Apenas Uma Noite Tranquila – Final

Sentia-se um pouco desorientada, olhando para onde estava antes ela viu três corpos caídos ao chão e sua mente tentou trabalhar, a exaustão não deixou e ela acabou perdendo de vez a consciência. Acordou desesperada, alguma coisa segurava bem forte seus ombros e falava alguma coisa, era uma voz grossa e masculina, Carla abriu os olhos entrando em pânico e olhando diretamente para o homem a sua frente tentou escapar, se debateu, tentou gritar sem sucesso, sua boca apenas abriu e corpo torceu como se estivesse prestes a convulsionar. Ele ainda falava algo, repetia a mesma coisa, repedia sem parar e fazia de forma tranquila – você está salvo – era o que ele dizia – Vai ficar tudo bem. – quando Carla entendeu as palavras seu corpo cedeu, toda sua força se esvaziou como areia escapando de um saco furado, Carla ficou tonta e começou a chorar, soluçava como uma criança novamente, e as lagrimas vinham cada vez mais, sua garganta doía pelo esforço que fazia, ela não se importava com isso agora, o homem a abraçou bem forte. Estavam dentro de alguma casa, de tempos em tempos ele olhava pela janela e se sentava novamente, Carla se sentia mais calma, então eles ficaram calados por muito tempo, a horda os havia alcançado, mas não havia descoberto onde se esconderam, estavam passando desorientados e frustrados, caçando seus fugitivos. O homem que salvou sua vida era forte, tinha cabelos pretos e curtos e uma barba mal feita, podia ver algumas cicatrizes no rosto e no pescoço, em outra ocasião ela teria corrido dele, o teria achado com cara de perigoso, não era o que ela sentia, estava feliz, por mais que não conseguisse expressar nesse momento ela estava mais do que feliz, queria pular de alegria, pensava que nunca mais iria encontrar alguém vivo novamente, talvez pulasse de alegria realmente se seu corpo deixasse, estava tão dolorida que mal conseguia se mexer, seus olhos estavam pesados e estava com uma sensação de alivio que acalmava seu coração, lutou inutilmente para não dormir novamente. Acordou com a água fresca descendo pela sua garganta.

– está com fome? – timidamente acenou que sim com a cabeça. O homem sorriu e tirou da mochila duas daquelas barras de proteína horríveis que davam sensação de estufada que apenas seu pai comia, elas não eram horríveis mais, eram maravilhosas e se pudesse comeria mais e mais. – esta mesmo com fome em? A maioria deles já foram para outro lugar, vamos passar a noite aqui, pode dormir tranquilo. – Carla obedeceu quase que automaticamente, sentia que podia dormir para sempre.

Quando acordou o dia já estava claro, a chuva havia parado e imaginou quanto tempo havia dormido, estava mais dolorida que de costume, sentia muito frio e uma leve tontura, olhou para os lados procurando seu salvador e seu coração quase parou quando percebeu que ele não estava ali por perto, para sua felicidade ele logo apareceu.

– finalmente você acordou em? Eu pensei que teria de acorda-lo ou te levar dormindo mesmo. – ele sorria e parecia tranquilo, como alguém poderia estar tranquilo numa situação daquela? – qual o seu nome? – Carla não respondeu, não por que não queria responder, e sim porque havia percebido que não conseguia, fazia tanto tempo que não conversava com alguém que parecia ter esquecido como se faz, se limitou apenas a ficar olhando para ele. – depois você me fala então. Meu nome é Diego, bem, hora de ir embora, nossa carona está esperando.

Carla estava com os músculos tão fadigados que não conseguia ficar em pé, Diego a colocou em suas costas como seu pai fazia quando pequena, apenas lhe disse que se precisasse ela teria que descer, mas para não ter medo, ele não a deixaria para trás, ela confiou nele totalmente, então assim eles saíram. Carla via agora que ele carregava duas armas na cintura e tinha uma pochete, fora isso não parecia ter mais nada, ele correu com ela nas costas e parecia não se cansar, às vezes parava e olhava em volta, nesses momentos descia Carla e segurava uma de suas armas nas mãos, continuaram assim por um tempo e duas vezes pararem dentro de algum estabelecimento, em um deles se depararam com um dos mortos, era como Diego os chamavam e nessa hora ele retirou uma faca bem grande de sua bota e o matou com um golpe certeiro na cabeça, Carla se assustou um pouco apenas, o fato de se sentir segura com Diego a mantinha controlada; pensou na sua casa, quando saia levava uma faca e se imaginou fazendo o mesmo com o senhor Nicolau ou o do apartamento do sexto andar, será que teria conseguido? Bem, felizmente que não o fez, afinal, se não tivesse saído do prédio, jamais teria sido encontrada por Diego. Logo continuaram correndo pelas ruas, Carla se sentia um pouco melhor e quando não precisassem correr fazia sinal para Diego parar, assim ela poderia descer e ser um estorvo menor, mesmo assim eles avançavam bem devagar, não podiam chamar atenção, então paravam por muito tempo em vários pontos para evitar confrontos com grupos de mortos. Em um determinado momento eles pararam próximos ao mercado novamente, Diego a levou para uma esquina e a escondeu dentro de um carro, disse para esperar e assim ela fez, mesmo com pouco tempo passando, a imaginação a fazia pensar nas coisas mais terríveis, coisas como Diego ser pego pelos mortos ou até mesmo ter abandonado ela ali, se surpreendeu em saber que se algo assim ocorresse ela ficaria tranquila, muito mais do que deveria, pensaria em algo e sairia dali de algum jeito, sua força e esperança foram sendo restauradas, e o mais importante que isso, sua vontade de viver, mesmo assim ficou extremante feliz quando Diego retornou, ele estava carregando uma grande mochila de viagem que estava bem cheia.

– Eu estava no mercado quando você entrou. Não sei dizer se você estava sendo corajoso ou estupido, teve sorte, muita sorte mesmo. Agora vamos, logo vai anoitecer novamente, nossa saída é por ali.

Saiu do carro e agora andava ao lado de Diego, aparentemente sua estupida ideia de entrar no mercado garantiu para eles uma fuga mais tranquila da cidade por este caminho, antes estava repleto de mortos, agora se via apenas alguns solitários pelos cantos, Diego cuidava deles com facilidade utilizando sua faca, mesmo assim chegou um momento que o numero deles estava grande de mais, então começou a utilizar sua arma, agora Carla percebeu o porquê dele não a ter usado antes, cada vez que matava um, outro aparecia atraído pelo barulho que ecoava por toda a cidade, logo aquela horda gigantesca os alcançaria e começaria tudo de novo, correr e se esconder, se esconder e correr, esse pensamento a desanimou bastante, por quanto tempo mais aguentaria aquilo? Não muito provavelmente, estava fraca de mais, desnutrida e doente e seria um peso para Diego se tivesse que carrega-la, mas Diego não parecia estar preocupado, ele apenas olhava para ela e sorria como se fosse para acalma-la, assim ela parou de pensar, confiaria nele até o fim. O barulho de um carro era algo que ela não ouvia há muito tempo, eram dois deles que se aproximaram rapidamente, um passou por eles e outro ficou pouco atrás, alguns homens e mulheres desceram, eram seis no total e a sequencia de ensurdecedores barulhos de tiros começaram e cada disparo assustava Carla um pouco, por mais que ela tentasse acompanhar e esperar eles acontecerem ela sentia seu corpo inteiro vibrar, mas tudo isso não durou muito tempo, Diego colocou a mochila dentro do carro que havia ficado atrás deles, uma mulher morena estava esperando ao volante.

– Está atrasado Soldado, pensamos que tínhamos te perdido.

– Eu tive um contratempo Jú, temos um novo rapaz no grupo. – A mulher que ele chamou de Jú a olhou com espanto, Carla imaginava que sua aparência realmente estava terrível, o que não sabia era que o que realmente impressionava a mulher era o fato de uma criança ter sobrevivido ali sozinha.

– Parece que seu cérebro finalmente parou né Soldado? nem sabe mais diferenciar uma garota de um garoto mais?

– Garota? – Diego a olhou meio desconcertado. – Me desculpa, ora, mais é que…

– Ele nunca soube gata, é um panaca. – Disse outro homem rindo, um baixo e quase careca que entrava no carro enquanto guardava uma grande arma. – Vamos embora. – Logo estavam todos dentro do carro seguindo para fora da cidade, à mulher dirigia e o homem careca ia ao seu lado, atrás estavam Carla e Diego, o outro carro vinha logo atrás.

– Então você é uma garota? E não me disse nada? – Diego sorria enquanto falava, sua voz parecia ser sempre tranquila. – Vamos começar de novo, meu nome é Diego, eles me chamam de Soldado, aquela é Juliana, pode chamar de Jú. – A mulher acenou com a mão sem tirar os olhos da estrada. – e o mal educado ali é o Careca, mas se quiser pode chamar de Carlos. – Jú riu enquanto o Careca resmungava algum palavrão. – então, qual é seu nome?

– Car… – sua voz quase não saia. – Carla, meu nome é Carla. – Conseguiu dizer, sua voz estava um pouco rouca, parecia estranha até para ela, quanto tempo havia ficado sem falar?

– Ahm, então você realmente sabe falar em? Carla é um lindo nome, muito prazer Carla, agora você faz parte do grupo.

– Diego? – Jú o chamou. – Ela não me parece muito bem não.

– Está desnutrida e com febre, sabe-se lá o que ela passou por aqui, já faz quanto tempo? Cinco meses?

– Mais do que isso Diego. – Jú continuava falando sem tirar os olhos da estrada. – Então Carla? Você estava sozinha ou tinha mais alguém?

– Sozinha. – Ela disse com muito esforço, estava ficando sonolenta novamente. – Meus pais, no apartamento, eles… eram…

– Por Deus. – Jú olhou para trás agora, via o estado da garota e lagrimas brotaram nos seus olhos. – Como ela conseguiu?  – Diego a colocou no seu colo, estava um pouco quente de febre, suja e machucada, mas estava bem, e sorria enquanto o sono tomava conta de seu corpo novamente.

– Não se preocupe Carla, você vai ficar bem, vamos cuidar de você. – Carla não ouviu o que ele disse, mas de alguma forma era como se tivesse absorvido as palavras, seu corpo estava relaxado, a dor a abandonava temporariamente, sua mente entrava num sono tranquilo e sem sonhos, o barulho do carro e o colo de Diego a deixou mais confortável do que qualquer outra coisa há meses, era a primeira vez em muito tempo que ela se sentia tão segura, a viagem seria um pouco longa até o esconderijo daqueles sobreviventes, então foi ali mesmo, dentro daquele carro e dês de que todo esse pesadelo começou que Carla teve sua primeira noite tranquila.

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One thought on “Apenas Uma Noite Tranquila – Final

  1. Muito bacana e intenso. A parte que o Diego colocou as mãos nela pela primeira vez realmente deu muita aflição e foi surpreendente o não reconhecimento do sexo dela hahaha

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