Uma História em Hogwarts – Irmandade 03

A eternidade parecia finalmente ter um fim, após a tortuosa e extremamente detalhada aula do professor Binns, Chaplin finalmente se viu livre, já não aguentava mais evitar os constantes olhares de piedade de seu irmão, a todo o momento que ele se virava lá estava Charles o encarando e seus olhos dizendo “sinto muito”. Do que adiantava ele sentir muito? Nada iria mudar a realidade. Assim que o professor sumiu pela parede e os outros alunos começaram a sair da sala de aula que Chaplin se levantou, ele avançou em passos largos em direção a porta, era inútil ele sabia, por mais rápido que ele fosse não daria para fugir.

– Chaplin? – soou a voz inconfundível de seu irmão. Chaplin se virou determinado a encará-lo nos olhos, porém no instante em que seus olhos cruzaram ele desviou os seus para baixo. – Chaplin, eu Sint…

– eu sei. – Sua voz saiu mais alta e ríspida do que ele queria. Então falou novamente de forma mais suave. – Eu sei Char.

– o que vamos fazer?

– nada.

– mas a mamãe está esperando nossa carta! – Chaplin sentiu uma pontada no peito ao ouvir seu irmão falar sobre isso, na verdade, o pensamento que mais ocupava sua mente e o impedira de dormir era esse, como falar para a mãe sobre isso? Como falar para ela que seu filho é um Sonserina? O primeiro da família, o único. Ele não queria fazer isso, não queria falar com ela, preferia fugir, correr para longe e nunca mais voltar.

– não vou. – falou por fim, não vou falar de forma alguma.

– mas Chaplin?

– Não vou Char, não vou mesmo. Eu vou falar que estou na Lufa-Lufa, eu vou mentir e você também.

– Não dá para mentir numa coisa dessas Chaplin. Como a gente iria enganar eles? Por todo ano letivo? Por todo tempo que estivermos em Hogwarts? É loucura.

– Pode até ser loucura Charles. – Sua cabeça começou a doer, estava se sentindo muito pressionado. – Mas é o que vamos fazer entendeu?

– mas até quando?

– ATÉ EU DESCOBRIR UM JEITO DE SAIR DE MUDAR ISSO. ENTENDEU? – Explodiu novamente e se arrependeu no mesmo instante, o rosto de Charles estava vermelho e com os olhos arregalados, cheios de lagrimas. Não aguentava ver seu irmão daquele jeito, principalmente por sua causa, então virou as costas para sair o mais rápido que podia, sua cabeça estava pulsando e sua garganta ardia enquanto ele segurava o choro com todas suas forças.

– nem parece ser você Chaplin. – ouviu a voz chorosa de seu irmão.

– A é? E pareço o que? – houve apenas silencio. – Pareço o que Charles? Um Sonserina?

– e..eu…- a voz de Charles falhava, a cada respiração dele que Chaplin ouvia era como uma facada em seu coração. – Eu não…eu não sei.

– então acostume-se. – E saiu em marcha rápida e apertando o peito com a mão esquerda enquanto as lagrimas escorriam feito dois rios pelo seu rosto.

Chaplin rodou aleatoriamente pela escola, indo e vindo dos mesmos corredores varias vezes, se sentia completamente desorientado, até agora a única coisa que ele fez foi magoar pessoas, e o pior, magoar seu irmão. Sentia um misto de raiva, medo e arrependimento, era como estar sendo arrastado para um gigantesco buraco vazio e frio, um lugar que ele nunca poderia escapar. Após mais alguns minutos andando sem rumo ele viu um grupo de alunos passar por um corredor, isso fez Chaplin voltar a si, ele tinha que ir para a próxima aula. Procurou em seus bolsos pelo pergaminho que falava das aulas que teria sem saber exatamente onde o havia colocado, felizmente estava em um dos bolsos internos de seu uniforme. A próxima aula seria Herbologia, as estufas ficavam no terreno esterno de Hogwarts, disso ele sabia, então apressou o passo na direção que julgou ser a correta. Realmente não foi difícil, após uma breve caminhada ele pode ver pelas janelas as estufas do lado de fora, pegando um corredor a esquerda logo ele estaria do lado de fora do castelo, pela primeira vez dês de que entrou. Um pouco de ar puro o faria sentir melhor, foi o que pensou, porém sua atenção foi chamada para outra situação. Indo para uma direção completamente oposta a das estufas estava o garoto que o havia acordado. Chaplin ficou estático, não sabia o que fazer. Não queria conversar com aquele garoto, não depois do que aconteceu, mas por outro lado, não podia deixar ele perambulando perdido pela escola, seria perigoso. “um Lufano nunca deixa um companheiro na mão” se lembrou de umas das frases que sua mãe sempre repetia.

– mas eu não sou um Lufano. – falou em voz baixa e soltou uma risada curta e sarcástica, em seguida correu na direção do garoto.

Correu bastante, aqueles corredores largos e extensos davam uma impressão completamente distorcida da verdadeira distancia das coisas, as coisas que pareciam estar perto estavam longe, as coisas que pareciam estar longe estavam perto, será que é alguma magia para testar os alunos? Pensou em um breve devaneio, mas isso não vinha ao caso, já estavam bem próximos agora.

– ei? Espera. – o garoto parou e se virou para trás, a primeira coisa que Chaplin reparou era que ele estava com os olhos fechados.

– falou comigo? – o garoto respondeu confuso.

– sim. Para onde você está indo?

– para as estufas.

– serio? – Chaplin ficou surpreso. – mas as estufas ficam para o outro lado. – Ao falar isso Chaplin apontou para a direção das estufas que ele podia ver pelas janelas ainda, ao perceber o gesto se sentiu envergonhado.

– mesmo? Mas…- o garoto pareceu constrangido. – uhm…entendo.

– o que houve?

– Uns colegas. Bem, eles me falaram que eu estava indo para o lado errado e me indicaram esse caminho. Eu devia ter notado, eu sou muito estúpido mesmo.

– não é não. – Chaplin se apressou a dizer. – Se perder é normal. – “e eu? É normal eu estar perdido assim?” não pode evitar pensar.

– vamos, eu te levo. – disse ao oferecendo o braço direito encostando ele de leve no braço do garoto, uma das vantagens de ter sido criado entre trouxas era saber lidar com esse tipo de situação.

– obrigado. – o garoto disse sorrindo ao segurar o braço de Chaplin, os dois começaram a andar na direção correta.

– Qual seu nome? – Chaplin decidiu começar uma conversa.

– Calvin, Calvin Butterfly.  – disse rindo do próprio nome. – O seu é Chaplin certo?

– Como sabe? – Chaplin ficou chocado, até então pensava que Calvin não sabia que ele era ele.

– Desculpe se pareceu invasivo. – Calvin estava desconcertado, tremeu um pouco para falar. – É que eu nunca esqueço uma voz sabe? Tudo que escuto fica gravado na minha memória. E… – hesitou um pouco antes de continuar. – bem, eu estava saindo da aula de Historia, você estava discutindo com outra pessoa, seu irmão eu acho. Então ouvi seu nome.

– ele estava muito chateado? – perguntou preocupado.

– bem, ele… – Calvin ficou constrangido. – Ele começou a chorar e saiu, não sei direito, posso estar enganado.

-Tudo bem, obrigado Calvin.

Continuaram o resto do caminho em silencio, andaram por um corredor cheio de janelas que deixavam a luz do sol entrar por toda sua extensão, das janelas Chaplin podia ver as paredes da escola feitas de pedra, muito mais antiga do que ele imaginava, podia ver também o belo gramado verde que se estendia até os limites da escola onde começava uma densa floresta e no fim do corredor havia uma porta aberta que levava diretamente para onde estavam as estufas. Ao se aproximarem da porta eles puderam ouvir pessoas conversando e ao sair se depararam com três alunos da Sonserina, Chaplin já havia visto eles, estavam na mesma aula que ele antes. O mais alto e forte deles deu um passo a frente rindo, ele tinha cabelos negros feito pinche e era cortados quase raspados, ele parecia ser mais velho do que deveria para poder estar na mesma turma que Chaplin. Os outros dois eram um rapaz e uma moça, os dois da mesma altura que Chaplin, o rapaz era negro e sorridente, olhava para Chaplin como se estivesse encarando um palhaço de circo, já a menina parecia não querer estar ali, ela tinha cabelos castanhos claros e os deixavam amarrados num coque improvisado, ela olhava constantemente para a direção das estufas, Charles sentia que ela parecia querer fugir.

– E olha quem foi resgatar o cego? – disse o rapaz mais alto, ao reconhecer a voz do aluno que o enganou, Calvin apertou o braço de Chaplin instintivamente. – Parece que a Sonserina está mais decadente a cada ano, mestiços, aleijados e até gente da Lufa-Lufa, e o pior de tudo é que  temos tudo isso em um único casal de namorados, o que vai ser no próximo ano? Vacas e cavalos? – os dois rapazes riram bastante. Chaplin e Calvin seguiram andando tentando ignorar a situação.

– Cachorros e sapos. – disse o outro rapaz. – Talvez um abutre.

– Só se for um cachorro cego sendo guiado por um vira-lata. – o garoto alto continuou.

– Já sei, vamos aceitar sapos, eles parecem mais adequados.

– com certeza, mas já sei! Pior do que sapos, vamos aceitar trouxas na escola.

Chaplin parou e fez o braço de Calvin o soltar.

– Não Chaplin, deixa eles. – Calvin insistiu enquanto tentava buscar Chaplin com suas mãos sem conseguir tocá-lo.

– Olha lá! O Lufa-Lufa ficou bravo, o que você… – antes de terminar a frase o garoto foi surpreendido pela investida de Chaplin, ele chegou a sacar sua varinha, mas antes que pudesse proferir qualquer feitiço o punho de Chaplin alcançou o seu nariz em cheio fazendo sangue jorrar para todos os lados, foi nocauteado com um único soco. Mas não teve sorte com o segundo rapaz, sentiu uma forte pancada nas costas que o fez cair no chão, ainda sem entender o que havia acontecido ele pode ver a garota sair correndo para dentro do castelo e em seguida uma perna vindo em sua direção. Dessa vez conseguiu se proteger dos chutes que vinham, mas era inútil tentar levantar. No caos da briga ele sentia desespero e euforia, ouvia Calvin gritar por ajuda e sentia os impactos dos chutes do rapaz, no entanto a única coisa que se passava em sua mente era saber como estava seu irmão.

– PETRIFICUS TOTALUS. – ouviu uma voz grossa dizer, e os chutes pararam. O rapaz que o agredia estava completamente paralisado na sua frente em uma postura que sugeria que outro chute seria desferido. Um professor estava ali, ele era alto e tinha um rosto ligeiramente redondo, ele trajava as cores da Grifinória.  – Por Dumbledore! O que está acontecendo aqui?

– Foi o Martin, professor Longbottom, ele e o Timothy começaram a briga. – Era a menina que havia fugido que falava, ela parecia estar aterrorizada.

– não interessa quem começou, vocês dois aí. – Disse para Chaplin e Calvin. – Me esperem no meu escritório na estufa. Você mocinha, o feitiço vai terminar logo, leve ele para meu escritório também e me aguardem lá entenderam?

– sim senhor. – Os três responderam.

– Vou levar esse aqui para a enfermagem. – Disse enquanto se abaixava para checar o aluno desmaiado. – O que estão esperando? Vocês dois podem ir.

Chaplin levantou em silencio enquanto observava o professor e depois o aluno enfeitiçado, sentiu a mão de Calvin segurar seu braço e se virou. Os dois caminharam em silencio por um tempo.

– ele nem conferiu se você se machucou. – Calvin falou primeiro.

– eu estou bem, não foi nada de mais. – respirou fundo. – me desculpe por ter gritado com você hoje cedo, não tenho me sentido eu mesmo ultimamente.

– não tem problema, às vezes eu me esqueço de fechar meus olhos, sei que incomodam as pessoas.

– não, não é isso.

– tá tudo bem, eu não me importo.

– eu estava de cabeça quente, é serio. Seus olhos não me incomodaram, até achei eles bonitos. – e pela primeira vez Chaplin riu de bom humor, estava começando a se sentir normal novamente.

– obrigado. – Disse Calvin envergonhado e rindo ao mesmo tempo e abriu os olhos, eram olhos realmente bonitos pensou Chaplin.

– pode deixar eles abertos se você quiser, eles não me incomodam em nada. – Chaplin se sentia muito melhor, se sentia leve.

– certo. – Disse Calvin animado, também estava se sentindo bem melhor. – eu vou te obedecer, ou vai que você me bate também, né? – os dois riram bastante dessa vez enquanto se aproximavam da estufa.

– Você é um babaca sabia? – Disse Chaplin rindo, e por um breve momento ele esqueceu tudo de ruim que havia acontecido e sentia que as coisas poderiam realmente melhorar.