Uma História em Hogwarts – Irmandade 04

Ficar sentado no escritório do professor Longbottom havia começado a se tornar uma tortura, o calor da briga já havia passado e isso dava espaço para as dores em seu corpo, e mesmo após toda a descontração que tiveram, um sentimento de preocupação surgiu sorrateiro em sua mente e agora parecia tão grande que ocupava toda a estufa. Ficaram em silencio deixando que o único barulho a se ouvir era os dos outros alunos conversando do lado de fora do escritório, se não estivesse tão apreensivo agora Chaplin teria adorado estar naquele escritório, era bagunçado de uma forma ordenada, vários livros sem ordem especificas jogados em um canto, vários objetos que lembravam plantas e folhas feitas de bronze e prata amontoados em uma escrivaninha, a mesa que estava diante deles era larga e feita de uma madeira escura, era bem rústica, quase como se a árvore de qual foi feita tivesse nascido daquela forma, as duas cadeiras que estavam sentados, assim como a cadeira que estava do outro lado da mesa também eram feitas da mesma madeira, e mesmo não tendo nenhuma almofada ou acolchoamento elas eram muito confortáveis, Chaplin já havia brincado e se machucado com todos os tipos de madeira que pudessem ser encontrada na Inglaterra e nenhuma delas se assemelhavam com aquela, se tivesse prestado um pouco mais de atenção ele chegaria a conclusão de que aquela madeira não era comum, mas instintivamente imaginou o quanto seu pai adoraria esses moveis.

O tempo passava e os faziam sentir cada vez mais nervosos com a demora do professor, os quadros e fotografias espalhados as dezenas pela sala ajudavam a coisa ficar pior, eram varias fotos de pessoas que ele nunca vira antes, algumas juntas a quem ele tinha certeza que era o professor Longbottom e outras de pessoas sozinhas, em algumas fotos o professor estava bem novo e parecia ser uma criança bem desorientada e em outras já era um rapaz com um olhar determinado, achou graça em pensar que duas pessoas com aspecto tão diferente eram a mesma, então seus olhos encontraram-se com os dela, era um quadro obviamente, mas parecia bem vivo, era uma mulher idosa, de cabelos grisalhos e olhar severo, não sabia quem era, mas era o maior objeto de toda a sala, ficava bem diante de Chaplin, logo acima da cadeira do professor e parecia que a qualquer momento ela iria sair do quadro e começar a gritar o repreendendo por tudo de ruim que ele já havia feito na vida e iria fazer, sentiu sua pele arrepiar e sem conseguir desviar os olhos do quadro da senhora percebeu que uma batida rítmica era o único barulho que escutava já que os outros alunos que estavam na estufa estavam em silencio, Chaplin ficou em duvida se o silencio começou agora ou se foi ele que demorou para perceber.

– Tá tudo bem? – Calvin resolveu falar e assim quebrou o transe em que Chaplin estava.

– sim, está sim. – Chaplin respondeu enquanto pensava na sorte que Calvin tinha de ser cego e não poder ver o quadro da idosa, em seguida esse pensamento se transformou em um sentimento de culpa e remorso por ter pensando em algo tão cruel.

– é porque você começou a tremer, sei lá… você estava batendo com o pé no chão tão forte que eu pensei que era alguém batendo na porta quando começou.

– serio? – Chaplin riu. – quem costuma fazer isso é meu irmão. As vezes parece que até estou num terremoto do lado dele e…

A porta abriu e o professor Longbottom entrou em seu escritório, os dois alunos ficaram em silencio e se ajeitaram na cadeira em uma postura ereta, o professor andou em passos firmes e se sentou diante dos dois, ele olhava curiosamente para os dois como se os estivesse  analisando e Chaplin já não sabia qual dos dois olhares o incomodava mais, o enigmático do professor ou o severo olhar da senhora idosa que ele não conseguia evitar de olhar.

-vocês querem explicar o que aconteceu?

– a culpa foi minha professor. – Calvin se adiantou ao falar. – Chaplin foi me defender.

– não de uma maneira muito eficiente. – disse o professor e continuou. – Olhem bem, o ano letivo só está começando e a direção de Hogwarts está mais rígida quanto a alunos problemáticos. Punições serão severas. – os dois garotos abaixaram a cabeça demonstrando claramente o medo que sentiam. – mas como eu disse, o ano letivo está apenas começando, então vou responder a favor de vocês dois dessa vez.

– obrigado professor. – os dois alunos responderam juntos. O alivio foi instantâneo e não puderam conter o sorriso de alegria.

– eu sei muito bem como é ser discriminado e atacado por outros alunos, mas a violência não é a resposta, não queremos transformar a escola numa zona de guerra, não é mesmo?

– sim professor. – novamente responderam ao mesmo tempo.

– agora eu só quero que vocês dois estudem e não se metam mais em encrencas. Senhor Woodgarden, alguém bastante ansioso te espera lá fora, vou te dar alguns minutos de vantagem.

O coração até gelou, o conflito de querer e não querer ver seu irmão veio a tona, levantou-se da cadeira em silencio e ficou encarando a porta do escritório, Charles estava lá do outro lado e o ultimo encontro com ele não foi exatamente como desejado e sem perceber, com passos automáticos Chaplin já girava a maçaneta da porta. O corredor que levava até a estufa parecia até sombrio desta vez e agachado a poucos metros a frente estava seu irmão, milhares de coisas passaram por sua cabeça, de frases de desculpa a gritos de repudio sua mente tornou-se um turbilhão de emoções e quando Charles se levantou e o encarou todas as palavras sumiram e a única coisa que existia era um ardor insuportável na garganta que começava a sufocá-lo. Charles foi se aproximando e o coração de Chaplin batia feio um martelo de um ferreiro, suas pernas bambearam e sua visão ficou turva pela lagrimas que surgiram. “VERGONHA” ele pensou, “sou uma vergonha, sou uma desgraça, não existe perdão para o que eu sou, para  que eu fiz”, mas nenhum desses pensamentos conseguiam se formar como palavras, seus lábios apenas tremiam freneticamente e para sua surpresa e desespero Charles o abraçou.

– EU NÃO VOU TE ABANDONAR, EU NÃO VOU DEIXAR VOCÊ SOZINHO, NÓS VAMOS PASSAR POR ISSO TUDO JUNTOS COMO SEMPRE FOI. VOCÊ É MEU IRMÃO MERDA, NÃO ME DEIXE FORA DISSO! –  Aquele abraço quente o cobriu completamente, era a sensação de sair de uma banheira com água e gelo e ir direto para uma cama quente e macia, aquele abraço tinha sabor de infância, de amizade e de amor, Chaplin o abraçou de volta, os dois se apertavam tão forte que quase poderiam partir um ao outro no meio, Chaplin chorava e gaguejava enquanto proferia mil desculpas e perdões e por sua vez Charles dizia que estava tudo bem e que tudo iria dar certo. Calvin não podia ver, mas ouvia e sabia que algo muito bom estava acontecendo e isso o deixou muito feliz.

 

Os ânimos se acalmaram e um peso saiu das costas dos irmãos Woodgarden e após ser apresentado para Charles, Calvin também foi calorosamente recebido, o garoto não esperava receber um abraço forte e tantos agradecimentos por ter estado com Chaplin, o que  o deixou se sentindo um pouco culpado, afinal, tudo de ruim que aconteceu naquela manhã foi por culpa dele, mas até mesmo esse sentimento se desfez, Charles era de alguma forma diferente de Chaplin, a voz parecia e até mesmo o cheiro dos dois era semelhante, mas havia algo de diferente e Calvin queria muito descobrir o que. A aula de Herbologia seguiu como previsto, mesmo com o atraso, mas os dois alunos da Sonserina que causaram toda aquela confusão não estavam na sala, Chaplin podia apenas imaginar os motivos. Após a aula se sentaram no jardim ao lado de fora da estufa.

– Vamos mentir para a mamãe. – Começou Charles. –  A gente fala para ela que está tudo normal pelas cartas e aí vamos até a diretora pedir para ela te mudar para Lufa-Lufa até conseguir.

– não sei se é uma boa idéia, se der errado ela vai ficar uma fera quando souber que mentimos. Ela vai nos matar.

– Com certeza vai, é como ela sempre diz: “- A mentira tem perna curta meninos, e vai doer mais em vocês do que em mim.” disseram ao mesmo tempo e começaram a rir.

– Não sei como as coisas vão ser daqui para frente Chaplin, mas o importante é que estaremos juntos.

– sim. – respirou fundo. – Isso que importa.

Um grito, um barulho cortando o ar, Chaplin teve menos de um segundo para perceber e esquivar da grande mancha vermelha que voou na direção da sua cabeça, o barulho do balaço que acertou uma arvore próxima a deles fez seu corpo tremer, por um triz que aquilo não partiu sua cabeça no meio e antes que pudessem perceber os três estavam cercados pelo time de Quadribol, da Grifinória enquanto uma menina, gritava sem parar olhando para ele, Calvin estava na frente dela a impedindo de avançar, olhou para seu irmão que tinha caído no chão pelo susto e agora mantinha os olhos arregalados.

– CALMA TRACEY, CALMA, POR FAVOR, CALMA. – E aos pouco a garota foi se acalmando, os outros membros da Grifinória estavam rindo, pareciam se divertir muito com aquela situação, eram todos mais velhos com certeza, inclusive a garota que Calvin acalmava, ela era bem maior que ele, na verdade era maior do que mais da metade dos caras que a acompanhavam, seus cabelos eram pretos e curtos, amarrados em um coque, tinha a pele morena clara e olhos verdes, olhava fixamente para Chaplin com uma ferocidade monstruosa.

– FOI ESSE MERDA QUE ATACOU VOCÊ? FALA QUE FOI, FALA QUE FOI QUE EU VOU PARTIR ELE NO MEIO. – a garota explodiu novamente, precisou de que dois rapazes a segurassem para ela não avançar desta vez.

– NÃO! me escuta por favor, não foi ele, eu juro. Não foi.

– Tem certeza? – ela começou a se acalmar.

– Tenho. na verdade foi ele que me ajudou, se não fosse ele eu estava perdido.

A garota começou a encarar Chaplin novamente, os dois rapazes fizeram que a iriam segurar novamente, mas ela fez sinal de que não precisava, e então ela sorriu. Um sorriso grande e sincera, seu olhar mostrava alegria e serenidade, era quase como se outra pessoa estivesse aparecido ali magicamente, aquela garota grande e agressiva deu espaço para uma jovem espirituosa e bela.

– Sr. Butterfly, assim você quase me mata do coração, como eu iria me retratar com seus pais em? Nem uma semana fez que você veio e já quase morre.

– Não exagera Tracey, eu não “quase morri” e você não precisa de retratar com meus pais coisa nenhuma. E para de me chamar de senhor, é esquisito.

– Sr. Butterfly você sabe que não posso. – ela se aproximou e segurou as mãos dele. – Eu fui incumbida de proteger você nessa escola.

– Incumbida coisa nenhuma.  – Calvin já não escondia o constrangimento. – Você bateu lá em casa e se proclamou isso. Você não é minha protetora.

– Guardiã.

– Tanto faz. – Calvin se virou procurando Chaplin, ele estava vermelho de vergonha, Chaplin entendendo o que ele fazia se aproximou e Calvin segurou-o pelo braço. – Vamos, rápido.

– Pera aí, eu não terminei. Cadê os caras que te bateram?
– Ninguém me bateu.

– Na verdade. – Chaplin começou a falar. – Eu que apanhei.

– Você? – a garota se aproximou. – Bem, parece que misturaram as informações. Tem certeza que está tudo bem com o Sr. Butterfly?

– meu nome é Calvin, me chama de Calvin!

– Bem, se está tudo bem, eu vou voltar a treinar, esse ano não vamos perder de jeito nenhum. Se precisarem de mim não hesitem. – Ela disse sorrindo, virou as costas e se foi como se nada tivesse acontecido.

– Quem é essa Calvin? – Disse Chaplin ainda muito confuso.

–  Essa louca é minha vizinha, ela tem essa super proteção por mim dês de que…- pensou um pouco nas palavras. – bem, dês de que deu na cabeça dela de que tinha que me proteger, meus pais adoram ela, ela é louca.

– Qual o nome dela mesmo? -Perguntou Charles enquanto segurava o Goles que eles haviam esquecido.

–  Tracey, Tracey Firefly. Por que?

– Porque eu acho que estou apaixonado.

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