Apenas Uma Noite Tranquila 04

Percebeu que estava há muitos minutos com o garfo parado enquanto olhava para aquele porta retrato, em seu devaneio havia elogiado a menina na foto, uma garota bonita realmente, se surpreendeu quando se lembrou de que a menina na foto era ela mesma. Era engraçado, foto não tinha nem um ano que havia sido tirada, ela já havia esquecido essas coisas, parecia que a vida toda foi daquele jeito, sentia como se já tivesse passado muitos anos e o mais engraçado e que achou a menina da foto linda, enquanto nessa época se achava a mais feia e desengonçada de todas. Tudo havia mudado tão rápido, não saberia dizer se havia amadurecido ou se havia aprendido a sobreviver, tinha certeza de que quando pusesse os pés lá fora não irá durar muito tempo, não tinha mais medo de morrer, todos que conheciam já haviam morrido ou estavam na situação de seus pais, preferia acreditar que a alma deles havia encontrado a paz também, por fim, a morte até seria bem vinda, mas não conseguiria suicidar e não vai deixar ser devorada, enquanto puder vai se segurar na única coisa que lhe pertence, vai se segurar na sua vida até o ultimo instante. Terminou de comer, lavou os pratos, limpou a casa, afinal era sempre bom arrumar algo para passar o tempo, mesmo depois desse tempo todo, não havia se acostumado com todos os incessantes gemidos e batidas de seus pais, quando a bateria de seu Ipod acabou pensou que iria enlouquecer, talvez tenha enlouquecido de verdade, nessa altura das coisas nem importava mais, não conseguia dormir direito também, tinha apenas sono picado, sempre abria os olhos e olhava em volta, conferia todas as portas, todos os cômodos da casa, só assim conseguiria fechar os olhos novamente, para logo depois abri-los de novo e repetir sua paranóica rotina, às vezes queria apenas ter uma noite tranquila.

Estava se sentindo cada vez mais doente, estava desanimada e desmotivada, já não tinha muito apetite, o que não significava muito, sua comida já estava acabando novamente, comia cada vez menos e mesmo assim parecia que a comida sumia, ou talvez seja o tempo que estava passando mais rápido. Havia escutado tiros essa noite, não se importou muito, isso agitava as criaturas, mas nunca duravam muito tempo então já estava pronta para sair novamente. Com outra faca, a mesma mochila nas costas e lanterna na mão trancou seu apartamento e saiu, seus pais estavam terrivelmente agitados, podia ouvi-los mesmo com a porta fechada; passou a mão no cabelo e pensou no apartamento do sexto andar, teve que respirar fundo para dar o próximo passo. O corredor estava pouco iluminado, lá fora o tempo estava fechado, havia chovido e isso apenas deixava Carla desconfortável, teve que usar a lanterna assim que chegou nas escadas, talvez Carla estivesse desconcentrada ou segura de mais da sua situação e graças à penumbra que o corredor se encontrava ela não percebeu a sombra que lentamente surgia da escada que vinha do décimo segundo andar.

No quinto andar todas as portas estavam fechadas, no quarto, terceiro, segundo e primeiro também e isso foi um duro golpe em seu coração, abaixo estaria o hall de entrada e saída e nem imaginava o que poderia encontrar por lá, enquanto para cima poderia ter melhores oportunidades se não fosse o senhor Nicolau no meio do caminho, então pensou um pouco e decidiu descer para o hall e finalmente ver como estavam as coisas lá em baixo. Antes mesmo de terminar as escadas ela pode apagar a lanterna, mesmo com o tempo nublado a luz do dia entrava melhor pelas vidraças que cercavam quase todo o lugar, estava como ela se recordava, havia a grande bancada onde ficava o porteiro, os quadros e a televisão próxima as poltronas de espera, o grande tapete e os vários vasos de flores, o problema era que as flores estavam mortas, assim como todas aquelas pessoas que estavam em pé ou escoradas nos cantos, não teve tempo para conta-los, pois escondeu sua cabeça na mesma velocidade que a havia posto para fora da escada, subiu de costas o mais lento que pode, não podia fazer nenhum barulho, seu coração batia feito um tambor, sentiu a bile subir pela garganta, quando chegou na segunda parte da escada que levaria ao primeiro andar teve certeza que não foi seguida, então continuou a subir com mais velocidade, ainda com cuidado para não fazer nenhum barulho.  Um golpe terrível da sorte, as portas de baixo acabaram e o hall estava enfestado, agora teria que bolar um bom plano, ir lá para fora ainda parecia uma ideia absurda, talvez então conseguisse acessar as janelas dos apartamentos trancados, bem, pensaria em algo em breve, estava quase otimista quanto a isso, mas esse otimismo não duraria muito tempo.

Antes de terminar de subir a escada que levava para o sétimo andar Carla ouviu o gemido, a principio ignorou, afinal, em vários dos apartamentos haviam criaturas dentro, felizmente a maioria estava trancada lá dentro também, novamente o gemido chamou sua atenção, ele estava nítido, bem próximo na verdade, olhou para trás pensando que poderia ter sido seguida e percebeu que a lanterna estava desligada ainda, ligou a luz e viu que não havia ninguém atrás então se voltou para frente, e lá estava ele, exatamente como ela o havia visto da ultima vez, o uniforme dos correios, o rosto muito mais envelhecido, aqueles olhos vazios e famintos, ele estava muito próximo, ela pode sentir seu hálito podre enquanto as duas mãos cadavéricas tentaram lhe agarrar, suas pernas fraquejaram novamente e pela primeira vez para seu bem, Carla caiu e escorregou pela escada que levaria ao sexto andar e por sorte escapando do abraço mortal do senhor Nicolas que em resposta soltou um chiado horrível, era como se estivesse frustrado. Ele avançou novamente e Carla se recuperou da queda, não havia machucado e ganhou uma distancia que pode usar,  passou pelo sexto andar sem olhar para os lados, desceu as escadas para o quinto como nunca havia descido escadas antes, continuou até o quarto andar e se lembrou do hall, não poderia ir para lá, seria morte certa, então em um ato desesperado tentou abrir as portas do quarto andar e como resposta ouviu batidas e gemidos dos outros lados das portas, de todas elas, correu para a escada rumo ao terceiro andar e viu o vulto descendo as escadas de forma desengonçada , porém rápida o suficiente. Tentou novamente as portas do terceiro andar e novamente teve como resposta batidas e gemidos, parecia que todos os andares de baixo estavam infestados, não sabia se para sua sorte ou azar que todas as portas estavam trancadas, então correu novamente, no segundo andar todas as portas já estavam em um ritmo doentio de batidas, arranhões e gemidos, parecia que o prédio inteiro havia despertado, então não havia jeito, era tudo ou nada, ou saia do prédio ou morreria nele.

Estava sem folego quando chegou na metade das escadas, segurou o ar quando se voltou para o resto do caminho, um homem de rosto deformado e que vestia o que um dia foi um lindo terno de linho a estava aguardando, Carla recuou enquanto ele gemia e avançava em sua direção e  também pode ouvir os gemidos e passos do senhor Nicolas logo acima, pensou em sua mãe quando ainda viva, seu olhos cheio de lagrimas não derramaram nenhuma gota dessa vez, agora era sua vez e não tinha muito o que fazer e mesmo assim veio aquele sentimento, um sentimento forte e selvagem, queria viver, independente de qualquer coisa, ela queria viver e se agarraria a sua vida com todas as forças que tinha, tomou um impulso e ganhou uma força que não conhecia, encarou o homem de terno e se jogou em sua direção, ele mesmo parecia não esperar por esse movimento e de forma desengonçada também avançou na direção da garota, a agarrou com força com suas duas mão e cravou seus dentes com toda voracidade que tinha, nesse instante que Carla aproveitou a oportunidade para soltar sua mochila das costas enquanto a criatura tentava inutilmente se alimentar do náilon cordura que compunha sua mochila, infelizmente teve que largar sua faca e lanterna, um preço pequeno a se pagar pela vida que tentava com todas as forças manter. Agora vinha a parte arriscada, estava no hall, uma olhada rápida pelos cantos e viu que já estava cercada, eram muitos, mais de dez com certeza, alguns rostos conhecidos e outros não, todos eles incitados pela sua presença avançaram gemendo e sedentos por um pedaço dela, então Carla nunca foi tão feliz em ser magra, fintou a porta de entrada e saída do prédio e correu em sua direção com toda convicção que pode, conseguiu desviar dos três que estavam em seu caminho e em apenas alguns passos sentiu o vento que vinha fresco do lado de fora. Foi menos que um segundo de felicidade, se dentro do prédio estava ruim, o lado de fora estava bem pior e agora podia confirmar com os próprios olhos o porque dos barulhos de tiro e os gritos nunca durarem muito tempo, havia centenas ali, parecia muito mais do que quando ela os olhava de seu apartamento, eles estavam dentro de carros, dentro de outros prédios e espalhados por todas as ruas e todos eles começaram a prestar a atenção nela, um a um eles foram gemendo e gritando e a atenção de todos os outros ia sendo chamada, logo uma onda de gemidos e corpos vinham em direção da pequena garota, então ela correu.

Apenas Uma Noite Tranquila 03

Foi o suficiente para alguns dias, não muitos infelizmente, antes do que havia imaginado ela estaria se aventurando novamente com uma faca e mochila para fora do seu apartamento, teve sorte pela segunda vez, a outra porta que não havia testado em seu andar também estava aberta e o apartamento vazio, muito dos mantimentos haviam sido pegos pelo tempo, e quem saiu de lá havia levado o que pode também, conseguiu pouca coisa, com um pouco de coragem revistou toda o apartamento e também o resto do apartamento do cadáver da banheira, conseguiu uma boa lanterna e algumas pilhas, achou uma caixa de remédios, não sabia nada sobre eles, nem mesmo identificar algo além de aspirina, mesmo assim achou que seria bom levar com ela e os deixou sempre na mochila para caso de emergência, se sentiu bem madura quando ignorou roupas e joias, um pequeno anel ninguém sentiria falta pelo menos e pegou também shampoos e sabonetes.  Depois suas necessidades a levaram para cima, tinha que subir ou morreria de fome cedo ou tarde, agora com uma lanterna se sentia bem mais segura, não teve sucesso com o décimo segundo e décimo terceiro andar, todas as portas estava fechadas, no décimo quarto havia uma porta aberta e mesmo assim não conseguiu alimento para mais do que três dias ou quatro se racionasse muito, o que ela já vinha fazendo há algum tempo, perdeu peso, estava mais magra do que já havia sido e também estava pálida, se sentia quase doente e esse era um de seus maiores medos e por esse instante onde ela estava perdida em seus pensamentos que o tempo parou, Carla prendeu a respiração e seus pensamentos se dispersaram, um golpe trágico do destino, o décimo quinto andar, pelo menos duas portas abertas a vista e no meio do corredor havia uma daquelas coisas, ela reconheceu pelas roupas e pelos cabelos, era o senhor Nicolau que morava naquele andar, era um senhor quase aposentado que ainda trabalhava nos correios do bairro, ele estava lá parado, morto e ao mesmo tempo vivo, não a tinha percebido, lagrimas preencheram seus olhos e prendeu a respiração, lentamente ela foi descendo as escadas, décimo quarto, décimo terceiro, décimo segundo e entrou em casa, trancou a porta da sala e se sentou no sofá. Chorou baixinho, não tinha certeza exatamente do porque começou a chorar, talvez por que não poderia subir e pegar suprimentos? Não, não era por isso, essa era a segunda vez que ela havia encarado um deles de frente, a primeira vez que viu um que não era seu pai e foi isso que a fez chorar, mesmo tendo seus pais ali todo esse tempo, gemendo e batendo sem quase nunca parar, ela havia se esquecido de como ele era, como ele estava quando ela o viu, esperou dois dias para sair de casa novamente.

Os andares de baixo aliviaram um pouco, do décimo ate o sétimo andar ela conseguiu seis apartamentos abertos, que lhe deram alimento por um bom tempo, tempo o suficiente para conseguir se recuperar do susto de dois dias atrás, mesmo assim ela começava a pensar que logo não poderia ficar nesse prédio por muito mais do que já havia ficado, logo não vai ter lugares para pegar comida, então começava a imaginar sua rota de fuga, teria que sair pela cidade e achar outro lugar para ficar, ou talvez ela pudesse pegar a estrada para algum outro lugar que fosse seguro e tivesse pessoal, mas onde? Ela nem sabia andar pelo bairro direito, ainda mais sair pelo mundo cheio de monstros. Olhava para fora pela janela e via que nada havia melhorado, às vezes tinha até a impressão de que os números deles aumentavam e isso era muito perturbador, em momentos assim seus pensamentos se voltavam para outro canto, o de se outras pessoas haviam sobrevivido como ela, sabia que o cadáver da banheira havia e que ele escolheu largar isso, ela mesma pensou em fazer o mesmo, não teve coragem, nunca teria coragem o suficiente para isso, pensava então nos colegas de escola, estava com raiva deles por algum motivo, não conseguia lembrar qual motivo era, e assim essa raiva sem sentido sumiu como se nunca tivesse existido, talvez estivessem todos mortos, talvez não, poderiam estar como ela está agora ou até melhor. Pensou em seus parentes também, uma vez achou um telefone celular, já havia tentado ligar para alguém usando o telefone fixo, mas ele estava sem linha, com o celular teve esperança de ligar para algum parente, para a policia ou qualquer pessoa, ouvir a voz de alguém. Nem ficou muito decepcionada quando o telefone não deu sinal. Quando ouvia gritos vindo do lado de fora, corria para a janela, nunca via ninguém, aquelas coisas ficavam agitadas e seguiam para a direção dos gritos, as vezes eram de varias pessoas, as vezes de uma única, poucas vezes vinham acompanhados de barulhos de tiro que logo cessavam, imaginava se eram pessoas que apenas estavam passando por ali ou se eram pessoas como ela, que ficaram presas em sua casa e por algum motivo tiveram que arriscar sair de lá, um dia seria ela a ter que tentar a sorte do lado de fora, quanto tempo será que iria durar? Não muito provavelmente, Carla não era pessimista, mas entendia bem sua situação, já havia se conformado com isso há algum tempo e mesmo assim uma força a compelia a continuar vivendo.

No sexto andar tudo mudou. Começou como todos os outros dias de espreita nos andares de baixo, apenas um apartamento estava aberto, um apartamento comum, não muito diferente de todos os outros, não parecia que alguma família havia morado ali, talvez um homem solteiro apenas. Com tranquilidade fez o que vinha fazendo sempre, assaltou a cozinha, colocou o máximo de coisas que pode na mochila e ia sair, depois voltaria para procurar qualquer outra coisa que poderia ser de valor, se virou em direção à saída da cozinha e ele estava lá, uma figura desumana, sobrenatural, um homem que deveria ser de meia idade, seu rosto cadavérico, os lábios haviam sido arrancados, estava sem camisa vestindo apenas uma bermuda jeans e um único chinelo em seu pé direito, ele olhava para ela, aquele mesmo olhar vazio e ao mesmo tempo sedento, saia um som de sua boca, um grunhido baixo e rítmico, não parecia estar respirando, mesmo assim fazia esse barulho aterrador, ele abriu a boca e o barulho que fazia ficou maior e mais agressivo, de forma desajeitada avançou na direção de Carla, ela soltou um grito curto automático e correu para o outro canto da cozinha, seus olhos não desgrudaram dele e os dele a seguiram para onde quer que ela fosse. Mais uma vez ele avançou ferozmente gemendo cada vez mais alto e Carla tentava controlar seu pânico, a única coisa que impedia ele de pegar a garota era uma pequena mesa com quatro cadeira que estava no meio da cozinha, aquela criatura não parecia ser capaz de pensar, mas reagia de forma rápida, mesmo que ela tentasse dar a volta da mesa ele ia pelo outro lado, era um mórbido jogo de gato e rato, Carla jogou nele sua faca e tudo mais que achou no alcance de suas mãos, ele não parecia se importar, era como se não sentisse dor alguma, coisas começaram a passar por sua cabeça feito raio, pensamentos de todos os tipos, até então nenhum que fosse de grande ajuda, a garota simplesmente correu para um lado da cozinha e ele veio, ela deixou ele se aproximar bastante e tomou impulso para o outro lado, em sua mente ela apenas se imaginava caindo ou encontrando outro deles logo a frente, se imaginou sendo agarrada, sendo devorada e nem percebeu que havia conseguido sair da cozinha, correu pelo hall e abriu a porta, viu o corredor vazio e se sentiu aliviada, pegou a chave da porta e saiu, agora estava salva, estava livre e assim a dor veio rasgando sua cabeça.  Ele havia agarrado seu cabelo e agora eles disputavam força, ela do lado de fora, ele do lado de dentro e a porta ainda estava aberta, ela viu a outra mão cadavérica segurar a porta, ele teria mais força que ela, ele a puxaria para dentro ou abriria a porta, então Carla fez a única coisa que poderia, fechou os olhos, largou a chave, segurou a maçaneta da porta com as duas mãos e puxou com toda a força que tinha, não funcionou, então ela soltou um grito abafado, apoiou um pé na porta e usou todo o pouco peso que tinha, a porta bateu com força e ecoou por todo o prédio, Carla sentiu a maior dor que já havia sentido na vida, um grande tufo de seu cabelo havia sido arrancado e agora estava preso na porta, linhas de sangue escorriam pelo seu rosto, os dedos da criatura estavam no chão e a criatura batia na porta e gemia, talvez de fúria ou frustração. Respirou um pouco, pegou a chave e trancou a porta, não acreditava que a criatura conseguiria abri-la, mas preferia não arriscar, ela deu a volta e começou a subir para sua casa, suas pernas tremiam, seu corpo parecia leve e pesado ao mesmo tempo, quando chegou ao apartamento ela foi direto para o chuveiro, ficou sentada chorando por mais tempo do que pode contar, chorou até suas lagrimas acabarem, o sangue foi lavado junto as lagrimas. Tempo depois se sentiu melhor, se sentiu mais viva, se alimentou e depois de pensar muito pegou uma tesoura e foi para o seu quarto, ainda era dia e estava bem iluminado, do lado de fora se ouviam gemidos baixos e distantes, no seu prédio se ouviam muitos gemidos, os do andar de cima, talvez o do andar de baixo e com absoluta certeza os de seus pais presos no quarto; Carla cortou seu cabelo o máximo que pode, deixou bem baixo, bem curto, o corte ficou feio, mas há muito tempo ela não se importava com aparência, nunca havia se achado bonita antes, não que fosse feia, mas para a maioria das adolescentes a autoestima variava com o dia, essas coisas não importavam mais, ninguém a iria ver mesmo, seu cabelo agora estava bem masculino e cheio de falhas, seu rosto magro com olheiras de noites ruins a davam uma aparência horrível, viu os ferimentos da grande falha que havia ficado em seu couro cabeludo, pensou se nasceria cabelo ali novamente e deu de ombros, não importava mesmo, pouca coisa importava agora. Seus pais estavam agitados essa noite, não conseguiu dormir.

Apenas Uma Noite Tranquila 02

Na primeira noite ela apenas chorou até cair no sono e horas depois acordou desesperada imaginando que seus pais de alguma forma haviam escapado do quarto, estava ficando um pouco histérica, chegou a gritar com eles pela porta, queria gritar com o mundo, não entendida e não queria aceitar o que estava acontecendo. Olhar pela janela e ver no que o mundo lá fora havia se transformado não ajudava, na televisão só havia caos, os canais nacionais não funcionavam e os estrangeiros um a um foram perdendo o sinal, alguns deles falaram de lugares seguros, algo como se fossem campos de concentração, mas Carla não se imaginou indo até lá sozinha, não sabia dirigir e não tinha armas, muito menos tinha coragem para fazer algo tão perigoso, olhou pelo olho magico da porta, parecia tudo deserto, mas ela não abriria a porta também, nunca se sabe o que pode haver, se uma coisa daquelas entrasse seria seu fim com certeza, então ela decidiu ficar ali e esperar por algum tipo de resgate.
Por volta pela terceira semana ela já havia parado de contar os dias, já havia perdido o interesse nisso, também havia parado de rezar, sua mãe havia acreditado que era algo como o apocalipse que estava acontecendo, se fosse ela não tinha certeza se rezar ajudaria. A energia também havia acabado então teve de dar preferencia para as comidas congeladas, infelizmente havia muitas então foi inevitável à perda de algumas coisas. Quando seus pais ficavam calados parecia que o mundo parava, às vezes ouvia um ou outro gemido vindo do prédio, o que lhe dava certeza de que sair lá fora era na melhor das hipóteses suicídio, e foi em suicídio que ela havia pensando depois do que seriam uns dois meses, prostrou seu corpo na janela ate a linha da cintura, o vento balançava seus cabelos castanhos e enchia seus olhos de lagrimas, teve uma leve vertigem, voltou para dentro sentindo vergonha, não havia conseguido, era fraca de mais para isso, teria que viver ali presa sabe-se lá ate quando. Acreditava que a água e o gás do prédio apenas ela utilizava, comeu migalhas e restos não deixando sobrar nada, nem mesmo migalhas e assim ainda ficou dois dias sem comer nada antes de começar a cogitar a possibilidade de sair dali, seria melhor pular do prédio. Esse era seu pensamento, um suicídio mais rápido pelo menos, mas ainda não tinha coragem, mesmo depois de tanto tempo, morrer ali? Morrer lá fora? O que seria pior? Seu prédio tinha vinte andares mais o hall de entrada e a cobertura, cada andar tinha quatro apartamentos, com certeza havia comida em alguns deles, se estiverem abertos seria fácil e se estiverem com pessoas dentro? Se as pessoas estiverem vivas ela teria companhia, afinal, não podia ser a única sobrevivente no prédio. E se estivem mortas, ou pior, e se forem um deles? Seu corpo arrepiava só de pensar, sabia que havia algumas daquelas coisas pelo prédio, podia ouvi-los, mas onde estariam? Estariam presos ou perambulando pelos corredores? No principio havia desistido da ideia, morrer de fome parecia ser uma morte mais tranquila, isso ate começar a sentir fome de verdade, nunca havia ficado tanto tempo sem comer, quase delirava, três dias de estomago vazio foram suficientes para ela abrir a porta pela primeira vez.

Armada com uma faca de cozinha, mochila vazia nas costas, tênis nos pés e a coragem que a fome lhe dava Carla deu o primeiro passo para o corredor do prédio, a luz vinha fraca da pequena janela e pelas janelas das escadas, olhou para a porta do elevador e imaginou ele se abrindo, depois ignorou, estava com muita fome para ser paranoica, mais três portas de apartamentos restavam, andou lentamente na direção da mais próxima, girou a maçaneta como se essa fosse feita de vidro, estava trancada, foi até a próxima e não conseguiu evitar pensamento de que todas estariam trancadas, mas a segunda não estava, na verdade a porta estava entreaberta, o que fez seu coração parar por um segundo, respirou fundo e entrou; a casa estava arrumada, mas parecia abandonada, havia poeira em todos os moveis, uma fina camada apenas, mas suficiente para saber que ninguém estivera por ali, fechou a porta lentamente e seguiu para a cozinha com as pontas dos pés; havia um cheiro ruim no ar, algo adocicado e pesado, a cozinha estava segura, então avançou ferozmente na direção da geladeira e quando a abriu se arrependeu amargamente, o cheiro era insuportável, sentiu seu estomago embrulhar, se não estivesse vazio ela teria vomitado, fechou a porta rapidamente e tentou recuperar o folego. Já recuperada ela voltou à atenção para os armários, ficou contente de achar algo, devorou oito barras de cereal, ela odiava barras de cereal. Essas foram as coisas mais gostosa que ela já havia comido na vida, revistando o resto do armário encontrou biscoitos, algumas massas e um punhado de enlatados, ela conseguiria se virar com isso por mais alguns dias com certeza. Juntou tudo que achou na sua mochila e seguiu para a saída, porém algo chamou sua atenção, a porta do banheiro estava entreaberta e de lá ela ouviu o que pareciam ser pingos, pensou que se alguma torneira estivesse aberta isso seria um problema, afinal caçar comida e uma coisa, caçar água é totalmente diferente. Deixou a mochila na porta para o caso de emergência e em seguida, apenas com a faca ela caminhou até o banheiro, o cheiro que havia sentido quando entrou na casa estava mais forte dessa vez e ela ignorou, colocou o ouvido na porta e constatou que havia sim barulho de gotas caindo, então lentamente empurrou a porta para ela se abrir por completo. O cheiro que sentiu a acertou como um soco, o cheiro doce e podre de uma decomposição, Carla não conseguiu segurar um pequeno grito de susto ao ver que dentro da banheira havia um homem nu, mas que de humano havia perdido muito da aparência, estava com o corpo todo inchado, sua pele estava amarelada em sua maioria, as extremidades e o rosto estavam brancos com algumas partes começando a ficar pretas estava cheio de rugas por ter ficado tempo de mais na água, os olhos pareciam que iam pular para fora de suas orbitas e a água que ele estava era de uma tonalidade esquisita, um amarelo podre, difícil de decifrar, pode ver que pelo menos um dos pulsos haviam sido cortados, o braço esquerdo pendia do lado de fora da banheira e um rastro de sangue ficou nítido da borda da banheira e espalhava por todo chão, mosquitos e suas larvas se serviam a vontade.

Novamente sentada diante de uma porta, havia decidido que tinha que fechar o chuveiro direito ou a água continuaria pingando, o cheio era muito insuportável, pior do que o da geladeira e ficou grata por ter força o suficiente para não ter vomitado, se vomitasse desmaiaria com certeza, tinha medo de ficar doente também. Contou até cem e prendeu a respiração, entrou rápido no banheiro evitando olhar para o cadáver, sentiu que havia pisado em algo macio e fechou um olho na tentativa de ignorar, apertou o registro do chuveiro o máximo que pode e correu de lá, se imaginou caindo na banheira ou no chão, e a imagem do cadáver levantando e a atacando apareceu em sua mente, mas nada disso aconteceu, saiu do banheiro  fechando a porta, correu para pegar a mochila, abriu a porta do apartamento e voltou para o corredor, andou de passos rápidos voltando para sua casa, entrou e trancou a porta e então percebeu que ainda segurava a respiração; se sentiu aliviada, se sentiu salva, tomou um banho gelado e demorado, separou a comida de forma que pudesse racionar melhor dessa vez e na hora que foi dormir conseguiu  que a imagem do cadáver da banheira saísse de sua cabeça, o cheiro continuou em seu nariz por algum tempo.

Apenas Uma Noite Tranquila – 01

Os gemidos continuavam, parecia que sempre estiveram lá, dia e noite, noite e dia. Às vezes eles paravam e se podia ouvir o silencio, mas esses eram momentos raros e hoje não era um desses, então os gemidos continuavam. Dessa vez eram baixos e lentos como uma lamentação, outras vezes eles eram furiosos e vinham acompanhados de murros, estalos e barulhos de arranhões e tinha vezes que ela não conseguia identificar quais tipos de gemidos eles eram, porém sempre eram perturbadores, quase hipnotizantes. Às vezes ela apenas se sentava diante da porta do quarto e ficava os ouvindo, certa vez até mesmo pensou que eles poderiam estar tentando conversar com ela, alguma forma de comunicação primitiva talvez? Desistiu dessa ideia rapidamente, não havia tentativa de comunicação, se tivessem algum sentimento, esse seria fúria, lamentação, frustração ou fome, com certeza uma insaciável fome, talvez até todos esses sentimentos de uma vez. Ela sempre pensava nisso, mas pensar nessas coisas a fazia pensar que eles ainda eram pessoas, que ainda podiam ter alguma lembrança do que eles eram antes, então ela odiava pensar nisso e odiava mais ainda todos esses gemidos.

“Viver em apartamento era o máximo”, esses eram seus pensamentos algum tempo atrás, meses na realidade. Apartamentos eram seguros, cômodos e muitas vezes mais tranquilos que casas, décimo primeiro andar era perfeito, não tão alto quando o vigésimo e nem tão baixo quanto o terceiro, podia ficar horas olhando pela janela e vendo a vida lá de baixo, carros buzinando, pessoas correndo de um lado para o outro, mas isso também havia sido antes, se olhasse para a janela agora estariam vários carros abandonados e varias pessoas andando lentamente para lá e para cá como se estivessem perdidas e outras até mesmo paradas como se esperassem algo, às vezes ouvia um grito e outras vezes eram barulhos de tiro, centenas de vezes ela se imaginou pegando uma arma e saindo pelas ruas como uma personagem de filme de ação faz, ou então sonhava com um esquadrão mal encarado arrebentando a porta de sua casa e a salvando, na maioria das vezes ela apenas tinha pesadelos onde ela estava sendo devorada e nada conseguia fazer para impedir, noites assim ela acordava suando e percebia que os gemidos do quarto ao lado estavam mais ferozes. Há muito tempo tinha se acostumado com o cheiro, talvez tenha sido a primeira coisa com a qual ela havia se acostumado.

Tudo tinha acontecido muito rápido, era um dia como outro qualquer, pessoas falavam de ataques e de alguma doença, mas Carla não tinha tempo para ouvir essas bobagens, havia tantas coisas mais importantes para se pensar. Esse ano não estava indo bem na escola e tinha menstruado pela primeira vez hoje, bem no meio da aula, queria morrer, sumir do mapa, quem sabe voltar daqui uns cinco anos quando seu corpo estiver mais bem desenvolvido, afinal, nenhum garoto vai querer namorar uma menina tão magra e torta. Estava andando perdida em seus pensamentos, a escola nem era muito longe de sua casa, o bairro estava um pouco agitado, viaturas de policia e bombeiros passavam, ambulâncias iam e vinham, algumas pessoas gritavam e brigavam nas ruas, isso não era problema dela, entrou no seu prédio, pegou o elevador, ainda buscava soluções para seu vexame na escola. Antes de terminar de abrir a porta de casa sua mãe a puxou para dentro, estava com cara de assustada suava muito.

– Carla você está bem? Graças a Deus, Graças ao bom Deus.

– Que foi mãe?

– As pessoas estão loucas, você não viu? Lá fora? – Carla tentou se lembrar de ter visto algo em especial, mas nada lhe veio a memoria. Apenas balançou a cabeça negando. – seu pai foi atacado hoje, um homem louco o mordeu, arrancou carne dele Carla, carne viva, eu fiz um curativo, ele está no quarto esperando resgate, no telefone eles disseram que todas as viaturas estavam ocupadas, oh Meu Deus, nos ajude senhor. – sua mãe sempre foi muito dramática, ir tanto à igreja não lhe fazia muito bem, era uma mulher muito impressionável. Abriu a porta do quarto de seus pais, havia um cheiro estranho nele, seu pai estava deitado na cama tranquilamente, seu braço direito repousava sobre o corpo e ela pode ver o grande curativo que a mãe fez, nada mais do que um pano enrolado em volta do braço com marcas de sangue. Fechou a porta e foi para seu quarto, não queria mais ouvir os lamentos da mãe pelo telefone, ela brigava com alguma atendente da emergência, ora, seu pai foi atacado, mas não parece ser nada muito serio, amanhã já vai estar tudo bem com certeza. Entrou em seu quarto, fechou a janela, pegou seu ipod e se perdeu no mundo da música. Estava segura agora, longe da escola, longe do vexame, nada podia alcança-la ali, pelo menos até amanhã.

– Acorda, ACORDA CARLA. – a menina olhou assustada para a mãe, estava escuro, graças aos fones de ouvido ela não conseguia entender direito o que sua mãe falava.

– O que foi mãe? Que horas são? – Disse tirando os fones.

– Você não ouviu? – agora estava ficando preocupada, já estava acostumada com o gênio da mãe, mas dessa vez estava desesperada de mais até para ela.

– Ouviu o que?

– Tiros. Está acontecendo uma guerra lá fora, a televisão diz que algum tipo de doença, eles estão matando pessoas filha, é o fim do mundo. – aquelas palavras soaram meio como absurdo, mas mesmo assim Carla sentiu seu corpo tremer, esticou seu corpo até a janela, sua mãe a puxou de volta e a abraçou, ela estava chorando. Pode ouvir agora os barulhos de tiro, eram abafados e pareciam estar bem longe, os gritos não, os gritos vinham de todo lugar, do andar de cima, do andar de baixo, dentro e fora do prédio e também nos prédios vizinhos, mesmo não entendendo o que estava acontecendo, teve medo.

– Vamos arrumar as coisas e sair daqui, falaram na TV que tem um lugar seguro, vamos pegar o carro e sair, arrume suas coisas, eu vou arrumar as minhas e pegar seu pai. – parecia errado fazer aquilo, sair naquela bagunça, mas também não queria ficar ali, começou a juntar coisas na sua mochila, não conseguia pensar direito no que deveria levar, com certeza roupas, sapatos, cosméticos? Seria estúpido pegar essas coisas? A gritaria estava atrapalhando a pensar, juntou varias coisas e pegou a mochila, depois pensaria no que esqueceu, andou até a sala e viu uma mochila de viagem no chão, parecia que a mãe ainda não tinha arrumado tudo, foi até a cozinha, os armários estavam revirados, mas ainda tinha muita coisa neles, bem, também não da para levar muita coisa. Pegou um pacote de biscoito, deixou a mochila de lado e se sentou para comer. Já havia terminado e nada de sua mãe aparecer, será que ela estaria no banheiro? Foi conferir e descobriu que não, então restava apenas um lugar.  Andou até o quarto de seus pais, mas no momento em que colocou a mão na maçaneta sentiu um calafrio, alguma coisa estava errada, abriu a porta com cuidado, o quarto estava na penumbra e a única luz que se tinha vinha do abajur que ficava ao lado da cama, demorou alguns segundos para entender a cena que havia encontrado; a primeira coisa que se lembra de ter visto foi a mãe, ela estava olhando para a porta, seus olhos estavam arregalados e sua face contorcida, estava deitada no chão de barriga para cima e seu rosto voltado para porta estava de cabeça para baixo, seu pai estava em cima dela, a segurava com força enquanto ferozmente cravava seus dentes em sua barriga e rasgando sua carne, o sangue já estava espalhado pelo corpo de ambos. Ao perceber a porta aberta a atenção de seu pai foi para sua direção, ele olhava para ela com olhos vazios e ao mesmo tempo furiosos, pode sentir o desejo animalesco nos olhos dele e quando ele se levantou lento e desajeitado ela viu que ele ainda segurava o intestino de sua mãe; o cheiro era de sangue, fezes e doença, ele deu o primeiro passo em direção a porta soltando um gemido terrível que fez Carla acordar de seu pesadelo e ver que ele era real. O segundo passo foi desajeitado, mas foi largo o suficiente para quase atravessar o quarto todo, no próximo passo ele estaria em cima dela. Sem nem mesmo pensar passou a mão pelo lado de dentro da porta, o que antigamente era uma brincadeira que fazia com seus primos iria salvar sua vida, pegou a chave do quarto e bateu a porta com força trancando seu pai lá dentro no momento certo em que ele iria a ter alcançado, ele arranhou e esmurrou a porta, gemeu e gritou. Suas pernas haviam fraquejado, estava caída diante da porta, chorava, sua boca estava aberta e nenhum som saia, as suas lagrimas desciam e ela soluçava em silêncio, sua bexiga a havia traído, mas ela ainda não conseguia pensar em algo concreto, sua mente divagava e buscava alguma escapatória daquela realidade, a imagem ainda era muito viva e se repetia varias e varias vezes no mesmo segundo, o cheiro ainda impregnava seu nariz, então ficou ali sentada com a chave na mão e com lagrimas escorrendo dos olhos, não entendia, não acreditava, não podia, não conseguia acreditar ainda  e foi então que um segundo gemido se juntou ao primeiro, o som de duas vozes, os murros de quatro braços batendo na porta em que estava apoiada; sua única reação foi por a mão na boca e ter seus olhos arregalados, seu pesadelo acabou de piorar.

Underground: Parte Final – O Homem que Costura

– ABRA A PORTA. – Nada veio em resposta, nem mesmo um piscar de olhos. Philip não desistiria. – ABRA A PORTA AGORA SUA PRAGA. – Silencio absoluto. Philip deu um grito enquanto corria com o punho esquerdo cerrado em direção a cabeça de seu alvo e parando apenas alguns centímetros das grades. Nada, nem um movimento, nem mesmo a respiração do garoto havia se alterado enquanto Philip estava ofegante, transpirava com o calor gerado pelo seu ódio, sua cabeça estava quente e os pensamentos vinham rápidos e confusos, isso o deixava mais irritado ainda, pensou em socar as grades, as paredes, o chão e gritar com todas suas forças quando pensou no momento que segurou a mão de Cintia e seu coração foi tomado por uma dor fria como de uma facada.

– não vai adiantar não é? – O garoto o encarava ainda inexpressivo. – Gritar e fingir que irei te socar, não vai adiantar não é? – Philip respirou fundo, fechou os olhos e os abriu lentamente, sua respiração foi diminuindo se tornando quase imperceptível, estava sincronizada com a respiração do garoto a sua frente. Olhou lentamente ao redor, parecia haver apenas os dois naquele lugar e apenas uma lanterna de óleo iluminando todo o corredor e as celas, Philip sorriu, sua mão passou lentamente pela grade enquanto o garoto olhava fixamente em seus olhos, seus dedos se tocaram e pela primeira vez os olhos do garoto se desviaram, porém já era tarde, Philip havia segurado a lanterna e usou toda sua força para trazê-la para dentro da cela, a lanterna bateu com força na grade e seu vidro rachou com o golpe, porem continuou acesa pertencendo agora a Philip. O garoto estava com os olhos esbugalhados, uma expressão finalmente vinha daquelas cascas vazias, ele esticou o braço na direção da parede que logo surgiu com uma chave grande e cinza na mão, andou até a porta da cela, destrancou e abriu a porta andando na direção de Philip com as mãos vazias e esticadas na direção da lanterna. Philip deu dois passos para trás e o garoto avançou, deu três passos para o lado e o garoto o acompanhou.

– estupido! – foi o que Philip falou, não sabia ao certo se estava se referindo ao garoto ou a ele próprio por ter sido enganado por alguém tão lerdo. No mesmo instante o garoto avançou e Philip apenas jogou seu corpo para o lado deixando o garoto passar direto por ele, em menos de três passos largos Philip estava do lado de fora da cela e no momento que o garoto se virou Philip apenas fechou a porta e a trancou com a chave. O garoto avançou até as grandes e deixou que suas mãos esticassem para fora numa tentativa inútil de conquistar a lanterna de volta, Philip fechou o punho que segurava a chave, pensou em soca-lo, mas os olhos do garoto não desviaram da lanterna, era tal como uma mariposa que buscava a luz, sentiu pena dele, mas agora tinha algo mais importante para pensar. Virou as costas tentando localizar de onde veio o grito de Cintia.

– luz. – A voz saiu baixa e tremida, Philip voltou-se assustado para o garoto na cela e viu sua boca tremer enquanto pronunciava palavras quase inaudíveis. – luz… me dá… luz… luz… – Uma lagrima saiu dos olhos do garoto. – por… favor… luz…

As mãos de Philip começaram a tremer, como alguém poderia fazer algo assim com um garoto, um garoto da mesma idade que a dele, pensou em milhares de coisas que poderia fazer ou deixar de fazer e não sabia se alguma delas era certa ou errada e teve ódio novamente, dessa vez de sua própria consciência e fez algo que sabia que logo poderia se arrepender, jogou a chave para dentro da cela e correu sem nem querer saber se o garoto a pegou o a ignorou.

A principio correu sem destino querendo apenas se distanciar do garoto o mais rápido possível, mas logo percebeu que o corredor que ele seguia não tinha portas ou entradas, então seria apenas um único caminho a se seguir de qualquer forma, andou por algum tempo e o silencio junto à escuridão que se via a frente e atrás de onde estava trabalhavam junto a sua imaginação, logo ouvia passos, choros e via imagens de pessoas e sombras passando a sua frente apenas para desaparecerem em seguida o deixando completamente sozinho, quando finalmente viu uma luz adiante manteve distancia até se certificar que era real desta vez, para seu bem ou mal ela era real e era para lá que ele teve que seguir, aproximou-se o mais rente da parede possível alcançando a luz que vinha do que seria uma curva no corredor que seguia, seu coração estava quase saltando pelo peito, tomou mais um gole de coragem e olhou, sua surpresa não poderia ser maior, não era mais um corredor e sim uma gigantesca galeria, não parecia uma caverna e sim algum tipo de palácio subterrâneo com mesas e cadeiras que pareciam feitas de pedras, as paredes se misturavam como se fossem rocha pura que ia se transformando em uma parede de tijolos de pedra irregulares, porém, quando mais fundo os olhos de Philip caminhavam, mais regulares e perfeitas se tornavam a formação das paredes e também do chão, já o teto ele não enxergava. Andou lentamente pelos cantos seguindo na direção que a luz, percebeu que era de um ponto mais alto e que havia uma escada que ele poderia subir, subiu espreitando todos os cantos, já no final da escada a iluminação vinha com tanta força que fazia sua lanterna ser inútil e de lá ele podia ouvir barulhos como se alguém estivesse usando ferramentas, decidiu deitar-se no chão e se arrastar para a abertura para que assim ninguém pudesse vê-lo, dessa forma acabou demorando mais do que pensou que demoraria, não desistiu, logo estava onde queria e pode lentamente levar a cabeça até a abertura e assim ver o que o aguardava.

Era uma sala grande e circular, muito bem iluminada e com varias aberturas como portas assim como essa que ele se encontrava, o local que ele estava e os das outras portas eram em um ponto mais alto, sendo que são seguidas de uma escada de pedra de mais ou menos um metro e meio até o chão, na sala havia sete gaiolas bem grandes e num ponto bem alto no teto, todas elas estavam cheias, dezenas de crianças nuas amontoadas umas nas outras, silenciosas e inexpressivas. Havia também espalhados por todos os cantos do chão, pedaços de carne e ossos e o que poderiam ser órgãos, tudo junto ao mar de sangue, fezes e urina que cobria quase todo o chão como um fino lago, o cheiro era insuportável e Philip não conseguia se mover, estava paralisado de terror, não era o cheiro que fizeram seus olhos lacrimejarem, não eram os pedaços no chão e nem as crianças nas gaiolas, havia uma grande mesa no meio da sala e nessa mesa havia alguém amarrado e diante da mesa um homem ou o que parecia ser um, era alto, mais alto do que qualquer pessoa que Philip já havia visto, seu manto negro cobria quase todo o corpo e se misturava aos dejetos espalhados no chão, a pele era clara, quase albina e seu rosto era esticado e deformado num formato reptiliano com um nariz fino e uma boca que era pouco mais que um risco, porém os olhos eram grandes e esbugalhados e brilhavam com as chamas das lanternas ao redor da sala, seus braços eram longos e terminavam nas mãos com dedos longos que se esticavam muito além do que deveriam, cada dedo era uma grande agulha e ia afinando até chegar nas pontas de onde gotas de sangue escorriam, com esses dedos ele furava e cortava a carne de sua vitima, passava as pontas de suas agulhas em uma jarra que estava ao seu lado, o liquido escorria e se transformava numa fina linha, quase transparente e assim ele cortava e costurava a menina que mais parecia uma pequena boneca diante daquele ser. Em sua coluna um arrepio e em sua memoria as palavras de sua mãe ressoavam, ele não conseguia se lembrar do que ela falava.

O homem segurou a cabeça da menina delicadamente e com a ponta de um de seus dedos cortou algo que mantinha a boca da menina fechada, o grito que Cintia soltou foi tão alto e repentino que tirou Philip de seu transe, pode perceber o prazer doentio que o homem tinha vendo seu sorriso seco e seus olhos que gozavam de plena felicidade, ele estava se lambuzando com a dor e o sofrimento de Cintia, o ódio veio como uma chama no peito de Philip e pela primeira vez na vida o garoto de apenas doze anos teve a vontade de matar.

– PARE! – O homem olhou para ele surpreso e com um gesto rápido tocou o pescoço de Cintia e sua voz sumiu, porem os olhos e sua boca continuaram abertos demonstrando seu sofrimento. – SOLTE ELA, SOLTE ELA JÁ OU…

– Ou? – a voz do homem cortou a frase de Philip, ela soava surpreendentemente como uma voz normal e até mesmo bela. – Ou oque?  – Philip não conseguiu responder, havia algo errado, algo errado com os olhos daquele homem, não a aparência, algo dentro dos olhos e algo dentro da voz e em sua mente Philip ouvia sua mãe lhe falando algo, não entendia o que. – Venha aqui. – As coisas ficaram confusas, quando percebeu já estava descendo as escadas seguindo na direção da mesa.

– PARA TRÁS – Gritou levantando o punho para o homem que se aproximava.

– Curioso, muito curioso. Você não é um menino muito obediente, mas vai ser. Acalme-se. – A voz dele soava tranquilamente e Philip se acalmou. Pareceu um sonho por um momento, novamente a sensação de confusão, Philip se viu em pé ao lado de Cintia enquanto o homem pegava outro jarro que estava no canto, nas portas da sala surgiram vários garotos e garotas nus, um deles segurava uma chave na mão. Philip limpou a cabeça e voltou para Cintia, ela não estava amarrada, estava apenas deitada e seminua, sua camisa foi aberta e seus seios juvenis saiam para fora, Philip não pensou sobre isso, a segurou delicadamente e a fez se sentar.

– Pare. – A voz do homem soou novamente. – Você se deite e você venha aqui. – Novamente se sentiu naquele sonho estranho, a voz de sua mãe soava em sua mente, ela estava lhe falando algo, um aviso. Piscou os olhos e se viu diante do homem, ele segurava seu braço analisando suas suturas. Philip puxou o braço com força e correu para o outro canto da sala, o homem pareceu extremamente surpreso. – Curioso. – ele repetiu. – Você é diferente, mas logo isso não vai importar. Venha aqui.

Mais uma vez a sensação de sonho, sua mãe lhe falava em alerta. Abriu os olhos no meio da sala e parou. O homem mudou de face, estava ficando nervoso com aquela situação, olhou com seus olhos monstruosos para Philip e gritou: – ESCUTE MINHA VOZ.  – A sensação do sonho junto de uma sensação de urgência, sua mãe gritava para ele, lhe dava um aviso, um aviso que ela já havia lhe dado varias vezes e ele nunca escutava, nunca havia dado importância, ela gritou para ele e ele escutou sua mãe pela primeira vez: – Não escute o que vem do subterrâneo, não olhe para lá e não escute sua voz ou você será um de seus bonecos. E Philip se viu diante do homem, tão próximo que podia sentir seu hálito podre, Philip olhou ele nos olhos e ele percebeu que o encanto novamente havia sido quebrado, mas antes que pudesse proferir mais alguma palavra Philip o respondeu:

– Não. – E sabendo que ainda segurava a lanterna de óleo ele a segurou com as duas mãos e girou o corpo usando toda sua força para bater na face do homem, a força foi tanta que o vidro terminou de quebrar espalhando óleo e fogo pelo corpo do homem, o grito que ele soltou foi alto e doentio enquanto o fogo se espalhava pelo corpo e ele lutava para apaga-lo. Philip correu até Cintia e no momento que ele a tocou ela saiu do transe novamente, a garota estava pálida e teve e tentou vestir a parte de cima de sua roupa, ela acordava como alguém que acordava de um sonho, estava confusa de mais para agir direito então Philip segurou sua mão e olhou para o grupo de criança a volta, todas silenciosas observando seu mestre gritar e queimar, uma das crianças se moveu, olhava fixamente para Philip e usando a mão que segurava uma chave ele apontou para uma das portas, Philip não pensou, apenas correu, abriu espaço entre as crianças e correu mais e mais, puxava Cintia sem olhar para trás, subiu escadas e mais escadas até as escadas se tornarem um caminho te terra e guiado por luz alguma Philip foi seguindo apenas para onde sentia que um ar gelado vinha.

O ar puro foi um choque, percebeu que estava na floresta e que era noite, estava escuro, mas não o suficiente para ficar cego, havia estrelas e uma lua brilhando no céu, olhou para trás e não viu nenhuma caverna, não havia nada por onde eles pudessem ter saído, existia apenas eles e a floresta, não era hora para pensar, andaram em silencio, Cintia parecia não estar em condições de conversar de qualquer forma e assim logo eles chegaram na cidade, não estavam muito longe dela no fim das contas e com muito pesar no coração Philip resolveu deixar Cintia no posto policial, ela não conversava e só andava se ele a puxasse, ele não sabia como ajuda-la, a deixou lá e saiu antes que os policiais o vissem, pensou em procurar por Cintia quando amanhecesse na esperança dela estar melhor. E assim Philip finalmente correu para sua casa, a janela de seu quarto ainda estava aberta, pensou se de alguma forma o tempo não havia passado, mas estava cansado e dolorido de mais para pensar sobre isso também, entrou pela janela de seu quarto em silencio e a fechou conferindo que há havia trancado, cambaleou até sua cama e adormeceu um sonho profundo e sem imagens ou som, acordou muito tempo após o sol nascer, podia ouvir sua mãe cantando enquanto cozinhava como de costume e seu corpo relaxou, foi tudo um sonho ruim no fim das contas, um pesadelo e nada mais, não faria mal dormir mais um pouco então. A janela aberta deixava entrar um vento suave e confortável, Philip dormia sem perceber que segurava firmemente uma chave que durante a noite lhe havia sido deixada.

Underground: Parte 4 – A Criança Sequestrada

A luz ia e vinha, vinha e ia. Não sabia dizer se era a luz que se movia ou se havia algo pendulando a frente dela, isso o deixou irritado, era como se a luz e a sombra zombassem dele, zombasse com uma dança incompreensível e irritante, sua raiva aumentava cada vez mais e o frio que sentia e que dava a sensação de dormência em seu corpo o deixava mais irritado ainda, com um esforço absurdo abriu os olhos, tudo estava tão claro. Levantou da cama e foi até a janela, o vidro estava trincado, não apenas de um lado, mas todos os vidros e não apenas os vidros, as rachaduras desenhavam teia além da janela e seguia por todo o seu quarto, era como se tudo fosse feito de vidro e uma sombra dançou duas vezes na sua frente como um pendulo novamente, primeiro para a esquerda e depois para a direita. Caminhou lentamente pela sala, estava tudo tão claro, tudo tão nítido que chegava a brilhar, viu sua mãe caminhando até o quarto, seguindo ela se deparou com um quarto vazio, não havia nada, nem um móvel, nem a cama de sua mãe que supostamente deveria estar ali, voltou para sala e se surpreendeu com a grande gaiola que estava no meio dela, a gaiola era grande de mais até para ele, porém havia um pequeno canário lá dentro, tão pequeno que poderia passar por entre as barras de aço da gaiola sem encostar-se a elas, mas ao invés disso ele apenas ficava pulando de um lado ao outro, primeiro para a esquerda e depois para a direita e repetia o movimento enquanto abria e fecha o bico com muita energia, no entanto a ave não soltava nenhum som. A sombra dançou em sua frente mais três vezes, isso o deixou bastante irritado, suas mãos ainda estavam dormentes, fazia muito frio.

Abriu os olhos com muito esforço, lutou bravamente contra seu corpo para se sentar e poder sair da cama, fazia muito frio. Andou até a sala, estava coberta de neve, tudo branco e tão claro que até o ofuscava, andou com dificuldade, seu corpo pesava toneladas, estava quase se arrastando para andar, seus braços estavam dormentes, nada sentia neles e no meio da sala havia algo minúsculo, um pequeno canário amarelo, estava congelado e morto. Abriu os olhos com muita dificuldade, a sombra passou por entre a luz duas vezes. Tentou fazer força para abrir os olhos, estavam muito pesados, seu corpo não se movia, tentava fazer um esforço absurdo, abriu os olhos com tanta força que sentiu dor, levantou de sua cama e andou até a floresta, andou até a caverna e deu a mão para um garoto que não tinha sequer um pelo no corpo e estava completamente nú. Tentou abrir os olhos com urgência, alguma coisa estava muito errada, a luz e o frio, a sombra e a dormência. Levantou-se da cama, mas ainda estava tudo errado, seus olhos estavam abertos e não estavam. A sombra dançava na luz, seus olhos estavam pesados, seu corpo estava dormente, fazia muito frio, pesado, tudo muito pesado, sentia dor, muita dor. A sombra dançava lentamente, agora havia tanta luz quanto havia sombra, a dor preenchia todo o seu corpo, seus olhos estavam pesados, ele tentou abri-los com toda a força que tinha. Queria gritar de dor, abria a boca e nada saia, nem um som, seus pensamentos estavam confusos, tentava gritar, tentava abrir os olhos, algo estava muito errado e a sombra estava parada bem na sua frente e ele sentia ela o furar, rasgar e sentia sua carne sendo cortada, sentiu seu osso quebrado sendo movido, seu estomago embrulhou e a luz foi apagada.

Estava frio e húmido, abriu os olhos sem esforço algum, seu corpo inteiro doía, sentia como se estivesse com febre. Apoiou com o braço esquerdo no chão para levantar e soltou um grito de dor, estava doendo muito, tudo estava doendo, porem o braço funcionava direito agora, ele passou a mão e não achou a ponta do osso que antes saia e nem a carne rasgada, ao invés disso ele sentia o que pareciam ser vários pontos no braço, ele foi costurado e o osso foi colocado no lugar de alguma forma. Andou até a luz fraca que vinha do lado de fora da cela que ele estava e com a luz ele pode ver os remendos cirúrgicos que constituía seu braço. Respirou fundo enquanto tentava relembrar todos os fatos que ocorreram anteriormente, olhou em volta para ver se encontrava Cintia, porém não havia ninguém em sua cela, respirou fundo novamente e então tentou formular um plano.

A luz que vinha do lado de fora de sua cela poderia ser uma tocha ou um lampião, poderia usar como arma talvez, então foi até o canto onde a parede e as grades se encontravam e grudou seu corpo rente à ela, seu braço direito passou pela fresta que se dava entre a parede e a primeira barra de aço, foi tateando a parede até chegar a algo macio, tateou aquela estranha superfície sentindo nela varias protuberâncias pequenas e finas, seu coração gelou quando ela se moveu, Philip retirou rapidamente o braço do lado de fora da cela. Estava agora frente a frente com um garoto de sua altura, completamente nu e sem um fio de cabelo, o garoto era inexpressivo e segurava firmemente uma lanterna de óleo com sua mão esquerda. Pela primeira vez ele podia olhar para seu captor, não tinha certeza se aquele garoto que estava na sua frente era o mesmo que o havia sequestrado, mas sentia que era o mesmo, aquele olhar era. Philip reparou em algo a mais, o garoto estava repleto de cicatrizes assim como as cinco crianças de antes, havia diversas nos braços e pernas, entre sua pelve e até em sua genital, subiam pelo abdômen e iam através do peito seguindo até o pescoço, todas eram cicatrizes cirúrgicas bem finas e traçadas como um desenho de uma tatuagem, Philip passou a mão em seu braço esquerdo sentindo os pontos em sua carne quente e pulsante graças ao inchaço, assim Philip deslumbrou de seu futuro, se viu nu e completamente sem pelo andando pela noite sequestrando crianças e sendo o escravo desalmado de alguma coisa, de algo que espreitava no fundo da caverna, esse pensamento gerou medo e repulsa, surgiu uma descrença sobre o que estava acontecendo e uma necessidade desesperada de acordar, porem antes que Philip pudesse cair em pânico e desespero um grito ecoou pelos corredores, uma voz feminina que urrava de dor e medo, uma voz que ele conheceu há pouco tempo e soava como a voz da pessoa mais importante do mundo, então Philip encarou o garoto nu que nem ao menos havia se movido e decidiu, ele irá salvar Cíntia ou morrerá tentando.

Pouco Tempo

Faz pouco tempo, mas realmente parece que foi a poucos minutos atrás, eu do seu lado e você do meu e era do jeito que a gente gostava.
Faz pouco tempo e as vezes parece que não faz tempo nenhum, teria sido apenas um sonho ruim e logo eu acordaria para saber como vai ser o seu dia.
Para onde vou nas curvas da cidade eu olho para o lado e ainda vejo você lá, nessas estradas eu me sinto sozinho, me desculpe, não posso evitar.
Uma vida inteira foi tão pouco tempo com você e também foi suficiente para te amar e por toda uma vida no coração te levar.
E se eu durmo pouco e nas noites eu levanto eu te vejo sorrindo por onde eu possa andar.
É triste dizer que em todos os meus sonhos eu só te vejo feliz e so te vejo brilhar?
Acredite em mim quando eu digo que estou feliz, por mais que eu chore,  por mais que eu me esconda, quero apenas que você acredite que eu estou feliz pois eu sei que você está.
E mesmo que eu fique triste, por favor, não fique por mim, a tristeza faz parte de quem fica e é necessária para nos lembrar de toda felicidade que podemos vivenciar.

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