua mente cansada implorava para que ela caísse no sono novamente, lutou contra isso o máximo que pode e todo o tempo que ficou embaixo do carro foi entre pequenos cochilos e a luta constante para se manter acordada. Sentindo o queixo batendo contra o chão acordou de novo, algum tempo havia passado, a luz do sol já alcançava o topo dos prédios e agora podia enxergar perfeitamente, estava sozinha, alguma coisa havia chamado à atenção das sentinelas que estavam ali antes, mesmo assim esperou alguns minutos para poder sair de seu esconderijo, tinha certeza de que se precisasse se esconder ali novamente provavelmente não teria a mesma sorte, mesmo assim precisava achar um lugar para fazer suas necessidades fisiológicas. Em um beco conseguiu se aliviar, se limpou como pode, mas não fazia muita diferença, estava completamente imunda, ela também não se importava muito nesse instante, um banho seria bem vindo, mas se pudesse escolher, uma boa refeição seria bem melhor. Depois de toda adrenalina e agora com o sangue mais frio ela sentia seus músculos latejando e mancava um pouco na perna esquerda, torceu um pouco o tornozelo em algum momento, jamais se lembraria de qual, andou por mais becos e constatou que sabia onde estava, pensou que tivesse atravessado a cidade de tanto que correu, a verdade era que ela estava apenas alguns quarteirões de seu prédio, então se escondeu em lixeiras e dentro de um ou outro carro, não encontrou nada além de restos podres de comida, tentou comer as que pareciam menos repugnantes e mesmo com a fome que tinha, ainda não era suficiente para comer fungos e outras coisas em decomposição, queria entrar em alguma loja, mas todas elas estavam enfestadas e se chamasse a atenção de um deles, acabaria chamando a atenção de todos novamente, assim passou por mais um dia, seu estomago se contraia e doía, se encolheu dentro de uma lixeira e assim ficou durante toda a noite, ouviu por umas três vezes os passos lentos e gemidos rítmicos das criaturas lá fora, sempre sentia um aperto no coração, um frio na barriga, a tenção era extrema e quando eles passavam e depois sumiam o alivio era bem vindo, mas nunca durava por muito tempo.

Não aguentou ficar mais um dia sem beber água e comer, teria que arriscar entrar em alguma loja ou casa, as casas pareciam mais seguras, ou seja, eram mais perigosas na verdade, não se podia ver se havia algum deles lá dentro, poderia ser uma armadilha mortal, o supermercado estava cheio deles, podia ver muitos deles andando de um lado para o outro então decidiu arriscar a padaria. Antigamente, ou seja, antes dessa loucura acontecer, sempre ia à padaria com seu pai, o dono era um senhor bonzinho que sempre lhe presenteava com elogios e doces, imaginou que agora ele também seria um deles. Andou espreitando pelas ruas, ela havia tido uma ideia estupida que mesmo imaginando que não funcionaria preferiu arriscar, com uma velha caixa de papelão mofado e quase seco que havia achado fez o que queria que fosse uma camuflagem, apenas abriu a caixa o máximo que pode e usou para tentar cobrir o máximo do corpo quando precisasse parar, andava lentamente encostada na parede e ao menor sinal de perigo colava o papelão no corpo e se encolhia o máximo que podia e se sentia estupida, muito estupida mesmo e quando seu plano funcionou no momento em que uma das criaturas passou por ela sem nem a notar ficou mais surpresa do que contente. O que antigamente seria uma caminhada de poucos minutos se tornou uma odisseia de varias horas, se escondendo e esperando e pela primeira vez podia observar aqueles seres de perto, se lembrou dos filmes de zumbis estúpidos que seus primos assistiam, não era como aquilo, eles não queriam comer cérebros e eles nem eram tão lentos, eram apenas desajeitados, e o mais terrível eram os olhos, aquele olhar vazio e ao mesmo tempo cheio de sentimentos ruins, junto aos gemidos então? Sempre iriam lhe dar arrepios. Quando finalmente chegou a padaria o dia já havia passado de sua metade e uma fina chuva caia do céu, antes de ter coragem para entrar na padaria ela olhou por todas as janelas que pode, parecia vazio lá dentro, mas não iria confiar tão fácil, não depois do apartamento do sexto andar, as janelas estavam sujas e todas trancadas, logo pensou que a porta também estaria e desanimada foi conferir, realmente a porta deveria estar trancada, isso até alguém arrombá-la, a porta estava entreaberta e ela podia ver claramente a  maçaneta quebrada, olhou em volta para ter certeza que nenhum observador indesejado tivesse percebido e então como uma gatuna ela entrou quase rastejando, lentamente e bem atenta foi olhando cada canto da padaria, começou pelo balcão, passou para as mesas, conferiu o banheiro, a porta dos fundos, a dispensa e todos os cantos que pode, estava fazia, assim também quase estava de mantimentos, alguém havia tido a mesma ideia que ela, era obvio, afinal alguém havia arrombado a porta, sabe-se lá quantos sobreviventes passaram por ali ao invés de tentar a sorte no mercado? Muitos provavelmente, mesmo assim não foi de muito infortúnio, achou duas embalagens fechadas de biscoito perdidas entre as prateleiras, uma lata de milho que lhe custou muito tempo até desisti de abri-la e um tesouro, uma barra de chocolate, comeu lentamente, se pudesse a faria durar por mais de um ano, infelizmente não durou mais do que algumas horas, estava com muita fome para pensar em racionamento. O segundo maior tesouro foi a água, ela não quis tomar banho, teve medo de ser surpreendida, mas bebeu o máximo que pode, se surpreendeu com a sede que estava, água nunca havia sido tão saborosa em toda sua vida, tentou achar alguma garrafa para levar, não teve sucesso, mesmo assim estava contente, apesar de não conseguir dormir direito, teve uma noite melhor do que a que passou de baixo do carro ou na lixeira, e o principal, lá dentro estava seco.

Acordou dolorida, já estava se habituando à sensação, não gostava é claro, apenas a estava incomodando menos do que antes. Queria dormir mais, queria ter uma cama gostosa e um cobertor quente, lá fora o barulho da chuva lhe trazia boas lembranças, estava escuro ainda então esperou o dia amanhecer. Ficou sentada e encolhida no próprio corpo quando os primeiros raios de sol iluminarem as ruas, olhando por cada janela, sempre espreitando para ter certeza que não havia nenhum visitante indesejado foi beber água e utilizar o banheiro, essas pequenas coisas que antes nem prestava a atenção agora eram sua maior felicidade, usar um banheiro e teve coragem de abrir a água e limpar um pouco seu corpo, foi bem rápido e se sujou novamente ao vestir as suas roupas, mas mesmo assim se sentiu mais leve que antes, não deu descarga para não chamar a atenção e em seus pensamentos desejava apenas uma roupa mais seca, limpa e principalmente que tivesse aguentado e não comido todo o chocolate. Estava pronta agora, logico que sua situação poderia ser bem melhor, também poderia ser bem pior, havia escapado da morte diversas vezes, pensando na desventura que teve no seu prédio, parecia que tinha acontecido há meses e não há pouco dias, olhou para o papelão que havia usado de camuflagem, estava praticamente em pedaços, também o tinha utilizado de cama e agora não poderia usar para camuflar novamente, também ele não aguentaria. Lá fora a chuva caia, não era das mais fortes que Carla já havia visto, mas também não era das mais fracas, então ela pensou que poderia ser uma vantagem, aqueles zumbis não era muito espertos no fim das contas e andar na chuva também não era a coisa mais fácil, se prestasse a atenção no caminho e se seu tênis não escorregasse talvez ela pudesse entrar e depois fugir do mercado com uma ou duas coisas, o plano era estupido, ela sabia, mas teria que arriscar, já tinha decidido, sairia da cidade em seguida, ficar ali seria sua morte certa e não poderia contar com a sorte sempre, pelo menos não ali, acreditava que uma hora a sorte se esgotaria e ela se veria cercada, seria devorada ou pior, seria transformada daquelas coisas horríveis, não, ela não deixaria isso acontecer, sairia da cidade e encontraria o lugar seguro que a televisão falou, andaria pela estrada e encontraria comida no caminho, inocentemente pensava que poderia caçar algum animal ou encontraria algo que a iria salvar, já havia perdido muito da sua mentalidade de criança, mas a esperança e fantasia nunca haviam desaparecido completamente, talvez fossem elas que a mantiveram viva, para seu bem ou para seu mal, mas ainda sim ela estava milagrosamente viva.

Não tinha mochila, nem faca ou lanterna, a fome era uma companhia tão constante que já nem lhe dava coragem, a coragem já estava mesclada em seu corpo e alma, ela fazia o que tinha que fazer, tinha medo é claro, medo de morrer e medo de viver, não perdia seu tempo pensando no dia de amanhã, pensava apenas no agora, e agora estava determinada a sair desse lugar amaldiçoado. Respirou fundo e deu o primeiro passo para fora da padaria, à chuva caia pesada em sua cabeça e corpo, já estava acostumada com o cabelo curto, mas ainda estranhava a leveza da cabeça, parecia menos protegida, ainda assim água da chuva dava mais alivio do que pesar, olhou para os lados, tudo parecia bem tranquilo, mas por quanto tempo ela não saberia. Correu por alguns quarteirões e ficou fadigada rápido, a chuva pesava suas roupas e não tinha muito folego então logo se limitou a andar rapidamente ou trotar por alguns pontos que se sentia vulnerável, começou a chamar a atenção de uma ou outra criatura e constatou que se a chuva a atrapalhava, realmente era pior para eles. O único problema? Ela se cansava e parecia que eles não, mas agora também já era muito tarde para voltar a trás, então continuou até chegar próxima ao mercado e vendo que um pequeno grupo já começava, mesmo que com dificuldade, a segui-la deu uma puxada nos seus passos, logo estava correndo, mesmo que não com tanto esforço, o ar parecia ter ficado pesado e por um breve momento pensou em cair no chão e desistir, não conseguiu, jamais conseguiria simplesmente desistir e quando viu o mercado adiante pareceu que sua força havia sido renovada, quatro deles estavam próximos ao mercado e ela passou por eles mais rápido do que eles podiam reagir, entrou no mercado fazendo um barulho estridente enquanto deslizava com seu tênis no escorregadio chão quase sem conseguir parar, estava completamente molhada, com respiração pesada e bufando, queria chorar nesse momento; eram muitos lá dentro, se arriscasse entra um pouco mais para pegar algo, com certeza não sairia dali e todos eles estavam olhando para ela, e começaram os gemidos, primeiro um, depois outro e logo todos eles estavam em seu lamento de fúria, o som estava cada vez mais alto, ecoando por todo o mercado e ao mesmo tempo eles avançaram. Retomando rapidamente o equilíbrio se voltou para a saída, os que estavam a seguindo do lado de fora já estavam bem próximos, ainda sim era uma pequena dezena se comparado a centena que estava avançando agora, ela passou pelos três que já havia passado antes, mesmo cansada ela ainda estava mais ágil que eles, o problema foi com o resto que estava do lado de fora, Carla olhava para um lado e lá estavam uns cinco, para o outro havia mais quatro, dos prédios e carros surgiam mais alguns e do mercado o verdadeiro inferno se aproximava, se lembrou da situação que estava quando saiu do seu prédio, teve que correr muito e teve sorte de achar um carro para se esconder, queria olhar e pensar no melhor caminho para seguir, infelizmente não dispunha de tempo então simplesmente correu para o lado que tinha menos deles, aproveitava a rua larga para ter uma distancia maior entre ela e eles, mas a cada passo que percorria maior era o numero deles que surgia, nem queria olhar para trás, podia ouvir seus gemidos, sabia que estavam perto, a chuva estava pesada, seu tornozelo ainda doía, assim como seus músculos, nem correu muito dessa vez, nem mesmo avançou um quarteirão direito e já estava cambaleando, não dava mais, estava esgotada, sua velocidade foi diminuindo até quase parar, seus pés mal saiam do chão, estava se arrastando em pé. A água da chuva caia forte em seu corpo e lhe dava tranquilidade, deixou que escorresse para seus lábios, sua respiração era profunda e era abafada  pelos gemidos de fúria, seu olhos estavam semicerrados, viu um deles se aproximando rapidamente pela frente, quis reagir mas não conseguiu nada além de dar um meio passo para o lado, ele a agarrou com seus braços fortes, estava molhado assim como ela, não se incomodou com isso, entregou seu corpo completamente para ele e imaginou se iria doer muito, imaginou se seria rápido ou se sofreria muito, pode sentir o hálito quente próximo de seu rosto, fechou as mãos pressionando os dedos antecipando a dor que iria sentir, um barulho feito um trovão ecoou do seu lado, sentiu seu corpo todo vibrando, o susto a despertou do seu transe, podia sentir um cheiro muito forte de algo queimado,  um segundo trovão veio e depois um terceiro, sentiu uma pressão forte no abdômen quando seu captor a levantou, ela estava no em cima de seu ombro agora e ele começou a correr.

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